Arábia Saudita enfim vai abrir capital da maior petroleira do mundo

Anúncio era esperado desde 2016 e tem implicações geopolíticas e econômicas

Igor Gielow
São Paulo | Reuters e AFP

Após três anos de suspense, a Arábia Saudita enfim anunciou que irá vender ações de sua gigante petroleira estatal, a Saudi Aramco, empresa responsável por 11% da produção diária de óleo no mundo.

Não há hipérbole suficiente para descrever os números da Aramco. Ela extrai 10 milhões de barris de petróleo por dia, é a empresa mais rentável do mundo (US$ 111 bilhões de lucro líquido em 2018, ou cerca de R$ 444 bilhões), controla a segunda maior reserva de petróleo mundial (cerca de 270 bilhões de barris) e vale entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões (R$ 8 trilhões, maior do mundo, mais que o PIB anual do Brasil, de R$ 6,8 trilhões).

O presidente e CEO da Saudi Aramco, Amin Nasser, à esquerda, e o presidente do conselho, Yasir al-Rumayyan, em entrevista coletiva, confirmaram a entrada da Aramco na bolsa de Riyadh
O presidente e CEO da Saudi Aramco, Amin Nasser, à esquerda, e o presidente do conselho, Yasir al-Rumayyan, em entrevista coletiva, confirmaram a entrada da Aramco na bolsa de Riyadh - AFP

Para comparar, a Petrobras produz 3 milhões de barris diários de óleo e gás, vale cerca de R$ 370 bilhões e teve seu primeiro lucro líquido em quatro anos, após a crise decorrente das descobertas de corrupção da Operação Lava Jato, em 2018: R$ 25,7 bilhões. O Brasil tem a 15ª reserva mundial de petróleo, 12,7 bilhões de barris.

A IPO (oferta pública inicial, na sigla inglesa) deverá ser a maior do mundo, superando a empresa de e-commerce chinesa Alibaba, que levantou US$ 22 bilhões (R$ 88 bilhões hoje)  em um dia em 2014.

Mas nem tudo é triunfalismo com anúncio feito em Riad pelo presidente da Aramco, Yasir al-Rumayyan, neste domingo (3).

Desde que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman assumiu o poder “de facto” no reino, em 2016, e anunciou o IPO, a Arábia Saudita passou por uma série de reveses políticos e econômicos.

O país está engajado em uma guerra civil contra rebeldes xiitas no vizinho Iêmen, apoiados pelo seu maior rival no Oriente Médio, o Irã. Desse conflito partiram ataques secundários a petroleiros e, no dia 14 de setembro deste ano, contra instalações de refino da Aramco —cortando a produção da empresa pela metade por muitos dias.

Al-Rumayyan afirmou que a ação não prejudicou o faturamento da empresa este ano, mas os números até aqui fechados da Aramco não facilitam a aferição da assertiva.

Além disso, há uma questão existencial, por assim dizer. A mudança climática decorrente do aquecimento global pode ser contestada por alguns governos, mas no mercado é uma realidade.

Não é casual que a Aramco tenha informado que vai destinar a maior parte do dinheiro que auferir no IPO para um fundo soberano da Arábia Saudita destinado a pesquisas de energia renovável e inovação, e não para investimentos na própria empresa.

Há uma preocupação social envolvida: apesar de riquíssimo, o reino é altamente desigual e tem um desemprego de nível brasileiro, na casa dos 12%. O governo tem investido pesadamente em opções ao óleo e em empresas de alta tecnologia.

Petróleo responde por um terço da matriz energética do mundo hoje, e a demanda cresce perto de 1,5% ao ano desde o começo da década. Ainda assim, há uma corrida para limpar a economia do carbono.

Práticas arriscadas e poluidoras como o “fracking” (extração de óleo de xisto por meio de tremores controlados de terra) ajudaram a liberar os Estados Unidos de sua dependência total do Oriente Médio, mas são consideradas potencialmente insustentáveis no longo prazo.

A própria Aramco destina US$ 600 milhões (R$ 2,4 bilhões) anuais para desenvolvimento de alternativas e tem propagandeado foco renovado em petroquímica, já que a demanda nesse setor tende a aumentar. Analistas veem um mercado de hidrocarbonetos com menos atores e mais específico.

Por fim, há a competição vinda de lugares como a Venezuela, maior detentora de reservas do mundo e com uma extração baixíssima dada a crise contínua do país, e o Brasil, como o renovado interesse pelo rentável petróleo do pré-sal explicita.

Do ponto de vista político, MbS, como o príncipe é conhecido, tem sofrido uma série de objeções. Apesar de seu programa liberalizante de costumes na monarquia absolutista nominalmente na mão de seu pai, o rei Salman, seu histórico em direitos humanos é deplorável.

Além dos abusos corriqueiros do reino, o príncipe foi implicado diretamente como mandante do assassinato brutal de um jornalista saudita na Turquia, o que ele nega. A guerra no Iêmen também é alvo de muitas críticas por sua violência contra civis.

Em setembro, após o ataque contra sua refinaria, a Aramco viu sua nota de crédito cair de A+ para A pela agência Fitch. 

Assim, analistas vêm baixando as estimativas de valor da gigante de US$ 2 trilhões para US$ 1,5 trilhão, o que deverá impactar o IPO. Além disso, a oferta não mais será feita em várias Bolsas pelo mundo, e sim na Tadawul, o mercado de ações de Riad.  

O IPO ocorrerá depois de uma reunião com investidores no dia 9. A idéia inicial é ofertar entre 2% e 5% das ações da empresa, reservando 50% do lote para cidadãos sauditas —invariavelmente, serão ricos membros da família real que já controla a empresa.

Apesar das restrições, o dinheiro sempre fala mais alto. Combustíveis fósseis ainda são a mola da economia mundial, 160 anos depois do início de sua exploração. E os números suculentos associados à Aramco acabarão suplantando as restrições de investidores.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior desta reportagem informou incorretamente que a Petrobras vale US$ 360 milhões. O correto são R$ 370 bilhões. Em 2018, o lucro líquido da empresa foi de R$ 25,7 bilhões, e não de US$ 25,8 bilhões. O texto já foi corrigido

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