Saiba como os psicodélicos podem mudar o tratamento de transtornos mentais

Livro relata pesquisa pioneira no Brasil sobre os benefícios da ayahuasca contra a depressão

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Marcelo Leite

Colunista, doutor em ciências sociais, autor dos livros "Promessas do Genoma" e "Ciência: Use com Cuidado"

[resumo] Neste texto, parte do livro “Psiconautas - Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira” (ed. Fósforo), com lançamento em 13/5, jornalista conta os bastidores de uma pesquisa pioneira no Rio Grande do Norte sobre os benefícios terapêuticos da ayahuasca no tratamento da depressão.

Odair do Livramento conta que bebeu o “chá do índio” uma única vez, numa quarta-feira de 2015, durante o experimento no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL) —como nenhum participante sabia com certeza o que tinha tomado, pode ter sido placebo.

O pesquisador Dráulio Barros de Araújo lhe perguntara se topava tomar a bebida amarga e amarronzada que se prepara com o cipó-mariri (Banisteriopsis caapi), também chamado de jagube, e as folhas da chacrona (Psychotria viridis), um sacramento nos cultos de religiões como Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha. “Topo, tomo até veneno”, disse o pescador atormentado.

Ele descreveu assim a beberagem cedida à universidade pela Barquinha de Ji-Paraná (RO), que o placebo procurava imitar com aditivos para cor, sabor amargo e capacidade de provocar desconforto gástrico: “O bicho é forte. Tinha cor de sangue, um bafo de sangue”.

uma pessoas olha de longe uma imagem de hipnose colorida
Ilustração de Jairo Malta - Jairo Malta

Três anos depois de participar do estudo, já não tinha muita clareza sobre o que vivenciou. Conta que sonhou com uma santa de cabelos muito compridos na região do Canto do Mangue, onde fica o mercado de peixes de Natal. A entidade perguntou-lhe se tinha coragem para cair na água com ela e atravessar a barra, passando debaixo da ponte.

Ele respondeu que só tinha medo de cação. A santa: “O senhor andando mais eu, está abençoado, o tubarão não vai pegar. Mas vou pedir para o senhor acender aqui dois maços de vela”.

Já em terra, olhou de volta para o mar e não viu mais ninguém, conta Odair. A voz e as mãos começam a tremer. Entre lágrimas, diz que nunca voltou para acender as velas: “Tá pronto pra mim. Não acendi os dois maços. Mas tenho fé em Deus que ainda vou acender, não esqueci. Promessa é promessa”.

Ele relata que sentiu o efeito no corpo todo, em cinco minutos (a ayahuasca demora bem mais que isso para agir), recolhido na salinha do Hospital Universitário. Foi como uma anestesia: passou a dor no ombro, no braço, nas pernas. Por causa delas tinha vendido a bicicleta, não conseguia mais pedalar. Até para vestir uma cueca precisava sentar-se, não dava jeito. Mas o pior era a barriga, que vivia inchada e dura: “De lá para cá acabou-se”, conta o pescador.

Pergunto o que o ajudou mais, se foi a bebida ou se foi a santa dos cabelos compridos que o convidara para nadar com o tubarão debaixo da ponte. Ele: “Os dois. O chá primeiro”. Embora se descreva cansado, “mais embaçado que carro velho”, Odair diz que sua vida melhorou. Não pensa mais “besteira”. A mulher, Ivoneide, conta que depois do experimento ele ficou mais leve, até hoje.

Como os outros 28 participantes do teste clínico com depressão moderada a grave, Odair tinha sido admitido no HUOL na tarde da terça-feira, o dia anterior à sessão com ayahuasca ou placebo, após o chamado “washout”, um período de duas semanas sem tomar nenhum medicamento antidepressivo.

Catorze deles tomariam o chá, e os outros 15, o placebo, a bebida inócua. Os critérios para ser aceito no estudo eram ter passado por tratamentos com pelo menos dois remédios antidepressivos de classes diferentes sem bons resultados e não ter contato prévio com ayahuasca.

Na mesma tarde, o pescador enfrentou consultas com psiquiatras e psicólogos, submeteu-se a exames de ressonância magnética funcional e, já durante o sono, de eletroencefalografia.

Na quarta-feira, o segundo dos quatro dias do experimento, coletaram-se amostras de sangue e saliva, houve novos encontros de preparação e, das dez às quatro, a sessão com ayahuasca ou placebo numa sala com poltrona confortável e música suave tocando em fones de ouvido, seguida de questionários de avaliação do estado mental (escala de depressão, experiência mística etc.).

Na quinta, nova bateria de exames e testes. Na sexta, última amostragem de sangue e saliva, consulta derradeira com psiquiatra (que seria repetida sete dias depois) e alta.

A intensidade da depressão dos participantes no estudo da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) foi avaliada por meio de dois questionários e escalas padronizadas (HAM-D e MADRS) com intervalos de um, dois e sete dias depois da sessão de dosagem.

Dos 14 pacientes que tomaram ayahuasca e não placebo, 9 apresentaram escores mais baixos de depressão já nos primeiros dias e, para surpresa dos pesquisadores, alguns chegaram a ter resultados ainda melhores sete dias depois. No grupo de controle, que ingeriu placebo, quatro manifestaram melhora.

São resultados encorajadores e coincidentes —ainda que obtidos num grupo diminuto de pessoas— com a observação anedótica de que são menos comuns os casos de depressão entre seguidores das religiões da ayahuasca, como constatado em vários estudos baseados em aplicação de questionários de avaliação de transtornos mentais em usuários experientes e novatos do chá.

O efeito rápido e persistente por sete dias também contrasta com o da classe mais receitada de antidepressivos, os inibidores seletivos de recaptação (reabsorção) de serotonina.

Com a promessa de revolucionar o tratamento da depressão, os ISRS, como a fluoxetina, comercializada a partir de 1987 pela Eli Lilly com o nome de Prozac, costumam demorar semanas para trazer benefícios, podem ser acompanhados de efeitos adversos, como perda de libido, e desencadearam controvérsia sobre possível aumento de pensamentos suicidas, particularmente em crianças e adolescentes —sem mencionar o fato de que não ajudam cerca de um terço dos pacientes, como os que participaram da pesquisa em Natal.

O trabalho realizado pela equipe do Instituto do Cérebro e do hospital da UFRN confirma o potencial inegável dos compostos da ayahuasca para os cerca de 300 milhões de pessoas que sofrem com depressão no mundo, dos quais 100 milhões são resistentes aos antidepressivos convencionais.

A publicação do artigo técnico registrando o achado, entretanto, só aconteceria em 2019, após recusa dos editores de uma dúzia de periódicos científicos, mesmo com comentários favoráveis de vários revisores.

Certos de que tinham em mãos resultados relevantes para a ciência e a saúde pública, em janeiro de 2017 os autores já haviam decidido torná-los públicos no diretório de acesso aberto bioRxiv, prescindindo para tanto do aval de pares na comunidade biomédica, ou seja, sem a chamada “peer review”, a revisão por pares normalmente adotada por revistas acadêmicas para ancorar a qualidade das pesquisas publicadas.

“Pelo nosso conhecimento, este é o primeiro ensaio clínico controlado a testar uma substância psicodélica para depressão resistente a tratamento”, escreveram os pesquisadores nas conclusões, sem pejo de anotar o ineditismo do trabalho. “No geral, este estudo traz nova evidência de apoio à segurança e ao valor terapêutico da ayahuasca ministrada em uma situação (setting) apropriada para auxiliar no tratamento da depressão.”

A pesquisa foi noticiada em vários jornais do mundo. Antes disso, só haviam sido publicados artigos sobre uso de psicodélicos contra depressão em testes abertos, sem grupo de controle com placebo —seja com ayahuasca, estudo feito por alguns cientistas do mesmo grupo, seja com psilocibina, investigada por uma equipe do Imperial College de Londres.

A primeira autora do artigo sobre depressão é Fernanda, o F da citação acadêmica que começa com “Palhano-Fontes, F.”. Miúda e sorridente, a engenheira é tomada com frequência por médica ou enfermeira nos corredores do HUOL.

Tornou-se o rosto mais conhecido para os 29 pacientes que tomaram parte na pesquisa com ayahuasca, pois toda a logística passava por ela: marcar consultas com psiquiatras e psicólogos, coletas de sangue, exames de neuroimagem, garantir que os pacientes seriam internados no dia e na hora certos, agendar entrevistas uma semana depois. A pesquisadora conta que não foi nada fácil, de início, a transição da engenharia para a neurociência: “A maioria dos meus colegas de faculdade ganhando dinheiro no petróleo, e eu com vida de estudante”.

A migração teve origem numa palestra do físico Dráulio de Araújo a que ela assistiu, em outubro de 2009, no Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IIN-ELS), do qual surgiria em 2011, como dissidência, o Instituto do Cérebro da UFRN. Gostou do que ouviu sobre aplicação de técnicas para obter imagens do cérebro em funcionamento nos campos da clínica e dos estudos de neurociência.

Candidatou-se então à seleção para o mestrado e foi aprovada para trabalhar com ressonância magnética funcional, uma das ferramentas utilizadas por Dráulio. Só depois de passar no exame ficou sabendo que os objetos da pesquisa eram ayahuasca e depressão, coisas com as quais ela nunca havia tido contato, mas foi em frente sobretudo por causa da paixão pela técnica para obter imagens do cérebro.

Para complicar sua opção de carreira, tudo aconteceu na semana em que o cartunista Glauco Villas Boas, adepto do Santo Daime, foi assassinado com o filho Raoni no templo da comunidade Céu de Maria, fundada por ele em Osasco, caso que alcançou repercussão nacional.

A pesquisa de mestrado de Fernanda, publicada em 2015, investigou com ressonância magnética as conexões entre áreas do cérebro de dez usuários experimentados de ayahuasca. E confirmou, no caso do chá, um efeito conhecido de outros compostos psicodélicos, como LSD e psilocibina, e também da meditação: uma redução na atividade da rede de modo padrão, ou DMN (do inglês “default mode network”).

Essa rede se compõe de um conjunto característico de conexões entre áreas do cérebro e fica muito ativa durante a introspecção, quando a pessoa não se encontra envolvida em tarefas com objetivo definido, mas ciente dos próprios pensamentos e emoções, concentrada em sua biografia e no futuro.

Se o cérebro fosse um serviço de TV paga, suas diferentes redes seriam grupos de canais mais especializados, como, no caso da rede de modo padrão, os dedicados a filmes biográficos, dramas históricos ou de guerra e ficção científica.

A DMN se mostra um tanto turbinada em transtornos mentais como a depressão, quando a pessoa não consegue se livrar de pensamentos negativos sobre a vida. Seria como se uma pane no sistema do serviço pago restringisse o acesso a todos os outros canais, e a pessoa ficasse condenada a assistir só a alguns, sem comédias, filmes românticos, documentários, notícias ou musicais, por exemplo. Nos casos graves, só passam biografias de gente infeliz, histórias de guerras sangrentas e futurologia distópica.

Especula-se que o efeito terapêutico dos psicodélicos venha ao menos em parte da capacidade de relaxar a DMN, ou seja, seguindo a analogia, de restabelecer o acesso ao restante da programação.

Ainda durante o mestrado de Fernanda, Dráulio e ela começaram a pôr em prática a ideia de uma investigação mais ambiciosa sobre ayahuasca e depressão, incluindo o grupo de controle com placebo, além de analisar marcadores biológicos como o nível do hormônio cortisol e as imagens de ressonância magnética funcional com pacientes sem experiência anterior com o chá.

Como executora do projeto, a engenheira acabou por se enfronhar também na análise dos questionários, vale dizer, na mensuração e tabulação dos efeitos antidepressivos. “A gente via algo mais acontecendo. O que estamos vendo de melhora, será que é real?”, questionava-se. Em linguagem científica, a pergunta era se a redução nos escores das escalas de depressão eram estatisticamente significativos —e assim se comprovou.

Conviver estreitamente com os pacientes transformou Fernanda. No hospital, ela já nem se dá mais ao trabalho de ficar repetindo que é engenheira, e não médica, embora recuse apresentar conselhos quando lhe pedem, explicando que não pode clinicar. “Gostei muito de fazer coisas mais aplicadas, ter contato com as pessoas, ver as coisas acontecendo”, diz, com os olhos brilhando. “Penso em continuar avaliando a ayahuasca como tratamento. Talvez com mais doses? Poderá tornar-se um tratamento alternativo?” A análise das imagens, sua antiga paixão, ficou para mais tarde.

O primeiro contato do físico cearense Dráulio de Araújo com a ayahuasca se deu em Ribeirão Preto (SP), no Dia de Finados de 2005. Ele era professor no Departamento de Física do campus da USP na cidade e foi levado por Tiago Arruda Sanchez, então aluno de doutorado e hoje professor na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a uma sessão do Santo Daime no Rainha do Céu, centro mantido por César Augusto Villas Boas, o Pelicano, irmão do cartunista Glauco.

O festejo por conta de Finados começou às 21h e durou até 7h, e o físico saiu de lá com uma pergunta: qual é a natureza da realidade?

Durante o efeito do chá, teve visões bizarras com vários elementos de sonho, mas com um senso de realidade exatamente igual, comenta, ao do momento da entrevista realizada num hotel de São Paulo, em novembro de 2019.

A bizarrice do sonho só é percebida como real enquanto ele dura e, no acordar de quem sonha, ela se dissipa. Não é assim com as mirações da ayahuasca, que deixam a impressão de realidade mesmo depois de terminada a viagem. “Precisamos estudar isso, usar as nossas técnicas”, comentou com Tiago à saída do culto.

Ele se referia principalmente à ferramenta da ressonância magnética funcional, técnica que permite registrar a maior ou menor atividade de regiões do cérebro, e que sabia usar bem.
]Começou a colaborar, então, com o psiquiatra Jaime Hallak em pesquisas para entender o efeito do chá na mente e seu potencial terapêutico, parceria da qual resultariam um trabalho de 2011 sobre a base neural das visões obtidas com ayahuasca, com o sugestivo título de “Vendo com os Olhos Fechados”, e, logo após, o estudo pioneiro sobre depressão —aberto, ainda sem grupo de controle—, publicado em 2015.

Dráulio andava intrigado com a ligação entre o senso de realidade e o sistema visual, a conexão São Tomé (“ver para crer”), como diz. “O ser humano é um bicho visual. Curiosamente, as substâncias psicodélicas atuam sobre a visão.”

Por outro lado, na introspecção do abstêmio ocorre uma inibição do córtex visual, como se ele fechasse os olhos ao assistir ao filme de sua vida passada e futura e se concentrasse no fluxo de palavras e reflexões.

Ao investigar o que acontece no cérebro sob efeito da ayahuasca, o grupo de Ribeirão constatou que não há essa inibição, o que, na concepção de Dráulio, abriria uma janela para a pessoa enxergar os próprios pensamentos numa tela de TV interna —no caso da ayahuasca, seria essa a gênese das mirações.

O possível efeito terapêutico do chá poderia estar associado a esse acesso privilegiado a conteúdos obscuros da mente, como os traumas, e à abertura de brechas na ruminação, isto é, a tendência a ficar preso num círculo de pensamentos de teor emocional negativo. Em outras palavras, algo como readquirir a capacidade de zapear entre diversos canais e redes do próprio cérebro.

O estudo preliminar sobre depressão começou em Ribeirão Preto, mas o completo, com grupo de controle, seria realizado só em Natal, para onde Dráulio se mudou por causa de um trauma —e outras coincidências. No dia 2 de setembro de 2006, menos de um ano após a primeira incursão no Santo Daime em terras paulistas, o físico recebeu a notícia da morte de seu irmão Ricardo, instrutor de mergulho, num acidente de barco no Ceará.

Hospedado em sua casa em Ribeirão se encontrava o neurocientista Sidarta Ribeiro, amigo e coautor de trabalhos científicos sobre a ayahuasca que, a essa altura, já estava envolvido com Miguel Nicolelis, seu então mentor, na criação do IIN-ELS. No enterro do irmão em Fortaleza, Dráulio virou-se para a mulher, Juliana, cearense como ele, e lhe perguntou se deveriam voltar para perto de casa.

Havia um acordo entre o IIN-ELS e a UFRN para contratação de professores e pesquisadores, o que deu oportunidade para Dráulio começar conversas com Sidarta sobre a possibilidade de se mudar para o Rio Grande do Norte. Em 2008 prestou concurso para uma das vagas e no ano seguinte se transferiu para Natal, já cogitando a ideia de empreender o ensaio randomizado sobre efeito da ayahuasca na depressão.

A mudança para as ensolaradas praias potiguares lhe permitiria, ainda, retomar a prática frequente de duas paixões, o surfe e o mergulho oceânico —meditação, ioga e paraquedismo também figuram no rol de atividades do irrequieto físico.

Apenas em 2016 o ambicioso teste clínico seria completado, pois Dráulio precisou obter todas as aprovações de comitês de ética na nova instituição e recrutar, numa cidade estranha, todo um grupo interdisciplinar. Além de Fernanda Palhano, aderiram os psiquiatras João Paulo Maia de Oliveira e Emerson Arcoverde, a fisiologista Nicole Leite Galvão-Coelho e o biofísico Bruno Lobão Soares.

Não deve ter sido difícil convencer cada um —só demorado, por causa do grande número de envolvidos, que tinham de ser convencidos individualmente. O físico cearense pode ser muito persuasivo, com sua voz pausada e o semblante plácido, sob os quais se oculta um espírito obstinado e em ebulição intelectual.

A publicação do artigo científico em periódico auditado por outros pesquisadores demoraria ainda dois anos, mas em nenhum momento o líder da equipe fraquejou, submetendo o estudo a 13 revistas até vê-lo aceito. Entre uma submissão e outra, contudo, em meio às dezenas de mensagens de email com editores ressabiados, Dráulio já preparava seus próximos passos.

Nosso primeiro encontro aconteceu em abril de 2017, na cidade de Oakland (Califórnia, EUA), onde se realizava a terceira e decisiva edição da conferência Psychedelic Science, sobre o que vem sendo chamado de “renascimento psicodélico”.

A apresentação foi intermediada por Sidarta, que eu já conhecia de reportagem na Universidade Duke (Carolina do Norte, EUA), onde ele atuava como pesquisador no laboratório de Miguel Nicolelis.

Na mesma reunião em Oakland, um misto de congresso científico, happening esotérico e homenagem a heróis da resistência contra o proibicionismo, reencontrei o biólogo Stevens “Bitty” Rehen e conheci o psiquiatra Luís Fernando Tófoli —completando assim o quarteto de psiconautas que foi decisivo para este livro.

Naquela altura, Dráulio estava finalizando os preparativos para uma nova mudança, desta vez de país. Iria à Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, para um sabático de dois anos, acompanhado da mulher, Juliana, e da filha, Lara. Ele compara a façanha do experimento sobre ayahuasca e depressão com uma expedição ao Himalaia, que demanda de dois a três anos só para montar uma equipe, obter verba e reunir equipamento.

“Passada a expedição, precisava sentar e escrever sobre o que vimos, e pensar para onde gostaríamos de ir em seguida”, resume. Melhor dizendo, definir o que iria investigar quando voltasse, em 2019, para o Rio Grande do Norte e o Instituto do Cérebro da UFRN.

Outra substância na mira de Dráulio e do quarteto psiconauta de que faz parte é mais conhecida do público, e também mais controversa pelo papel desempenhado na contracultura dos anos 1960-70: a dietilamida do ácido lisérgico, ou LSD. Estudos preliminares com roedores indicam potencial para melhorar a memória e outras faculdades cognitivas na idade avançada, o que teria enorme aplicação na geriatria, se o benefício se confirmar em seres humanos.

Maconha também figura no cardápio de pesquisas, informa Dráulio, que planeja duas classes de experimentos. O primeiro deles iria na linha do LSD, pois há evidências em modelos animais de benefício cognitivo da marijuana para organismos mais velhos. Além disso, o físico quer também avaliar o efeito da cânabis na criatividade, do qual muito se fala, mas que ainda não conta com dados científicos criteriosos na sua avaliação.

Por último, mas não menos importante nem surpreendente, o pesquisador pretende investigar as mudanças cognitivas e fisiológicas induzidas no indivíduo que salta de paraquedas. Como praticante desse esporte, intrigam-no as alterações que experimenta na percepção do tempo: os poucos minutos e segundos entre sair do avião e abrir o paraquedas são vividos pelo saltador como um estado prolongado de atenção e fruição máximas.

Ao voltar da Califórnia em 2019, Dráulio trouxe no contêiner de mudança um paraquedas adquirido por lá a preço mais camarada. Seu plano é colaborar com o curso de educação física da UFRN e com o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) da Polícia Militar do Rio Grande do Norte para se lançar nessa outra aventura científica, comparando os cérebros de soldados do batalhão com os de pacatos civis.

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