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Flávia Aidar e Januária Cristina Alves

A educação pelos jornais

É urgente formar crianças e jovens para o enfrentamento das fake news e da desinformação

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Flávia Aidar e Januária Cristina Alves

Respectivamente, educadora e fundadora do Folha Educação e educomunicadora e escritora; ambas são autoras de 'Como não ser enganado pelas fake news' (ed. Moderna)

Lendo o artigo de Maria Carolina Cristianini ("Como informar as crianças em momentos de crise?"; 20.fev.21), achamos importante lembrar que, dos 100 anos da Folha, em 13 deles (1992 a 2005) os professores puderam conviver com o Folha Educação, programa de formação de leitores de jornais, que tive o prazer de conduzir ao lado de tantos outros incentivadores da iniciativa, à época na direção do jornal. A jornalista Januária Cristina Alves, que assina este artigo comigo, compunha a dupla que conduziu inúmeras formações de educadores pelo país afora.

Não há uma receita infalível para formar leitores. Há muitas e bem-vindas iniciativas concebidas pedagogicamente e acolhidas dentro da escola ou das famílias.

No Folha Educação, propúnhamos trabalhar com o jornal na íntegra, com todos os seus cadernos, por acreditarmos que sua arquitetura informacional, trazendo a notícia do dia ao lado da charge; a entrevista do jogador ao lado da crítica do jogo; e a propaganda ao lado do anúncio fúnebre, proporcionava a riqueza extra da contextualização da notícia, fio fundamental para tecer o entendimento do mundo para além do fato e de sua edição. Nas entrelinhas e na multiplicidade de tipos de texto e recursos de linguagem, forja-se o bom leitor.

E, o que é um bom leitor? Ao longo da vida de cada um, há o leitor possível em cada idade, que se constitui antes mesmo de dominar a escrita e a leitura, tecnicamente falando. Portanto, somos leitores desde que nascemos na interação com as coisas do mundo, pois, como canta o poeta Paulinho da Viola, “as coisas estão no mundo, só que é preciso aprender”.

Seguimos defendendo a ideia de que, antes de haver livros e jornais específicos para crianças, há boa literatura, seja informativa ou literária. Meu papel de avó confirma minha hipótese de trabalho, pois meu neto de 3 anos não se intimida diante do jornal sobre a mesa do café ou do livro robusto sobre a mesa da sala. Não são “de adulto” ou “de criança”, são do leitor que se aventura a ler. Escolhe o que lhe interessa e navegamos, juntos, por meio de perguntas e piruetas. Até porque me parece impossível aprender a nadar sem água ou fora dela. Você pode indagar, mas será que dá para treinar num pequeno veio d’água antes de adentrar as turbulências do mar? Eu tendo a afirmar que as águas do rio não adivinham o mar, embora seja para lá o seu curso.

Falávamos que o jornal era uma janela para o mundo. Depois do Windows, as janelas se multiplicaram e é nesse mundo em que todos estamos imersos.

O jornal, a imprensa, as mídias digitais trazem a possibilidade da leitura do fato no momento em que ele se desenrola; portanto, por mais editado que seja e atravessado que é pela posição e olhar do jornalista ou da empresa jornalística que o produz, ele é apresentado em sua complexidade. Traduzir ou adaptar a notícia para crianças não é o mesmo que mediar sua leitura, pois mediação não é redução e nem simplificação. É, principalmente, torná-la possível. É apontar outros olhares e direções para os fatos expostos, é permitir que, a partir do contexto em que vivemos, a criança e o jovem percebam que o que está ali (d)escrito, é apenas uma parte, uma visão do que acontece.

Hoje, para além de trabalhar com o jornal na escola, postulamos a ideia de trabalhar com o jornalismo, com a notícia, em suas múltiplas interpretações e nos suportes e mídias em que ela acontece como prática social de escrita e leitura. Entre o que está publicado e o leitor, já há edição suficiente. Vale ler o mundo aonde ele acontece. A menor parte do texto é o próprio texto. A notícia para a criança ou para o jovem deve ser lida onde e como está circulando.

O advento das fake news e o fenômeno da desinformação confirmam a necessidade urgente de se formar crianças e jovens competentes e capazes de se expressarem por meio do que leem, escrevem e compartilham, traduzindo o mundo em que vivem. Esses também foram os princípios que nortearam o Folha Educação: de que o jornal é peça fundamental da educação. Tanto que, hoje, a Educação para a Mídia já é recomendada pela nova Base Nacional de Comum Curricular (BNCC).

No aniversário de 100 anos da Folha desejamos que continuem praticando jornalismo, com a coragem que os tempos exigem. Seguiremos formando leitores para que se tornem capazes de ler criticamente a imprensa, as notícias, a informação e o mundo.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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