Abdias defendeu organização baseada nos quilombos em entrevista à Folha em 1981

Dramaturgo comentou o conceito de 'quilombismo' e criticou PT: 'Não nos deram o espaço necessário'

São Paulo

"Com a firmeza justiceira e pacífica de Oxalá, a bravura e a coragem flamejantes de Xangô, o temerário agadá transformador de Ogum, e o amor-próprio coletivo de Oxum, marchamos para frente", escreveu o dramaturgo, político, professor e artista plástico Abdias do Nascimento (1914-2011).

Esse trecho apareceu no prefácio de uma de suas mais importantes obras “O Negro Revoltado” (1968), em que traça o histórico dos movimento negros brasileiros e a luta antirracista no país.

homem negro idoso veste traje com estampa azul clara e branca. ele está sentado diante de uma de suas obras, um painel vermelho vibrante. suas duas mãos repousam em uma elegante bengala de madeira. ele olha para a câmera sem sorrir.
O dramaturgo e ativista Abdias do Nascimento, aos 96 anos, no Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, fundado por ele - Fernando Rabelo - 03.jun.2010/Folhapress

O intelectual e ativista, em diálogo com a filosofia literária de Albert Camus, recriou as noções de "revolta" e "resistência", formuladas pelo escritor franco-argelino, tanto em seu pensamento político quanto em sua dramaturgia na companhia Teatro Experimental Negro (TEN), fundada em 1944.

Para Camus, a revolta é o sentimento de profunda injustiça que não encontra eco no coletivo. Para Abdias, é justamente a revolta que permite organizar a resistência (moral e política) ao racismo e desigualdade impostos ao povo negro brasileiro.

“Que valor invoca a revolta do negro? Seu valor de Homem, seu valor de Negro, seu valor de cidadão brasileiro", escreveu Abdias, também em "O Negro Revoltado", para introduzir a "abolição de fachada", promovida pelas oligarquias republicanas em 1888, que atirou quase "50% da população do país –os escravos e seus descendentes– à morte lenta da história, dos guetos, do mocambo, da favela, do analfabetismo, da doença, do crime, prostituição."

Em 1968, com o recrudescimento da ditadura militar, Abdias foi para o exílio nos Estados Unidos. Em contato com a intelectualidade e militância afro-americana, temas como multiculturalismo e afrocentrismo foram incorporados ao seu pensamento e tiveram posteriormente papel fundamental na reestruturação do movimento negro brasileiro, na década de 1980, em grande medida a partir de sua própria conceituação: o quilombismo.

Seu conceito centra-se na ideia de que os quilombos foram as primeiras experiências de liberdade nas Américas após a chegada dos colonizadores europeus.

A partir da estrutura comunitária baseada em valores culturais africanos e da organização democrática fomentadas nestes espaços, Abdias propõe métodos de ativismo que busquem novas configurações da sociedade. Seu quilombismo prevê focos de afirmação e de resistência do povo negro.

Em 1981, o suplemento cultural da Folha, o Folhetim, publicou uma edição dedicada à data de 20 de novembro, celebrada desde os anos 1960 pelos movimentos por marcar a data da morte de Zumbi dos Palmares.

Além da entrevista com Abdias, a edição reuniu importantes contribuições, como textos da antropóloga Lélia Gonzalez (1935-1994) e da advogada Eunice Aparecida de Jesus.

capa com ilustração de zumbi dos palmares
Capa da edição do Folhetim publicada em 22 de novembro de 1981 - Acervo Folha

Na entrevista ao jornalista Hamilton Cardoso, Abdias falou sobre o quilombismo, a recepção de sua obra no Brasil e a sua atuação no PDT (Partido Democrático Trabalhista), pelo qual foi eleito deputado federal e senador ao longo das décadas de 1980 e 1990.

A entrevista é agora republicada na série Entrevistas Históricas, que celebra o centenário da Folha recuperando conversas marcantes publicadas pelo jornal.

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Já se passam mais de três anos desde que o professor Abdias do Nascimento começou a voltar ao Brasil vindo da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, onde esteve auto-exilado durante mais de dez anos. De todos os exilados, talvez seja o que teve a volta mais triunfal ao seu país.

Herdeiro solitário de um movimento, desde os anos 1940, amaldiçoado dentro do cenário político "progressista" brasileiro, ele chegou em meio a uma ressurreição de negritude brasileira, sepultada ou semissepultada desde a ditadura de Vargas e ressepultada pelo regime militar, quando começava a se rearticular no início dos anos 1960.

O professor chegou "oficialmente ao Brasil", no dia 7 de julho de 1978, quando, diante do Teatro Municipal de São Paulo e de mais de 3.000 negros, participou com um vibrante discurso do primeiro ato público contra o racismo e do lançamento do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNU).

Poucos meses depois, ele começaria a trabalhar na conclusão de seu livro "O Quilombismo", uma tentativa de propor um método de luta ao negro brasileiro.

Um ano depois, durante ato comemorativo da fundação do MNU, ele já havia lançado seu livro e o movimento quilombista, criando uma grande polêmica na sociedade brasileira.

O tempo passou e o quilombismo ainda não conseguiu demonstrar seu caminho definitivo ou, pelo menos, esse caminho ainda não foi divulgado pelo jornais.

Opção política

Indagado, em Maceió, sobre a situação desse movimento, o professor afirma que "hoje, nós estamos procurando um caminho para o quilombismo no PDT, onde sou titular da Secretaria Nacional do Movimento Negro, além de ocupar o cargo de vice-presidente do partido".

Ele explica ainda que o processo de organização da comunidade negra nem sempre é rápido, da forma que se esperaria, e que o quilombismo "está avançando de acordo com as possibilidades existentes na sociedade brasileira".

Depois de afirmar que o grande impacto de suas ideias não se deu nos meios intelectuais, e sim populares, diz que em em certas regiões do país —como ocorreu recentemente no Maranhão— muitos negros aproximam-se dele com seu livro na mão, para parabenizá-lo pelas ideias. "Alguns chegam mesmo a bater no livro e dizer: esta é minha Bíblia."

Ele explica também que a comunidade negra não tem ainda infraestrutura para desenvolver por si mesma "um trabalho de consciência em torno de uma proposta tão inusitada quanto o quilombismo", que considera uma teoria "inacabada, à espera de muitas e muitas constribuições de outros membros da comunidade negra, além de companheiros solidários com a libertação do povo negro."

O professor Abdias do Nascimento justifica também a razão de inegressar no PDT, frustrando algumas expectativas dos que esperavam vê-lo criando um movimento que só envolvesse negros.

"Há, como já disse, o problema da ausência de uma infraestrutura que necessita ser criada e, por outro lado, a elaboração de táticas e de uma estratégia eficazes exigem uma organização partidária, que nos permita desenvolver, não a identidade pessoal, mas a identidade coletiva, histórica de um grupo. E o PDT tem essas preocupações; a luta contra o racismo e a reconstrução de nossa identidade histórica constam no programa."

Contradição aparente

Outra questão importante colocada pelo professor Abdias foi a da aparente contradição entre quilombismo e socialismo.

Diz ele que "o PDT, do qual sou vice-presidente, luta pelo socialismo democrático, uma espécie de quilombismo ocidental, o que significa que o nosso movimento quilombista está ao lado dos que têm as mesmas visões de organização de uma sociedade justa, igualitária, progressista, mas explicitamente não racista". E remata ironicamente: "Não está dito que o socialismo, por uma espécie de magia branca, acabe com o racismo."

Se o quilombismo tem objetivos semelhantes aos do socialismo, por que ele não optou pelo PT, que tem um programa claro pelo socialismo, levando em conta que a maioria da população negra é trabalhadora, com os piores empregos ou mesmo subempregada?

"Eu não tinha resistência alguma em relação ao PT, mas lá não nos deram o espaço necessário para o nosso desenvolvimento. Em entrevista ao 'Canal Livre', Lula declarou que não permitiria a organização de negros, separados dos brancos dentro do partido, porque existiria uma preocupação com as lutas gerais."

Luta específica

"Eu não diria que o Lula não quer que os oprimidos se libertem em conjunto", prossegue Abdias.

"Se seguir a sua linha de pensamento, no entanto, ao não admitir a necessidade de organização independente dos oprimidos, ele acaba por inviabilizar o seu próprio partido. Já que os outros partidos também propunham a luta geral, não haveria necessidade de um partido dos trabalhadores. Lula esquece-se de que é a libertação dos segmentos oprimidos que possibilita a libertação da sociedade em geral."

Ele conclui a ideia afirmando que é "solidário com Lula", já que sabe que a luta independente dos trabalhadores é necessária porque não se esgota nos outros partidos.

"Os trabalhadores, e mesmo Lula, são oprimidos; agora ele necessita da consciência de que tal independência é necessária aos oprimidos por razões raciais".

Para Abdias, a autonomia do movimento quilombista não é uma questão superada. Depois de dizer que o quilombismo deve influir no pensamento de todos aqueles que lutam por um socialismo com personalidade própria e característica do país. "Como o Ujaama, que é o socialismo tanzaniano", ele lança o debate para o futuro: "quanto à autonomia do movimento, é impossível prever os próximos passos. Hoje, estamos no PDT, que tem demonstrado toda a consequência exigida pelo momento histórico para a luta contra o racismo."

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