Conseguirá o último ditador da Europa se manter no poder até o fim do mandato?

Dois meses depois de eleição considerada fraudada, destino de Aleksandr Lukachenko depende da força dos golpes na corda bamba em que se equilibra

Bruxelas

Conseguirá Aleksandr Lukachenko, “o último ditador da Europa”, terminar seu sexto mandato presidencial, iniciado numa posse secreta na manhã de 23 de setembro? Ou será finalmente empurrado para a renúncia pelos bielorrussos que há 62 dias protestam contra fraudes nas eleições?

“55% para Lukachenko fica, 45% para Lukachenko sai”, respondeu a analista sênior do ECFR (Conselho Europeu de Relações Internacionais) Kadri Liik, em seminário no começo do mês.

A resposta está longe de ser precisa, porém, adverte ela própria.

A corda na qual se equilibra hoje o ditador pode ser chacoalhada por pelo menos três fatores: um evento inesperado que aumente a temperatura dos protestos, um tombo econômico que azede o humor das elites ou uma decisão mais drástica do presidente da Rússia, Vladimir Putin.

Nas ruas, há um impasse, opina o historiador e cientista político Andrew Wilson, professor da UCL (Universidade College London) e analista sênior do ECFR.

“Lukachenko esperava que as manifestações minguassem a ponto de poderem ser sufocadas, o que não aconteceu.” Por outro lado, falta uma fagulha que mude definitivamente o rumo das coisas.

“Nós já vimos o poder da emoção. Muito do que está nas ruas hoje começou por raiva contra a fraude eleitoral e a repressão violenta a protestos pacíficos”, afirma o professor da UCL.

O cientista político Kamil Klysinski, analista sobre a Belarus do OSW (Centro de Estudos Orientais, de Varsóvia), não acha que a faísca virá dos próprios manifestantes.

Segundo ele, isso ficou claro no último domingo (4), quando dezenas de milhares de bielorrussos marcharam até a principal prisão de Minsk, onde centenas foram torturados logo após a eleição.

“Era visível que muitos estava enraivecidos, têm péssimas memórias ligadas a esse edifício, mas não estavam dispostos a atacá-lo ou não se sentiam em condições para isso”, afirma.

A brutalidade inicial foi contraprodutiva para Lukachenko, mas ele alterou a tática para algo como o jogo infantil em que é preciso martelar a cabeça da toupeira antes que ela saia do buraco, compara Wilson.

Se há protestos de estudantes, eles são expulsos da universidade. Operários fazem greve e são demitidos. Advogados contestam prisões ilegítimas de opositores e viram objeto de processos. "A oposição faz algo, leva uma marretada e precisa inventar algo novo."

O resultado deve ser “uma longa confrontação suave, ao estilo bielorrusso”, afirma Klysinski:

“É muito típico da mentalidade bielorrussa fazer as coisas de uma forma evolutiva, não revolucionária. Eles se dividem entre os que não gostam de mudanças radicais e os que as detestam.”

Também não ajuda a ausência de uma liderança clara na oposição, que pudesse dar direção aos processos e eventos na Belarus.

“A ‘velha oposição’ está totalmente ausente dos acontecimentos recentes. Na ‘nova oposição’, há protestos espontâneos contra Lukachenko e grupos que não conseguem se manter unidos”, diz Klysinski.

Um exemplo é o conselho de oposição formado após a eleição, cuja liderança foi reprimida, presa ou forçada a deixar a Belarus.

Não há qualquer disposição de diálogo por parte do ditador, que não vê a oposição como um ator legítimo, afirma a cientista política Olga Drindova, editora do boletim Belarus-Analysen.

A principal candidata nas eleições, Svetlana Tikhanovskaia, também não tem poder de fato nem influência nos acontecimentos, dizem os analistas. “É um símbolo para os manifestantes, uma representação da vitória eleitoral sobre Lukachenko, mas não muito mais que isso”, diz o analista do OSW.

A segurar firmemente a ponta da corda de Lukachenko contra essa oposição fragmentada estão as forças de segurança: militares e policiais. Espinha dorsal do regime, eles são interlocutores preferenciais do ditador e não devem abandoná-lo no momento, diz Klysinski.

Além de garantir prestígio, salários altos e influência, o ditador também lhes dá mais segurança: "A possibilidade de que as autoridades tenham que responder pela brutalidade da repressão aumenta o risco de um desembarque”.

Isso poderia mudar rapidamente, segundo Wilson, caso Putin decida que o que mais lhe convém é uma Belarus sem o ditador: “As Forças Armadas e a KGB são muito próximas à Rússia”. O presidente russo ainda não decidiu o que quer, porém, diz o professor.

Num dos pratos da sua balança está um Lukachenko forte ao ponto de controlar os protestos, mas suscetível às suas pressões por maior integração política e econômica. Mas “Putin não gosta de ser manobrado”, e o bielorrusso ganhou sua antipatia ao resistir a essas pressões, afirma Wilson.

Esse desgosto adiciona peso ao outro prato, o da chamada “solução armênia”: nos bastidores, Putin apoiaria uma alternativa aceitável para os manifestantes bielorrussos e influenciável pelo Kremlin.

Para esse papel, o ator mais promissor na avaliação de Wilson é o executivo Viktor Babariko. Ex-presidente na Belarus do banco de origem russa Belgazprombank, ele foi o pré-candidato mais popular na campanha presidencial deste ano, até ser impedido de concorrer e preso pela ditadura.

Já qualquer movimento do Ocidente tem que ser delicado, para não alimentar o discurso que Lukachenko usa justamente para assegurar o apoio russo: o de que forças ocidentais estão por trás da tentativa de desestabilizá-lo.

Para Wilson, uma ação viável para a União Europeia seria acenar à elite com um pacote de ajuda econômica. Enquanto isso funcionaria como um torrão de açúcar, a elite se veria fustigada por pauladas desastradas de Lukachenko nos empresários.

Uma evidência foi a detenção de empresários de TI, o mais dinâmico setor da economia bielorrussa hoje, responsável por 7% do PIB.

“Isso mostra quão alto é o preço que ele está disposto a pagar para se manter no poder”, afirma Wilson. “As elites podem começar a achar que ele vai destruir a economia e levá-las junto na avalanche.”

O risco de uma depressão profunda não é pequeno, diz Klysinski. “Ainda baseada em modelos soviéticos de planejamento ineficientes, a Belarus depende de exportações de óleo e gás, muito instável, e de fertilizantes. Há dependência estrutural de subsídios da Rússia e o impacto negativo da Covid-19.”

A tudo isso se soma a crise política, que secou as fontes de financiamento ocidentais e reduziu a quase zero a possibilidade de receber investimentos estrangeiros. “O fator econômico pode acelerar mudanças, mas quando e como elas virão ainda é cedo para prever”, diz o analista do OSW.

Se o trajeto ainda é nebuloso, o final da estrada é evidente para Klysisnki. “É difícil precisar quando Lukachenko terá que renunciar, mas será muito difícil que ele chegue ao final de seu mandato.”

Uma saída mais honrosa seria convocar eleições presidenciais antecipadas após uma reforma da Constituição, como o ditador chegou a prometer nos primeiros dias após a eleição.

O analista do OSW diz acreditar, porém, que o processo de consulta pública constitucional iniciado pelo Parlamento é apenas “para bielorrusso ver”.

“Lukachenko, como todos os líderes autoritários, não está interessado em mudanças reais nem pronto a aceitá-las. Ele quer manter todo o poder em suas mãos e deixar tudo como está”. O que, para Klysinski, é uma missão quase impossível.

“Por mais que ele queira ficar, será forçado a sair pela pressão das circunstâncias, dos oponentes nas ruas diariamente, da Rússia, da economia ou de tudo ao mesmo tempo.”

Se a estimativa de Liik se concretizar, entretanto, e Lukachenko se segurar no cargo, uma avaliação é unânime entre os especialistas: este é seu último mandato.

“Ele terá que achar outras formas de ganhar a vida”, diz Wilson.

Entenda o que acontece na Belarus

Segurando um ramo de flores roxas secas amarradas por uma fita lilás, a educadora Kate, 41, sorri e diz: “Não sei no que vai dar, mas acho que o que vemos agora é o nascimento da nossa nação”.

O dia é 15 de agosto, o primeiro sábado depois da contestada eleição presidencial que manteve no poder o ditador Aleksandr Lukachenko. Dezenas de outras pessoas caminham pela avenida da Liberdade, uma das principais de Minsk.

Quando se cruzam, sorriem umas para as outras, e é este o sinal do “nascimento” descrito por Kate.

“Antes havia um receio, você não tinha ideia do que pensavam os outros. Agora conseguimos identificar esperanças comuns”, afirma.

O estopim para as esperanças comuns foi o anúncio, na noite da eleição, de que Lukachenko levara mais de 80% dos votos. O número foi visto como afronta pelas dezenas de milhares de pessoas que vinham apoiando a oposição em grandes e inéditos comícios pelo país.

Revoltados, eles saíram às ruas. Reprimidos, voltaram a protestar, por duas, três noites seguidas, até que na quarta, 12 de agosto, as mulheres se vestiram de branco e se deram as mãos nas calçadas, desconcertando os policiais.

Lukachenko reduziu o nível da brutalidade após forte pressão interna e externa (segundo analistas, do próprio presidente russo, Vladimir Putin, único arrimo na situação atual). Desde então, tenta intimidar os que pedem sua renúncia com detenções de manifestantes, políticos e líderes sindicais, multas e ameaças.

Nos últimos dois meses, mais de 12 mil foram detidos, de acordo com números do Ministério do Interior. Há mais de 70 presos políticos na cadeia, segundo entidades de direitos civis. Ao menos 500 casos de tortura foram documentados, mas não se conhecem investigações sobre seus responsáveis.

A falta de uma liderança oposicionista clara, que direcione a energia de um movimento descentralizado desde a origem, adia qualquer desfecho, mas dá sobrevida aos protestos.

Há táticas de guerrilha, como a dos grafiteiros que pintam os muros da cidade e os repintam depois de cada demão de tinta cinza governista. Dois grupos de hackers, os brancos e os azuis, invadem sistemas do regime e expõem na rede dados de policiais e servidores ligados à repressão.

Não há boa notícia à vista para os manifestantes, mas eles se mantêm conectados por redes sociais, formam grupos de apoio, criam fundos de solidariedade e canais de informação para organizar protestos locais. “Estas são as fotos de hoje. Não foi fácil, mas fizemos de novo”, escreve Kate na mensagem de aplicativo que manda toda noite de domingo, há dois meses.

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