Pressão sobre política de preços, após greve, levou à queda de Parente

Presidente de estatal pediu demissão nesta sexta-feira (1º)

Pedro Parente, presidente da Petrobras - Reuters
Julio Wiziack Talita Fernandes
Brasília

A pressão por mudanças na política de preços da Petrobras, agravada com a greve de caminhoneiros que paralisou o país por dias, levou à saída do presidente da empresa, Pedro Parente, anunciada nesta sexta (1º).

No Congresso e no governo cresciam os apelos para que a estatal praticasse uma política mais flexível de reajustes de preços —não só para o diesel mas também para a gasolina e o gás de cozinha.

Na quinta (31), Parente se reuniu em São Paulo com o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia.

Integrantes da equipe de Temer que acompanhavam as conversas afirmavam que Parente só aceitaria essa mudança se a Petrobras fosse ressarcida pelas variações diárias do dólar e do petróleo durante o mês em que os preços ficarão fixos.

Caso contrário, ainda segundo eles, Parente disse a Temer que deixaria o cargo.

No governo, o presidente da Petrobras era chamado de "cabeça-dura".

Isso porque Temer considera que o fim dos subsídios da ex-presidente Dilma Rousseff —e que levaram a petroleira a uma grave crise financeira— já foi suficientemente compensado com a política de atualização diária dos preços, que vigora desde julho de 2017. A Petrobras agora é lucrativa e viável.

Por isso, antes da greve, Temer já vinha discutindo com Pedro Parente flexibilidade na política da estatal diante da alta elevada dos preços para a população.

Manifestantes em frente à refinaria da Petrobras em Betim (MG) celebram pedido de demissão de Pedro Parente
Manifestantes em frente à refinaria da Petrobras em Betim (MG) celebram pedido de demissão de Pedro Parente - Moisés Silva/O Tempo/Folhapress

Mesmo assim, o governo diz que Parente se recusava a entender que era preciso dar uma folga. Ministros próximos a Temer criticavam a inflexibilidade do executivo especialmente porque, para eles, Parente "esteve do outro lado do balcão".

Ele foi ministro-chefe da Casa Civil entre 1999 e 2003 (governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) e liderou o grupo que, naquela ocasião, enfrentou a crise do apagão elétrico.

Essa tensão atingiu o ápice no final de quarta-feira (23). Para tentar aplacar a greve dos caminhoneiros, que protestavam pelo preço elevado do diesel, o governo propôs inicialmente zerar a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) —R$ 0,05 por litro. Os recursos sairiam do projeto da reoneração da folha de pagamento, que tramitava no Congresso.

No final da tarde de quarta (23), o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) expôs publicamente a situação.

"Esta política (de preços) deu à Petrobras a condição que ela tem. Agora chegou o momento em que o presidente Michel Temer resolveu fazer com que nós analisássemos de novo o que nós temos que fazer em relação a isso", afirmou Padilha.

A Petrobras respondeu cerca de uma hora depois com um desconto de 10% no diesel nas refinarias durante 15 dias. Parente disse que era "um sinal da boa vontade da empresa" para que o governo tivesse tempo para negociar com os grevistas. Reforçou que se tratava de uma decisão da companhia e que ela não comprometia a política de preços.

No dia seguinte, reforçou sua posição para Temer: caso houvesse qualquer alteração na política de reajuste —sem que a estatal fosse compensada por isso— entregaria o cargo.

Na sequência, o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, anunciou, em entrevista à Folha, que o governo estuda a criação de um "colchão" permanente para subsidiar a Petrobras, que passará a fazer repasses mensais de preço de combustíveis, incluindo a gasolina.

Na segunda-feira (28), o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, apressou-se ao informar que não há recursos para um plano desse tipo. E que, para subsidiar a gasolina e o gás de cozinha, será preciso aumentar impostos.

Isso arranhou ainda mais a desgastada imagem de Pedro Parente no Congresso. Para boa parte dos parlamentares, é inadmissível rechear esse "colchão" com dinheiro da arrecadação.

"É penalizar o cidadão mais pobre", disse o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), que defendeu a demissão de Parente.

Até senadores favoráveis à liberdade de preço da Petrobras criticaram Parente.

O senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), pai do ex-ministro de Minas e Energia Fernando Coelho Filho (MDB-PE), disse que "a Petrobras cometeu um erro".

"Faltou previdência à direção [da estatal] para que criasse amortecedores [ao câmbio e ao petróleo], para que se evitasse uma política de reajustes de sete vezes em uma semana e que terminou gerando a ira dos caminhoneiros", disse Coelho.

O senador Armando Monteiro (PTB-PE), outro defensor da autonomia da estatal, concordou que a "política maluca" da estatal levou à greve. "Houve imprevidência do poder [da Petrobras]", disse.

"O remédio [para recuperar a Petrobras] foi bem aplicado, mas concordo que a dose foi um pouco a mais", disse o senador Athaydes Oliveira (PSDB-TO).

Nesse período, as ações com voto da Petrobras caíram de R$ 27,15, na quarta (23), para R$ 22,26, na quinta (30). Pessoas próximas afirmam que Parente se mantinha firme porque acreditava que, se cedesse neste momento, a perda de valor da companhia será maior.

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