Escolas para políticos têm explosão de inscrições após renovação da eleição de 2018

Iniciativas independentes que buscam qualificar candidatos e gestores registram interesse recorde

Joelmir Tavares
São Paulo

​Sergio Victor, 31, é filiado ao Novo e virou neste ano deputado estadual em São Paulo; Duda Alcântara, 29, tentou se eleger deputada federal pela Rede Sustentabilidade, perdeu e agora pensa em ser vereadora; Samuel Emílio, 23, não pertence a partido, mas é ativista político e quer um dia se candidatar.

Diferenças à parte, os três compõem agora um mesmo grupo, o de novos selecionados da Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), entidade que capacita e aproxima pessoas com mandato e outras que planejam entrar na vida pública.

Sergio Victor (Novo), Samuel Emílio (sem partido) e Duda Alcântara (Rede), selecionados pela Raps para a turma de 2019
Sergio Victor (Novo), Samuel Emílio (sem partido) e Duda Alcântara (Rede), selecionados pela Raps para a turma de 2019 - Karime Xavier/Folhapress

O trio ilustra também a crescente procura por organizações independentes e suprapartidárias dispostas a qualificar e renovar a política no país. Com a oxigenação em todos os níveis depois da eleição do ano passado, essa onda ganhou um impulso.

Na Raps, o processo que escolheu Sergio, Duda e Samuel, encerrado em março, registrou o triplo de inscritos dos três anos anteriores. Se antes o número ficava em torno de 1.000, desta vez foram 3.433 candidatos para 64 vagas.

Os participantes terão acesso a um programa de formação com duração de um ano, que inclui encontros presenciais para debater temas avaliados como urgentes, caso da reforma da Previdência. Passam ainda a pertencer a uma rede de 500 líderes de todo o Brasil.

“Lá posso me sentar, por exemplo, ao lado de membros do PSOL, com posições completamente diferentes das do Novo”, diz Sergio, que exerce seu primeiro mandato. “É importante quebrar barreiras e ter um ambiente de diálogo.”

Na eleição passada, 38 membros do grupo saíram vitoriosos das urnas —16 deputados federais, 17 estaduais, três senadores e dois governadores, Eduardo Leite (PSDB-RS) e Renato Casagrande (PSB-ES).

Para a turma de 2020, que recebe inscrições até 31 de julho, a expectativa na equipe é alta. No primeiro dia já foram enviadas 1.400 fichas.

Mantida com doações, a exemplo de outras organizações da área, a Raps foi criada em 2012 pelo empresário Guilherme Leal, da Natura, que foi candidato a vice de Marina Silva (Rede) em 2010.

É pioneira de um ecossistema de entidades que desempenham papéis antes assumidos pelos partidos: atração de líderes, formação teórica, apoio a campanhas eleitorais e supervisão de mandatos.

O RenovaBR, que treina candidatos novatos, e o CLP (Centro de Liderança Pública), curso de boas práticas para gestores no Executivo, são outras escolas de política que experimentam o fenômeno da multiplicação de interessados.

“Essas iniciativas, cada uma a seu modo, dão contribuição para que tenhamos uma sociedade mais engajada”, diz a cientista política Monica Sodré, diretora-executiva da Raps. “E participação é fundamental para a democracia.”

A disposição para ingressar na política a despeito da queda de confiança nas instituições, outro ponto levantado por Monica, pode ser comprovada também pelos números do Renova. O programa recebeu 31.359 inscrições para a turma que abrirá neste ano, ante 4.000 para a de 2018.

Com uma pegada de profissionalização, a iniciativa conseguiu, já na estreia, eleger 17 dos 120 membros que postularam cargos em Assembleias Legislativas e no Congresso.

Entre eles: os deputados estaduais Daniel José (Novo-SP) e Renan Ferreirinha (PSB-RJ), os federais Tabata Amaral (PDT-SP) e Marcelo Calero (Cidadania-RJ) e o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

A explosão na procura pelas vagas surpreendeu os recrutadores, que estão aplicando testes e entrevistas para escolher os candidatos que serão preparados para as eleições municipais do ano que vem.

A meta é selecionar até mil pessoas (a quantidade pode ser menor se não houver tantas pessoas com o perfil desejado). Pede-se ficha limpa e compromisso com valores éticos. O resultado sai em julho.

O número superlativo e o alcance geográfico da futura turma exigirão adaptações. No lugar das aulas presenciais frequentadas pelos 133 alunos do ano passado, o curso para os esperados mil integrantes será a distância, pela internet.

Professores e especialistas convidados tratarão de temas específicos dos municípios em áreas como saúde, educação, saneamento, mobilidade e habitação.

Outra mudança é relacionada à bolsa que antes era oferecida, com valores que iam de R$ 5.000 a R$ 12 mil. Desta vez não haverá ajuda de custo. “Seria impossível arcar com esse gasto para tanta gente”, diz Eduardo Mufarej, empresário que idealizou o Renova.

Para sustentar o projeto, o investidor conta com uma liga de doadores e divulgadores, capitaneada pelo apresentador Luciano Huck, quase presidenciável em 2018.

A ideia de criar o Renova surgiu em 2017 no CLP, organização sem fins lucrativos fundada pelo cientista político Luiz Felipe D’Avila, filiado ao PSDB. Mufarej era conselheiro do centro e andava matutando sobre como transformar a política brasileira, que ele considerava falida.

Dois anos depois, ele comemora “o despertar da sociedade para a renovação”. Mostra-se entusiasmado pelo salto na taxa de mulheres inscritas, que subiu de 11% para 25%. “Priorizamos diversidade. Quero ter 30% de mulheres na lista de selecionados.”

O CLP, voltado para ações educativas, formou 7.000 pessoas ao longo de dez anos. Seu programa mais conhecido é uma pós-graduação para administradores públicos, sejam eles nomeados ou eleitos.

Os aprendizes, que vão de secretários municipais a vice-governadores, ganham bolsa para fazer o curso (com custo estimado em R$ 55 mil por aluno) e entram para uma rede de gestores que buscam soluções para cidades e estados.

Para a nova turma, o CLP recebeu 88% mais inscrições que no ano passado. As 35 vagas serão disputadas por 681 pessoas. Em 2018, foram 361 candidatos; em 2017, 264.

“São gestores que buscam, por meio da melhoria dos serviços públicos, dar uma resposta ao cenário de crise ética, política e econômica que o país atravessa”, afirma Luana Tavares, diretora-executiva do CLP. “Há esperança.”

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