Descrição de chapéu Entrevista da 2ª racismo

'Começamos o movimento não de ocupar lugares, mas de construí-los', diz Kondzilla

Konrad Dantas, fundador da maior produtora de funk do país, quer brigar por liderança mundial na música

Retrato de Konrad Dantas, o Kondzilla

Retrato de Konrad Dantas, o Kondzilla Danilo Verpa/Folhapress

Denise Mota
Montevidéu

“Sorte.” Esse é o fator que liga, em menos de duas décadas, a infância na favela do Santo Antônio, no Guarujá (SP), e a construção de uma companhia de entretenimento com produtos que acumulam mais de 30 bilhões de visualizações.

E essa é a palavra escolhida pelo empresário e produtor Konrad Dantas para identificar o elo entre seu caminho inicial de experimentação com o rap ainda na adolescência e a eclosão do grupo de empresas KondZilla —cujo carro-chefe é o funk e que tem como braço mais conhecido o canal no YouTube que conta hoje com 62 milhões de inscritos, o maior do Brasil e o sétimo do mundo nessa plataforma.

“Houve a combinação de vários fatores: inclusão digital nas periferias, YouTube começando e se transformando, a evolução da tecnologia. Eu chego em um momento em que as câmeras de foto começam a fazer vídeo”, enumera. “Tudo isso em um período de dois anos é sorte. E eu estava preparado. Se tivesse acontecido cinco anos antes, eu não estaria. Se tivesse acontecido cinco anos depois, talvez tivesse desistido.”

Mas reconhecer-se no clichê da pessoa certa no momento certo —também um dos cem afrodescendentes mais influentes do mundo, segundo a ONU, no ano passado, e recém-premiado no Caboré deste ano— não significa alimentar uma visão romântica sobre o que conquistou nestes nove anos de carreira.

“Fomos construindo nossa própria sorte depois… Você acha que, se o canal não fosse um sucesso no YouTube, a Netflix ia me dar a oportunidade de fazer uma série de ficção?”, questiona.

Sobre abrir portas, racismo e poder cultural das periferias, Dantas deu —sem pressa nem rodeios— a seguinte entrevista à Folha.

*

Existe um universo KondZilla, onde a favela é o motor a partir de onde nascem todos os projetos?
A favela não é o motor, é o combustível. O motor é a própria indústria. Porque a favela acaba entrando em diversos segmentos, indústrias. Este ano fomos indicados ao prêmio Caboré, por exemplo, que é um dos maiores da publicidade [a produtora acabou ganhando o prêmio, no último dia 2]. É a favela entrando no motor dos outros. Estamos ocupando. O motor é um bloco, mas o líquido consegue penetrar em qualquer espaço.

O segredo da KondZilla é entender o Brasil? 
Acho que é respeitar o Brasil. A gente chegou em um momento de transição entre a programação tradicional e o serviço on demand, onde você escolhe o que quer consumir. E começamos a produzir conteúdo para um público que também começa a ter a oportunidade de consumir o que quer. E nessa escolha, essa pessoa elege consumir algo com que se identifica, que a representa. Representatividade para mim hoje é escolher algo que seja semelhante a você. Antes não havia essa oportunidade. Hoje estamos no momento da escolha. Antes, era preciso agradar um branco, executivo, filho de europeu, com sobrenome italiano, diretor de alguma multinacional que operava aqui no nosso território.

Você sente o peso de ser um exemplo inspirador, com uma história que possibilita que outros jovens sonhem, dentro das comunidades de periferia?
O peso da responsabilidade é natural, qualquer líder é exemplo. Se eu sou fundador de uma companhia e cofundador de outra (a agência e gravadora KondZilla Records), há pessoas que se inspiram em mim e outras também que torcem para que dê tudo errado, para ocupar nosso lugar.

Você já disse que teve que abrir mão de muitas coisas para construir a KondZilla. Do que você abriu mão?
Do meu tempo, de curtir, de estar com amigos. Quando vim morar em São Paulo, não tinha dinheiro para voltar para a Baixada (Santista). Então ficava em São Paulo nos finais de semana. Editei clipes por muito tempo e, nos fins de semana, se eu não estivesse editando algum trabalho, procurava dormir.

Não tinha grana para sair, para dar um rolê, ficava meio com vergonha da minha namorada na época, hoje a minha esposa. Porque, se a gente decidisse dar uma volta no parque e ela pedisse uma água de coco, não íamos ter grana para pagar. Então a gente ficava em casa vendo TV. Abri mão de muita coisa. Hoje a galera não quer as renúncias, mas quer colher os frutos. Eu tinha 18 anos e estava estudando computação gráfica. Você acha que eu não queria estar com os meus amigos na praia?

“Ser negro não basta. Tem que se preparar e estudar, recuperar as oportunidades que a gente não teve.” Outra frase sua. Por que você diz isso a quem te pede conselho?
Meus competidores são companhias multinacionais. Você acha que os caras querem saber da minha origem? É isso o que eu quero dizer. A gente tem que ir para cima, sim. O dono da Warner não está preocupado em saber de onde eu vim. Se eu não me engano, ele é a décima pessoa mais rica do mundo. Você acha que ele está preocupado comigo, que estou disputando market share com ele? No top 50 do Spotify, só cabem 50. E eu estou disputando esse espaço.

Há o risco de cooptação das pautas das favelas ou de agendas da negritude pelas marcas?
Isso é delicado. Estava comentando isso com a minha turma. Eu sou de uma família negra. Se eu chamá-los de negros, eles se sentem negros. Se eu chamá-los de pretos, eles se ofendem. Em São Paulo, é outra cultura, a galera já se entende como preto. Estamos em um momento de nos entendermos. Existem visões diferentes sobre negritude. É negritude ou pretitude?

Eu me baseio muito mais na agenda da favela hoje, mas estou estudando sobre antirracismo também. Porque de onde eu vim havia muitos migrantes nordestinos, indígenas, eu sou do litoral de São Paulo. Então o forró na minha região sempre foi muito forte, por exemplo. É uma realidade diferente da de São Paulo (capital), do Rio ou de Salvador.

E o uso das marcas?
É como em qualquer relação, é um jogo para que todos ganhem. Também na relação comercial. É preciso saber aonde queremos chegar com a parceria com determinada marca. É só um cachê? Eu vou converter isso de alguma forma? Vou me associar a uma marca que sempre agrediu meu público? Várias marcas antes não queriam se associar ao nosso público. Então agora eu faria um acordo com eles?

Como harmonizar esses mundos, de diferentes percepções de negritude, de realidades diversas, e manter também o objetivo comercial?
Tentamos entender como ocupar os espaços que antes a gente não ocupava. Como eles se comportam. Entender o que é original, ou interessante, e quais são os limites. Sobre a cultura que a gente realiza hoje, que é a cultura de favela —ou cultura urbana, que é uma forma acadêmica de entender isso ou como se identifica na indústria—, a gente pensa como ela é aceita.

vários rappers conhecidos mundialmente que falam de temas que não conseguimos falar aqui no Brasil de forma comercial. Falam de crimes, drogas, tráfico, tiro etc., um 50 Cent, um Jay-Z da vida. O Jay-Z deu entrevista ao David Letterman, e ele perguntou como era a vida dele vendendo crack aos 16 anos. O Jay-Z é o primeiro rapper bilionário da história, bilionário, e fala disso numa boa. Aqui no Brasil não existe essa abertura.

Como vê as discussões sobre a criminalização do funk?
Isso é histórico, qualquer cultura de origem periférica é perseguida. Ainda mais se tem audiência, se ocupa o top 50. “Como é que essa galera está ocupando nosso espaço? Sendo que a gente é que é indústria… Como é que eles fazem isso sem planejamento, sem grupo de fundo de investimento apoiando?” Existem diversos pontos aí, tanto culturais como sociais e comerciais. Estamos ocupando esses lugares. Antes a gente ficava refém do gosto musical de um executivo. Hoje é sair distribuindo e aguardar que o público aprove.

Há mais conscientização sobre racismo e desigualdade no Brasil?
O trabalho que o Lula fez, das cotas, foi fundamental. Hoje eu sinto o resultado disso na indústria. Fico pensando: caramba, como é que a marca tal nos escolheu? Aí depois a gente vê que no time de marketing havia alguém que foi cotista, que disputou uma vaga como trainee, subiu e sugeriu nosso nome porque é o que ele consome.

E o VP de marketing, que é muito mais velho, não sabe o que está rolando no mercado, ouve a sugestão desse cotista e depois manda um WhatsApp para o filho, para confirmar, e o filho consome o que a gente faz. E acho que agora começamos o movimento não de ocupar os lugares, mas de construir nossos lugares. Antes o pensamento era querer fazer carreira numa multinacional. Agora o pensamento é querer que a sua companhia seja multinacional.

Você é um militante?
Sou um sonhador, um cara chato a ponto de insistir exaustivamente até alcançar um resultado. Nosso trabalho é coletivo, impacta na vida de muitas famílias, no sentido social, econômico, cultural. A KondZilla hoje talvez tenha ao redor de 70 pessoas ligadas diretamente a esse trabalho.

Existe o assédio de políticos que te procuram para melhorar a imagem deles nas comunidades?
Não, isso não. Mas a gente está procurando desenvolver projetos com governos, independentemente de quem estiver na gestão.

Vem aí um Konrad Dantas candidato?
Não. Candidatos só conseguem ajudar por quatro anos.

Qual seu objetivo maior de vida?
Quero mostrar para toda essa turma que é possível. Claro que existem situações adversas no meio do caminho, mas existe um caminho para construir e chegar lá. Não vai ser fácil nem rápido, mas existe um caminho.

Aonde você quer chegar?
A todos os lugares que antes diziam que era impossível ocupar. Quero ser a maior companhia de entretenimento.


Raio-x

Konrad Dantas, também Kond, ou KondZilla, 32. Empresário, produtor, fundador da holding de comunicação KondZilla. Iniciou sua carreira em 2011. e abriga em seu canal alguns dos maiores hits do funk da útima década, “Olha a Explosão” (MC Kevinho), “Bum Bum Tam Tam” (MC Fioti), “Amor de Verdade” (MC Kekel e MC Rita”) e “Baile de Favela” (MC João). Criou e dirigiu a série “Sintonia” (2019), exibida pela Netflix em 190 países.

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