Descrição de chapéu Eleições 2020

Russomanno pode usar pandemia para se expor menos e evitar desgaste na eleição em São Paulo

Estratégia de candidato a prefeito inclui neutralizar polêmicas, ser seletivo com debates e fazer agendas controladas

São Paulo

Líder nas pesquisas de intenção de voto, Celso Russomanno (Republicanos) fará uma campanha com agendas controladas e dosará sua exposição para tentar manter a dianteira, segundo auxiliares ouvidos pela Folha que o acompanham em sua terceira tentativa consecutiva de chegar à Prefeitura de São Paulo.

A estratégia antidesgaste se assemelha, ainda que em um contexto totalmente diferente, às mudanças ocorridas na campanha de Jair Bolsonaro, apoiador de Russomanno, depois da facada sofrida na eleição de 2018.

O hoje presidente se ausentou de debates após o atentado e escapou do envolvimento em novas polêmicas. Adversários e analistas apontam o episódio como um dos elementos que contribuíram para o então presidenciável (à época no PSL, hoje sem partido) alcançar a vitória.

A circunstância inédita desta vez é a pandemia do coronavírus, que pode ser convertida em um pretexto ideal para saídas de cena estratégicas, na avaliação de assessores de Russomanno.

Neste domingo (27), o primeiro dia do período de campanha definido pela Justiça Eleitoral, Russomanno não divulgou agendas públicas, seguindo a estratégia de reclusão. Os demais candidatos anunciaram participação em carreatas, adesivaço, live, missa e panfletagem.

As regras para atenuar a propagação do vírus causador da Covid-19 alteraram a rotina de candidatos, mas muitos deles mantiveram o corpo a corpo com eleitores na pré-campanha.

No caso do apresentador de TV e deputado federal, caminhadas em locais de grande aglomeração de pessoas tendem a ser reduzidas, em nome do combate ao vírus, mas também como forma de preservar o capital eleitoral acumulado até aqui.

Um dos conselhos dados ao candidato é que a ida a lugares públicos ocorra de forma monitorada, para barrar imprevistos. A preferência deve ser por áreas com plateias amigáveis.

Medidas sanitárias contra a pandemia poderão ser invocadas para recusar convites para entrevistas e debates, a depender da evolução de seu desempenho nas pesquisas. As possibilidades foram discutidas em reuniões internas nos últimos dias e serão ajustadas com o andar da campanha.

Em eventos de campanha na rua, a tendência será evitar situações em que ele esteja exposto a danos de imagem, como cobranças diretas de eleitores, vaias e xingamentos, cujos registros podem viralizar facilmente.

​​Derrotado em 2012 e 2016, o candidato vê agora forte chance de ao menos chegar ao segundo turno, coisa que nunca aconteceu. Nos pleitos anteriores, ele também começou no topo das pesquisas, mas se envolveu em controvérsias que o derrubaram, como a proposta de tarifa de transporte proporcional.

O parlamentar, conhecido pela bandeira da defesa do consumidor, alcançou 29% das intenções de voto na pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (24), à frente do candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), que ficou em segundo lugar, com 20%.

O apoio de Bolsonaro ao seu nome é um dos fatores que fazem o postulante e seu entorno considerarem que "chegou a vez" dele. Assim, o trabalho agora seria apenas cultivar um terreno seguro e usufruir da condição confortável de líder.​

O Datafolha mostrou, contudo, que 64% dos moradores de São Paulo dizem que não votariam de jeito nenhum em um candidato indicado pelo presidente —ele é rejeitado por 46% dos paulistanos.

Ainda não está claro se Bolsonaro entrará de cabeça na campanha no primeiro turno, mas ele já disse que poderá se envolver na disputa municipal em São Paulo e em outras cidades (citou Santos e Manaus) se for para ajudar a derrotar oponentes comuns.

Neste sábado (26), Russomanno visitou Bolsonarono Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde o presidente passou por uma cirurgia para a retirada de um cálculo na bexiga. O encontro foi registrado em foto publicada nas redes sociais.

Aliados de Russomanno dão como certa a participação de Bolsonaro em um eventual segundo turno, principalmente se o rival for Covas, apoiado pelo governador João Doria —tucano que é hoje um dos adversários do bolsonarismo e cada dia mais candidato a concorrer à Presidência em 2022.

A blindagem ao candidato do Republicanos, no cálculo de assessores, o ajudará a atravessar as próximas semanas sem percalços para garantir o lugar no segundo turno. Sua ida aos debates na TV, por exemplo, é incerta. Não se descarta a ideia de que ele não compareça a todos os embates com outros postulantes.

Nesse ponto aparece novamente uma analogia com a facada que Bolsonaro sofreu durante um ato de campanha em Juiz de Fora (MG), fato que praticamente selou sua ida ao segundo turno. Com o atentado, adversários amenizaram ataques a ele e perderam a oportunidade de confrontá-lo nos debates.

Por esse raciocínio, o deputado será beneficiado se conseguir emular na eleição paulistana o "efeito facada", isto é, obter as vantagens de um recolhimento em meio à guerra eleitoral —com a diferença de que Bolsonaro foi vítima de algo imprevisto e que quase lhe tirou a vida.

Outro pilar da eleição do presidente foi a comunicação feita prioritariamente por redes sociais, apostando no diálogo direto com os eleitores, tática que já está em curso na campanha de Russomanno.

Até agora, ele tem jogado na defensiva, respondendo a ataques, mas sem revidar ou comprar brigas com adversários específicos. Apenas na ocasião da sua convenção, no último dia 16, deu indiretas contra prefeitos anteriores —Fernando Haddad (PT) e Doria.

Com um amplo histórico de pontos negativos explorados pelos inimigos, o líder das pesquisas tem feito esforços para neutralizar controvérsias e acusações.

Sua equipe já fez uma listagem de quais polêmicas e vídeos antigos do deputado seriam rememorados. Segundo aliados, a ideia é mapear tudo o que ele respondeu de forma equivocada ou intempestiva no passado para rebater com um discurso sereno e em tom de humildade.

​Agora, Russomanno reconhece seus erros e pede desculpas. Ele vem fazendo isso por meio de vídeos nas redes sociais. Faz parte da estratégia de polimento da imagem não deixar ataques sem contestação, mas fazer isso por meio de falas pensadas, e não em respostas atravessadas a jornalistas ou oponentes.

O próprio parlamentar tem retomado vídeos que voltaram a circular nas redes e justificado suas atitudes. Fez isso com uma gravação antiga dele entrevistando mulheres no Carnaval e outra, publicada pela candidata Joice Hasselmann (PSL), em que declarava apoio a Dilma Rousseff (PT).

(São Paulo  - SP, 05/09/2020) Presidente da República Jair Bolsonaro, durante  Visita às obras de recuperação da pista principal do Aeroporto de Congonhas. Foto: Carolina Antunes/Divulgação Presidência
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com Celso Russomanno (Republicanos) em visita a obra no início de setembro - Carolina Antunes/Divulgação Presidência

Russomanno terá cerca de 8% do tempo de propaganda gratuita na TV e no rádio, atrás de Covas, Márcio França (PSB), Jilmar Tatto (PT) e Joice.

Seguindo a orientação de ficar o menor tempo possível exposto a críticas, o deputado só está entrando agora na competição. O período em que os candidatos podem fazer propaganda está valendo a partir deste domingo, mas seus concorrentes já vinham fazendo agendas públicas permitidas na pré-campanha.

A candidatura de Russomanno foi oficializada somente em 16 de setembro, a data limite para os partidos realizarem convenções.

Até poucos dias antes, a hipótese de ele ocupar a vice de Covas era aventada no núcleo tucano. Recluso, o deputado despertava dúvidas sobre sua disposição de encarar uma campanha como cabeça de chapa.

Foi com a intervenção de Bolsonaro, às vésperas do prazo final, que a candidatura ganhou corpo. O presidente sinalizou declarar apoio ao aliado e costurou a inclusão na coligação do PTB, partido presidido nacionalmente por Roberto Jefferson.

Àquela altura já oficializado como candidato a prefeito pelo PTB, o advogado Marcos da Costa saiu do páreo e foi deslocado para a vaga de vice do deputado.

Na semana passada, Russomanno se limitou a aparecer nos vídeos postados em suas redes sociais. Em nota divulgada na sexta-feira (25) para refutar o rumor de que a reclusão se devia a uma suspeita de Covid-19, ele informou que aproveitou uma semana de descanso para ficar com sua família.

"Já com as forças recuperadas, estamos engajados para o trabalho que nos espera", declarou.

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