Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Assista a principais trechos de vídeo em que Bolsonaro ataca Globo e Witzel e fala sobre Marielle

Presidente fez live em rede social após divulgação de depoimento de porteiro de seu condomínio

São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) reagiu de forma "bastante exaltada", como ele mesmo descreveu, à reportagem que fez menção ao seu nome na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018.

Em transmissão ao vivo nas redes sociais na noite de terça-feira (29), Bolsonaro contestou a informação veiculada pelo Jornal Nacional, da TV Globo, atacou a emissora e responsabilizou o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), pelo vazamento do depoimento.

Segundo a reportagem, o ex-policial militar Élcio Queiroz, suspeito de envolvimento na morte de Marielle, disse na portaria do condomínio no Rio de Janeiro onde o presidente tem imóvel que iria à casa de Bolsonaro, na época deputado federal, no dia do crime.

Os registros de presença da Câmara dos Deputados, no entanto, mostram que Bolsonaro estava em Brasília nesse dia.

Nesta quarta-feira (30), o Ministério Público do Rio afirmou que o porteiro deu uma informação falsa ao citar o nome do presidente em seu depoimento. 

No vídeo de 23 minutos, Bolsonaro abordou ainda a renovação da concessão da Globo, as investigações sobre a facada que sofreu durante a campanha eleitoral de 2018 e as denúncias contra familiares e aliados.

Versão sobre o caso Marielle

Bolsonaro afirmou que o porteiro mentiu ou foi induzido a cometer falso testemunho "ou escreveram algo no inquérito" que ele não leu e assinou embaixo.

"Me colocam como suspeito de ter participado ou ser um dos mentores da morte da senhora Marielle Franco, vereadora do PSOL do Rio de Janeiro", disse o presidente.

Diferentemente do que ele afirmou, a reportagem do Jornal Nacional não apontou Bolsonaro como suspeito de participação no crime ou mentor das mortes.

Relação com a vereadora

No vídeo, Bolsonaro disse que só soube que a vereadora existia "no dia em que ela foi executada".

"Não devo nada a ninguém. Não tinha motivo nenhum para matar quem quer que seja no Rio de Janeiro", afirmou. 

Em diversos momentos, o presidente se referiu a ela como "Mariela".

Federalização do caso

O presidente, na transmissão, afirmou que o processo de investigação da morte da vereadora no Rio "está bichado", como se diz "no linguajar popular".

"Eu não sei se seria o caso de federalizá-lo", afirmou, lembrando que a transferência do inquérito para a esfera federal poderia levantar suspeitas de manipulação.

"Iam falar [ininteligível] que eu estaria exercendo influência sobre a PF para me tirar do caso Marielle. Acho que tem que continuar no Rio, sim, mas tem que ter uma supervisão."

Acusação a ​Witzel

O presidente usou o vídeo para disparar ataques ao governador do Rio, Wilson Witzel (PSC). Ele o acusou de ter vazado para a Globo as informações sobre o depoimento do porteiro.

"Esse processo está em segredo de Justiça. Como chega na Globo? Quem vazou para a Globo? Segundo a [revista] Veja, quem vazou foi o governador Witzel", afirmou.

A revista publicou na noite de terça-feira que Witzel tinha conhecimento da citação a Bolsonaro no caso desde a semana passada, mas não fez menção ao suposto vazamento para a Globo.

Ainda segundo a Veja, o governador "soube com antecedência das provas colhidas pela polícia do Rio sobre o surgimento do nome do presidente na investigação".

Witzel negou ter vazado informações sobre o caso e também contestou a afirmação de Bolsonaro de que havia falado com ele sobre o caso semanas atrás, em um evento.

Na transmissão via redes sociais, o presidente afirmou ainda que Witzel só se elegeu governador porque "ficou o tempo todo colado com Flávio Bolsonaro", filho do presidente que se elegeu senador pelo PSL.

Segundo Bolsonaro, Witzel se transformou em inimigo do clã assim que chegou ao governo porque quer disputar a Presidência em 2022.

"Legítimo, nada contra isso, mas, para chegar lá, pelo que tudo indica, o senhor tem que destruir a família Bolsonaro", disse.

Concessão da Globo

O vídeo foi recheado de ameaças e ataques à TV Globo. Bolsonaro voltou a insinuar que dificultará a renovação da concessão da emissora, que vence em 2023.

As emissoras de rádio e TV no Brasil são concessões públicas. A da TV Globo vence em 2023. A concessão é renovada ou cancelada pelo presidente, e o Congresso pode referendar ou derrubar na sequência o ato presidencial em votação nominal de 2/5 das Casas (artigo 223 da Constituição).

A concessão vence em 15 de abril de 2023. Segundo lei aprovada pelo governo Temer, no entanto, o presidente pode decidir sobre a concessão até um ano antes de ela vencer —ou seja, em abril de 2022, no início do último ano do mandato de Bolsonaro.

Dirigindo-se à Globo, o presidente disse: "Não vou persegui-los, mas o processo vai estar limpo. Se não estiver limpo, legal, não tem renovação da concessão de vocês, e de TV nenhuma. Vocês apostaram em me derrubar no primeiro ano e não conseguiram".

"O processo tem que estar enxuto, tem que estar legal. Não vai ter jeitinho para vocês. Nem para ninguém. É essa a preocupação de vocês?", questionou.

Em nota divulgada após a fala de Bolsonaro, a Globo ressaltou preencher as exigências previstas em lei para a renovação.

"Sobre a afirmação de que, em 2022, não perseguirá a Globo, mas só renovará a sua concessão se o processo estiver, nas palavras dele, enxuto, a Globo afirma que não poderia esperar dele outra atitude. Há 54 anos, a emissora jamais deixou de cumprir as suas obrigações."

Jornalismo da Globo

Bolsonaro reclamou da cobertura da TV Globo e de outros veículos de comunicação do grupo sobre seu governo e sua família. Usou repetidas vezes a palavra "patifaria" para se referir a notícias publicadas pela organização de mídia, vista por ele como opositora.

"Vocês, TV Globo, o tempo todo infernizam a minha vida, porra! Onde vocês querem chegar, eu sei. Vocês não têm vergonha na cara. Essa patifaria 24 horas por dia contra a minha pessoa", afirmou.

A Globo foi um dos veículos de comunicação retratados no vídeo publicado pelo presidente nesta semana em que ele é representado como um leão acossado por hienas. Além da Globo, foram identificados como hienas a Folha, a revista Veja, o jornal O Estado de S. Paulo e a rádio Jovem Pan.

Em nota divulgada após as declarações de Bolsonaro, a Globo afirmou que a reportagem exibida no Jornal Nacional nada mais é do que jornalismo.

"A Globo não fez patifaria nem canalhice. Fez, como sempre, jornalismo com seriedade e responsabilidade", disse a emissora.

"A Globo lamenta que o presidente revele não conhecer a missão do jornalismo de qualidade e use termos injustos para insultar aqueles que não fazem outra coisa senão informar com precisão o público brasileiro."

Anúncios estatais e publicação de balancetes

Bolsonaro disse no vídeo que a Globo publica informações negativas sobre ele e seu governo porque teria perdido, com sua chegada à Presidência, verbas publicitárias do governo federal.

"Acabou essa mamata. Não tem dinheiro público para vocês. Acabou a teta. Vão ficar me infernizando até quando?", afirmou.

Em abril, levantamento publicado pelo UOL mostrou que a Record superou a Globo em volume de recebimento de verbas publicitárias do governo. Foi a primeira vez que ocorreu essa inversão em ao menos dois anos, segundo as análises por trimestre.

"Pelo amor de Deus, TV Globo, vocês não têm juízo! Parem de trair o Brasil. Vocês não estão traindo a mim, não. Estão traindo o Brasil. Vocês querem arrebentar com o Brasil. Estava muito bom com governos anteriores. Mamavam bilhões de estatais."

Bolsonaro fez referência também à publicação de balanços de empresas, obrigatoriedade que entrou na mira de seu governo.

Neste mês, o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendeu a eficácia imediata da medida provisória assinada pelo presidente que dispensava prefeituras, governos estaduais e o governo federal de publicar atos administrativos em jornais de grande circulação.

Ao anunciar a mudança, Bolsonaro disse, em tom irônico, esperar que o jornal Valor Econômico sobrevivesse à medida provisória —a publicação é controlada pelo Grupo Globo.

Com a decisão de Gilmar, a medida do presidente perdeu os efeitos até que seja analisada pelo Congresso Nacional, como determina a legislação.

Liberdade de imprensa

Bolsonaro disse na transmissão que a Globo deveria ser investigada por ter divulgado conteúdo que está sob segredo de Justiça.

"TV Globo, vocês tiveram acesso a um processo que segue em segredo de Justiça, né? Vocês têm que ser investigados no tocante a isso", afirmou.

No Brasil, porém, o ordenamento jurídico não prevê investigação ou penalidade para jornalistas que publiquem material sigiloso. Já o agente público que violar o segredo de documentos pode estar sujeito a punições.

Entidades reagiram à fala de Bolsonaro e viram ameaça à liberdade de imprensa nas declarações.

Manifestações e afastamento

Ainda no vídeo via rede social, Bolsonaro fez uma relação entre a publicação da informação pela Globo com manifestações e crises políticas que ocorrem na América Latina e um possível pedido de afastamento seu.

"Qual a intenção da Globo ao fazer isso aí? Nós estamos vendo problemas ocorrerem na América do Sul; é no Chile, eleição na Argentina, já temos na Venezuela já de há muito tempo, Bolívia, Equador, Peru", afirmou.

"Será que a Globo quer criar um fato, uma narrativa de que eu deveria me afastar, ou que o povo deveria ir à rua para pedir meu afastamento?", indagou.

Horas antes de a reportagem do Jornal Nacional ir ao ar, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, defendeu repressão policial no Brasil caso se repitam no país os episódios dos países vizinhos.

“Não vamos deixar isso aí vir para cá. Se vier para cá, vai ter que se ver com a polícia. E, se eles começarem a radicalizar do lado de lá, a gente vai ver a história se repetir. Aí é que eu quero ver como a banda vai tocar”, discursou Eduardo, sem especificar a que acontecimento histórico se referia.

Investigações sobre Flávio

Em vários momentos, Bolsonaro reclamou do que considera ataques aos seus filhos. Um dos filhos envolvidos em escândalo é o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), investigado por movimentações financeiras atípicas dele e do seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

"Na questão do Flávio, por exemplo, eu não quero discutir, está na mão da Justiça, está se defendendo, tem que se defender. Porque o filho do presidente vai levar pancada o tempo todo", disse Bolsonaro.

O presidente ressaltou ainda que o processo do senador está sob segredo de Justiça e se queixou de que vazamentos de informações sobre o caso são sempre feitos para veículos do Grupo Globo.

Investigações sobre Carlos

Bolsonaro mencionou também a informação, publicada pela revista Época, do Grupo Globo, e confirmada pela Folha, de que o Ministério Público do Rio de Janeiro investiga o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ).

A Promotoria se debruça sobre a suspeita do uso de funcionários fantasmas em seu gabinete e da prática de "rachadinha".

"A revista Época publica uma materiazinha fajuta qualquer, inventa uma historinha qualquer, às vezes com algum fundo de verdade também, e o que o MP faz? Investiga todo mundo do gabinete!", disse Bolsonaro.

O presidente relatou existir a estratégia de "construir uma narrativa para buscar constranger" seu entorno. "O tempo todo ficam em cima da minha vida, dos meus filhos e de quem está próximo de mim."

Dirigindo-se à Globo, ele provocou: "Qual a intenção de vocês? É conseguir, através de farsas, uma possível condenação de um filho meu? Esse é o orgasmo da TV Globo, ver um filho meu preso? Ver um irmão meu preso? Ver um amigo meu, chegado, preso? Esse é o orgasmo de vocês, TV Globo?".

Família de Michelle

Bolsonaro aproveitou o vídeo para se queixar de reportagens publicadas pela revista Veja, pela Folha e pelo site Metrópoles que revelaram detalhes da relação da primeira-dama Michelle com seus parentes.

"Há pouco, esculacharam a avó da minha esposa, que foi presa por tráfico. Foi presa, sim, por tráfico! Uma senhora que está com 80 e poucos anos de idade", descreveu o presidente.

"Fazem a covardia com ela [a avó] para poder atingir a minha esposa, que tem um projeto social maravilhoso. O que a minha esposa tem a ver com a avó dela?", continuou.

"Também a acusação da mãe da Michelle, que tem um problema na Justiça de falsidade ideológica. Teve, sim, problema. Mas por que essa exposição?", perguntou ele.

Voz de homem

Bolsonaro afirmou ver na reportagem sobre o depoimento do porteiro do condomínio a tentativa de "botar uma dúvida" sobre a sua convivência com a hoje primeira-dama Michelle. Na época dos fatos narrados, ele ainda era deputado federal e passava parte da semana em Brasília.

"O porteiro ligou para a minha casa na quarta-feira, ou teria ligado, né, 17h10, e falou com um homem com voz parecida com a minha. Raramente a minha esposa recebe parente ou amigo na nossa casa quando eu estou fora", disse.

"Querem botar uma dúvida no tocante a isso, que poderia ter algum problema com a minha esposa. Pelo amor de Deus! Quem vocês pensam que são? Vocês são canalhas, patifes. Não pensam no Brasil", protestou.

Adélio

Como já se tornou habitual, Bolsonaro buscou fazer um paralelo entre o caso Marielle e a investigação sobre Adélio Bispo de Oliveira, que o esfaqueou durante um ato de campanha em 2018 e está preso.

O presidente discorda dos resultados de investigações da Polícia Federal, que até agora demonstraram que o autor do crime, que tem insanidade mental e foi declarado inimputável, agiu sozinho.

"Nós também queremos saber quem mandou matar Jair Bolsonaro. Porque alguém achar que foi da cabeça do Adélio está surtando. Se ele fosse maluco, tinha matado mais gente."

O presidente pediu ainda que o TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) autorize a Polícia Federal a periciar o celular do advogado de Adélio para tentar descobrir possíveis financiadores, comparsas ou mandantes do atentado.

O julgamento sobre o caso no tribunal está parado. A discussão deve acabar migrando para o Supremo Tribunal Federal.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.