China mobiliza tropas em meio a disputa de fronteira com a Índia

Gigantes asiáticos disputam região remota no Himalaia; Nova Déli se aproxima de Washington

São Paulo

A China mobilizou milhares de paraquedistas e veículos blindados no fim de semana para um treinamento próximo da fronteira com a Índia.

O movimento de tropas ocorre no momento em que os dois países mais populosos do mundo retomaram escaramuças na chamada Linha de Controle, fronteira disputada que já foi objeto de uma guerra entre eles em 1962.

Foto de arquivo mostra soldados chinês e indiano em posto de fronteira no Sikkim
Foto de arquivo mostra soldados chinês e indiano em posto de fronteira no Sikkim - Diptendu Dutta - 10.jul.2008/AFP

Desde o começo de maio, tropas chinesas foram acusadas pela Índia de invadir a região de Ladakh, uma área remota nos Himalaias. Nos dias 5 e 6 do mês passado, cerca de 250 soldados dos dois países se envolveram em uma briga corporal e atiraram pedras uns contra os outros.

Para tentar acalmar a situação, duas delegações com generais se encontraram no ponto de fronteira de Moldo, do lado chinês, no sábado (6). Ao mesmo tempo, contudo, Pequim fez a sinalização militar.

Segundo o jornal estatal chinês Global Times, milhares de soldados foram deslocados com aviões comerciais e trens de Hubei, a província onde surgiu o novo coronavírus. Eles se encontraram com tropas de infantaria numa região não revelada, a "poucas horas da fronteira da Índia".

O jornal associou o exercício com a crise em Ladakh. Nesta segunda (8), o Ministério das Relações Exteriores em Pequim divulgou comunicado dizendo que "a situação está estável" e que ambos os países buscam consenso para deixar o conflito.

Os dois gigantes asiáticos têm 3.488 km de fronteira compartilhada, e a última crise havia ocorrido em 2017 no platô de Doklam.

Os dois lados criticam a construção de estradas e a instalação de infraestrutura em áreas disputadas, mas a rivalidade se insere no contexto maior do embate entre China e Estados Unidos.

Primeiro, o simbolismo: as tropas mobilizadas vieram da região onde nasceu a pandemia, demonstrando ao mundo que as Forças Armadas chinesas não teriam tido sua capacidade de combate afetada pela Covid-19.

Além disso, os indianos são aliados dos americanos, mas com alto grau de independência —são grandes clientes de armas russas, por exemplo. Desde 2017, quando iniciou a guerra comercial com Pequim, o governo de Donald Trump vem se aproximando mais de Nova Déli.

Um mecanismo de consultas criado em 2007, o Quad (abreviação inglesa para Diálogo de Segurança Quadrilateral), foi reativado e poderá se tornar o embrião de uma aliança militar para cercar estrategicamente a China: ele inclui Índia, Austrália, Japão e EUA.

Os australianos foram convidados a integrar, no fim de julho, o exercício naval anual Malabar, que une as marinhas dos EUA, Japão e Índia no Pacífico. Analistas veem o movimento como central para dar musculatura ao Quad.

A disputa se espraia por toda a região. Há mais de uma década a China tem investido pesadamente em infraestrutura no Paquistão, para criar um corredor de escoamento de produção alternativo a seus portos na costa sudeste.

O país é o maior rival dos indianos, com quem já disputou quatro guerras e ínumeros embates armados desde que as nações foram criadas a partir da antiga Índia britânica, em 1948.

A mais recente crise ocorreu no ano passado. A volatilidade da região cresceu com as políticas do premiê indiano, Narendra Modi, consideradas discriminatórias contra muçulmanos —o Paquistão é majoritariamente composto por fiéis do Islã.

Assim como a China, ambos os países têm armas nucleares, o que torna particularmente nevrálgica qualquer disputa na região.

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