Racha entre pai e filhas ameaça restaurante mais antigo do Brasil

Dom Pedro 2º governava quando o Leite foi fundado; hoje, casa do Recife convive com remendos e falta de ingredientes

Ambiente do restaurante Leite, no Recife Divulgação

Bruno Albertim
Recife

Gilberto Freyre jamais deixou um visitante ilustre deixar o Recife sem provar a cartola do Leite. Nomes como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Orson Welles, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros provaram da icônica sobremesa pernambucana —surgida no contexto patriarcal dos antigos engenhos, um dueto de banana e queijo do tipo manteiga fritos sob uma superfície espessa de açúcar e canela.

Nos feriados da Páscoa e Carnaval deste ano, no entanto, turistas e moradores do Recife não puderam fincar o garfo de prata na cartola normalmente respaldada por um cálice de vinho do Porto. Os administradores se esqueceram de comprar banana.

O episódio foi um dos indícios recentes da crise por que passa o mais antigo restaurante em funcionamento no Brasil, com 137 anos de atividade contínua.

Aos 88 anos, o proprietário Armênio Dias publicou uma nota paga nos jornais do Recife expondo a situação, no final da última semana de abril. “Não venho concordando com a condução do negócio. Para mim, que estive à frente do Leite ao longo desses últimos 60 anos, isso não é só inadmissível, mas uma mácula à dedicação e amor que tenho pelo restaurante Leite”, afirmou o português naturalizado brasileiro.

Há cerca de dez anos, para resolver impasses administrativos de outra ordem, o proprietário criou uma nova empresa para gerir o restaurante no nome de duas de suas filhas. A “propriedade moral”, segundo o acordo familiar, continuaria com o pai.

Há três anos, descontente com a condução da casa, ele teria requisitado formalmente a devolução do restaurante. As filhas Daniela Ferreira da Fonte e Silvana de Souza Ferreira se recusaram. “Não se trata apenas de um restaurante, mas de um patrimônio do Brasil.” Armênio Dias briga na Justiça do Recife para ter o restaurante de volta.

Reduto da elite pernambucana de origem açucareira, de políticos e artistas, o Leite foi aberto antes da Proclamação da República. Os salões de cortinas grossas protegidos da luminosidade indolente do centro do Recife presenciaram fatos históricos. Por pouco, não foi palco do assassinato de João Pessoa.

Com aliados políticos, o governador da Paraíba almoçou na casa antes de sua morte, em 26 de julho de 1930. Pessoa seria atacado depois, numa confeitaria a poucas ruas dali. O episódio precipitaria a Revolução de 1930, que desembocaria no Estado Novo. 

No Leite, surgiu uma das receitas disseminadas pelos restaurantes de elite do Brasil. Em homenagem a Assis Chateaubriand, presença frequente, surgiu o filé à Chateaubriand —mignon sob molho madeira, cebola, ervilha e champignon com arroz à grega e batata palha.

As receitas luso-pernambucanas são as mesmas dos tempos áureos. Os guardanapos, franceses; os palitos de dente, de um convento português. Mas os cardápios estão remendados com fita adesiva, o ar-condicionado tem problemas constantes, as calçadas estão danificadas. A falta de ingredientes é rotina.

“Outro dia, saímos para comprar um pimentão vermelho e um amarelo para finalizar um prato”, diz, em reserva, um funcionário. Os empregados dizem que as filhas de Armênio administram a casa à distância. “Tem faltado língua, polvo e camarão”, prossegue o funcionário.

Aberto apenas para almoço de domingo a sexta, o restaurante tem encerrado o expediente antes do horário padrão das 16h. Com alguns pratos com preços de três dígitos, adotou também um menu executivo —entrada, principal e sobremesa ao preço fixo de R$ 89.

Daniela e Silvana responderam as acusações do pai também em nota publicada nos jornais da capital pernambucana.

“O propósito das filhas sempre foi e será o de preservar os interesses de seu patriarca. A competente equipe do Leite continua a receber calorosamente seus clientes, cabendo às suas filhas, Daniela e Silvana, a administração que garante o seu perfeito funcionamento”, informaram. Dizem que os “graves fatos” pontuados pelo pai serão “tempo e modo adequados esclarecidos”.

O restaurante estava falido quando foi adquirido, em 1956, pelos irmãos de origem portuguesa Armênio, Amadeu e Luiz Dias e o amigo e Hugo Laprovítera. Depois, Armênio e Amadeu compraram os controles dos sócios na sociedade.

Armênio diz contar com o apoio da esposa, Célia Maria de Souza Ferreira, e do sobrinho, Amadeu Dias Filho, herdeiro do espólio do pai morto, para recuperar judicialmente o Leite. “Embora constrangido, vim a público revelar a situação e solicito a elas a devolução imediata do restaurante."

Para evitar um processo de interdição por parte das filhas, Armênio Dias fez exames psiquiátricos recentes para atestar as plenas faculdades intelectuais. Antes frequente e falante entre a clientela, já não frequenta diariamente o salão. “A preocupação dele é com o futuro do restaurante. E nós estamos preocupadas com a saúde dele. Quando uma pessoa muito idosa é impedida de fazer o que gosta corre o risco de se abater gravemente”, diz Mônica Dias, também filha de Armênio. Ela tem dado apoio ao pai na disputa com as irmãs.

Recentemente, Armênio foi impedido de tirar dinheiro do caixa para mandar consertar a moldura de um quadro na decoração. Retirou uma coleção particular de conhaques franceses raros em embalagens de cristal e não mais pisou na casa. Diz ainda que vai entrar com uma solicitação de medidas preventivas à polícia pernambucana para evitar ataques pessoais.

O Café Lamas, no Rio de Janeiro, foi aberto quatro anos antes do Leite. Em 1974, porém, mudou de endereço —o que faz do restaurante pernambucano o mais antigo em funcionamento contínuo no país. “O restaurante não é meu, é da sociedade. Eu cumpro a minha função.”

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