Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Empresário bolsonarista se vê como injustiçado ao virar alvo de investigações no STF

Apoiador do presidente, Otávio Fakhoury é citado nos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos

São Paulo

Até meados do ano passado, Otávio Oscar Fakhoury, 47, era praticamente desconhecido fora das bolhas da militância política de direita em São Paulo.

Conservador, cristão e antipetista, ele começou seu ativismo político marchando pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). Depois se entusiasmou com Jair Bolsonaro e se aproximou da tropa do hoje presidente.

Seu nome começou a sair dos bastidores no segundo semestre de 2019, quando a CPMI das Fake News no Congresso aprovou uma convocação para ele depor.

Mas foi neste ano que Fakhoury passou a frequentar o noticiário de vez: ele se tornou alvo dos dois inquéritos em andamento no STF (Supremo Tribunal Federal) que atingem aliados e apoiadores de Bolsonaro.

O investigado busca se desvencilhar dos fatos que são apurados pela corte e que perturbam o presidente —a disseminação de ameaças ao próprio STF e o planejamento de atos antidemocráticos.

Trata-se de "injusta agressão e perseguição", escreveu ele em sua defesa, no Twitter, há alguns dias. Com intensa atividade no perfil @oofaka, o empresário não perde a chance de soltar opiniões sobre o governo e seus opositores e de dar estocadas na "esquerda globalista".

"Tenho que contemporizar cada vez que recebo questões do tipo: 'Você é muito veemente ou muito enfático ou radical na defesa de blá blá...'. É apenas uma defesa sincera e convicta das minhas posições", disse ele a uma seguidora.

"Desde quando aconteceu tudo [as investigações], toda a injustiça, eu entreguei a Deus. Ninguém escapa da Sua Justiça!", afirmou em outro tuíte —Fakhoury não quis dar entrevista à Folha.

O empresário é descrito como polêmico e dono de opiniões fortes por pessoas que conviveram com ele em 2014 e 2015 na criação do Vem pra Rua, um dos grupos que capitanearam os protestos contra o PT.

"Ele participou de algumas reuniões no começo do movimento", diz o empresário Rogério Chequer, um dos fundadores. "Foi uma participação muito passageira. Ele não chegou a ter nenhum papel de liderança. Depois se afastou."

Fakhoury já declarou que, desde aquele período, paga custos de atos de rua, como o aluguel de caminhões de som. Nega, porém, ter posto dinheiro em manifestações inconstitucionais, como as que o STF apura.

O porta-voz do Vem pra Rua diz não se recordar de colaboração financeira do empresário naquela época. "Até onde eu lembro e até onde eu sei, não [existiu]."

Chequer foi um dos candidatos da eleição de 2018 que receberam doação de campanha de Fakhoury. Postulante a governador de São Paulo pelo partido Novo, ele ganhou R$ 10 mil, o terceiro maior valor destinado pelo empresário a políticos naquele ano.

As duas maiores quantias, segundo os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), foram para os deputados federais eleitos Bia Kicis (PSL-DF) —a quem destinou R$ 51 mil— e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP) —beneficiado com R$ 38 mil.

Kicis, assim como o seu financiador, também é investigada pelo STF nos casos das fake news e dos atos antidemocráticos. Orleans e Bragança está implicado no primeiro inquérito.

O empresário conheceu os dois parlamentares bolsonaristas na fase dos protestos anti-Dilma e pró-Lava Jato. Ao lado de Orleans e Bragança, ele fundou em 2015 o Acorda Brasil, movimento de bandeira liberal que trabalhou pela derrubada da petista.

Fakhoury fez carreira no mundo dos negócios. De ascendência libanesa, costuma dizer que se formou na "universidade 25 de Março", referindo-se à rua tradicional do comércio paulistano, povoada por imigrantes.

No mercado financeiro, foi funcionário dos bancos Merrill Lynch e Lehman Brothers. Atuou com investimentos e hoje se apresenta como sócio da FKO Empreendimentos e Participações Imobiliárias.

Em 2016, o empresário apoiou com dinheiro a estruturação do site Crítica Nacional, que tem perfil simpático a Bolsonaro e já foi associado à difusão de fake news, com conteúdos que exaltam o governo e fustigam detratores.

Ele, que ainda colabora com a página, nega ser dono dela e diz que parou de financiá-la (antes, destinava "cerca de R$ 30 mil por ano", conforme contou ao jornal O Estado de S. Paulo).

Como membro da rede de direita que se fortalecia no país, Fakhoury logo se juntou ao núcleo embrionário que viria a pavimentar a chegada de Bolsonaro à Presidência.

Ele chegou a acompanhar o então presidenciável em uma viagem em 2017 para Nova York. Ficou colado no político durante uma palestra, fazendo o papel de tradutor (a ocasião está registrada em vídeo).

"Ele é um brasileiro como tantos outros", diz o advogado bolsonarista Victor Metta, que considera Fakhoury um dos muitos voluntários na onda que catapultou o presidente.

"O ano de 2018 era uma efervescência, todo mundo querendo ajudar. O Fakhoury, graças a Deus, tem uma condição financeira melhor, que permite fazer um pouco mais de aporte. É uma pessoa boníssima, um cara empolgado, que quer fazer as coisas, quer acontecer."

O advogado, que é assessor especial do Ministério da Educação, nomeado pelo ex-ministro Abraham Weintraub, conheceu Fakhoury nessa época e compartilha com ele, além do pensamento conservador, a admiração pelo escritor Olavo de Carvalho.

Metta chama de "forçação de barra" as investigações do Supremo contra os aliados de Bolsonaro. "Sou um crítico desses inquéritos. Acho que são ilegais. Padecem de problemas jurídicos seríssimos."

Fakhoury sucedeu o advogado na tesouraria do diretório paulista do PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu. O empresário assumiu a cadeira em junho de 2019, a convite do deputado federal Eduardo Bolsonaro (SP), que tomava posse na presidência estadual da sigla.

Na cúpula, tinha a seu lado o amigo Orleans e Bragança, como primeiro-secretário. A passagem, contudo, durou menos de seis meses: o clã Bolsonaro brigou com o PSL, que destituiu Eduardo do posto.

Com o rompimento partidário, o ex-tesoureiro se uniu à família nos esforços para criar a Aliança pelo Brasil, legenda para a qual o presidente e seus filhos pretendem migrar, quando for oficializada.

No ano passado, a revista Piauí publicou um relato sobre uma reunião em 2018 em que Fakhoury e outros apoiadores de Bolsonaro discutiram maneiras de impulsionar a candidatura dele.

Segundo a reportagem, o empresário afirmou: "Acho legal arrumar um sistema para disparar no WhatsApp e pelo SMS no Nordeste. O PT faz isso. Podíamos disparar mentiras, tipo 'Haddad é o pai do kit gay'. Mas não precisa. Vamos é falar a verdade: Haddad foi escorraçado da Prefeitura de São Paulo".

Ainda de acordo com o texto, Fakhoury acrescentou: "Existem empresas que fazem esse trabalho. Coloca uma maquininha e começa a disparar SMS no Nordeste".

Atualmente, disparos de mensagens em massa ocorridos na campanha são investigados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e pela CPMI das Fake News. As revelações têm reforçado suspeitas levantadas durante a eleição.

A Folha pediu ao empresário sua versão sobre esse e outros episódios. Foram enviadas 14 perguntas por meio de seu advogado, João Manssur, que respondeu: "Estamos aguardando os andamentos dos inquéritos para manifestação à imprensa".

A casa e o escritório de Fakhoury foram alvos de operações de busca e apreensão, decorrentes dos inquéritos do STF, em maio e em junho. A Polícia Federal apreendeu celulares, HDs e DVDs. Na primeira ocasião, agentes cumpriram mandado também na casa da mãe dele.

No caso das fake news, o empresário está entre os investigados pela divulgação de mensagens contra a corte, que incluem notícias falsas, xingamentos e ameaças.

Ele, por exemplo, já se referiu a ministros do STF como "ditadores togados". Em outra postagem, chamou Gilmar Mendes de "Lacto Purga do STF" e disse que o magistrado solta bandidos com mais eficiência e rapidez do que o laxante.

Fakhoury tem afirmado em entrevistas que faz comentários em redes sociais como cidadão, exercendo seu direito de liberdade de expressão, sem cometer crime.

Já o inquérito dos atos investiga a origem de recursos e a estrutura de financiamento de manifestações com pedidos de fechamento do STF e do Congresso, além de apelos por intervenção militar.

Em uma das mensagens que vieram a público, o empresário demonstra engajamento na preparação do ato de 15 de março deste ano, que teve ataques às instituições —e contou com a presença do presidente.

No grupo de WhatsApp intitulado "Mkt Bolsonaro" (com a palavra marketing abreviada), ele enviou: "Eu vou. Vou ajudar a pagar o máximo de caminhões que puder. Convocarei todos que eu conhecer! Não vou deixar esses canalhas derrubarem esse governo".

Fakhoury se justificou recentemente no Twitter: "Como muitos outros brasileiros de bem, já colaborei para a realização de manifestações pacíficas e ordeiras, em favor das pautas do governo, sempre patrióticas".

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