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Filipinas acusam Pequim de escalada militar no mar do Sul da China

Tensão aumenta com presença chinesa na região, que tem aumento de atividade naval

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São Paulo

O mar do Sul da China, um dos centros da alta tensão entre Pequim e Washington, agora é palco de uma escalada de acusações disparadas pelas Filipinas contra os chineses.

O governo em Manila acusou Pequim de bloquear a operação de dois navios de patrulha de sua Guarda Costeira, em um renovado capítulo da tensão entre os dois países pelo controle da região em torno do estratégico e disputado recife de Scarborough.

Guarda costeiro filipino monitora navios chineses no recife disputado de Sabina, no mar do Sul da China
Guarda costeiro filipino monitora navios chineses no recife disputado de Sabina, no mar do Sul da China - 27.abr.21/Guarda Costeira das Filipinas via AFP

"Condenamos nos mais duros termos as manobras conduzidas pela Guarda Costeira da China", disse na noite de terça (4) o conselheiro de segurança nacional filipino, Hermogenes Esperon.

Ele se referia a ações ocorridas em 24 e 25 de abril perto do recife, chamado de Bajo de Mansiloc no país, e afirmou que haverá resposta ao que seu país vê como aumento da presença militar chinesa na região.

Seus comentários vieram um dia depois de o chanceler Teddy Locsin postar no Twitter que a China deveria sair das águas filipinas —usando um palavrão ("get the fuck out"). Ele se desculpou no dia seguinte pelos termos utilizados.

É altamente inusual um diplomata usar baixo calão contra um poderoso vizinho, especialmente quando seu governo, liderado por Rodrigo Duterte, é considerado moderadamente pró-China.

Pequim nega ter intenções militaristas na região, mas assevera sua posição de considerar 85% do mar do Sul da China águas territoriais a serem defendidas. Isso mostra o nível de tensão entre os países.

Em abril, Manila havia acusado Pequim de enviar uma frota de 200 navios pesqueiros para águas próximas da região, o que seria um desafio à soberania filipina e um prenúncio de ocupação militar do conjunto de rochas e ilhotas.

Scarborough é um foco de atrito entre os países há tempos. Em 2012, forças navais de ambas as nações quase se enfrentaram na região, e Manila foi ao tribunal marítimo das Nações Unidas para desafiar a afirmação chinesa de que o recife é seu —a ditadura comunista o chama de ilha de Huangyan.

Em 2016, a ONU deu ganho de causa aos filipinos, dizendo que as rochas não constituem ilhas e, portanto, não há água territorial em torno dela. Pequim não aceita o veredicto, mas como os EUA disseram no mesmo ano que a militarização do local seria inaceitável, até aqui tem evitado dar tal passo.

A região é considerada uma das mais ricas do mundo em peixes, foco da queixa das Filipinas: nesta semana, começou a temporada anual de veto à pesca imposta pelos chineses no norte do mar do Sul da China. O governo do Vietnã também criticou a ação, que chamou de violação de sua soberania sobre o golfo de Tonkin.

Pequim diz que a medida prevê resguardar a fauna marinha, mas como as águas são disputadas também por Vietnã, Malásia, Brunei e Taiwan, seus críticos enxergam uma projeção de soberania disputada.

A razão é estratégica. O mar do Sul da China, além de ser rico em peixes e hidrocarbonetos, é uma das principais rotas de entrada e saída de comércio marítimo do país. Um bloqueio no canal de Bashi, rota no estreito de Luzon que divide China das Filipinas, ameaçaria o fluxo de petróleo para a segunda maior economia do mundo.

Nos últimos anos, Pequim se aproximou bastante do regime autocrático de Duterte, mas a crescente tensão entre chineses e americanos no contexto da chamada Guerra Fria 2.0 parece estar empurrando os filipinos para o lado de Washington na disputa.

Com o novo governo americano de Joe Biden buscando uma assertividade ainda maior ante o regime liderado por Xi Jinping, a pressão para os vizinhos do gigante asiático tomarem posição tende a crescer. A China acusa os EUA de desequilibrarem o jogo usando valores como democracia como disfarce para interesses geopolíticos.

Juntamente com o estreito de Taiwan, onde a atividade militar chinesa para intimidar o governo que considera rebelde em Taipé tem crescido muito, o mar do Sul da China é visto com um cipoal de fios desencapados. EUA e aliados têm conduzido mais operações navais na região do que em qualquer momento da história recente.

Os americanos fizeram manobras de liberdade de navegação, passando por rotas internacionais que os chineses afirmam ser suas, com dois grupos de porta-aviões ao mesmo tempo neste ano.

Os britânicos, na maior exibição de força naval desde a Guerra das Malvinas (1982), estão enviando para a região seu novo porta-aviões com uma pequena frota. E, nesta semana, Japão e Taiwan conduziram o primeiro exercício de vigilância conjunta de navios chineses no mar do Sul da China —onde Taipé tem algumas ilhotas, as quais vê como primeiro alvo no caso de um ataque de Pequim.

A China, por sua vez, anunciou que vai despachar pela primeira vez seu novo porta-aviões, o Shandong, para exercícios no mar do Sul da China. Comissionado em 2019, o navio é o segundo do tipo do país e o primeiro a ser construído por lá, a partir de um projeto russo.

O porta-aviões Shandong, segundo em operação por Pequim, que vai estrear no mar do Sul da China
O porta-aviões Shandong, segundo em operação por Pequim, que vai estrear no mar do Sul da China - Navalnews - 17.dez.2019

A essa movimentação se soma a renovada hostilidade da Austrália ante a China. A imprensa da ilha divulgou nesta semana a fala atribuída a um importante general na qual ele diz a subordinados que uma guerra com os chineses é provável.

O governo em Camberra também informou que irá revisar um acordo assinado em 2015 que cedeu por 99 anos a operação do porto de Darwin, no norte do país, a uma firma chinesa. O local é estratégico, voltado para toda a região de conflito potencial, e usado com frequência por unidades anfíbias dos Fuzileiros Navais americanos.

O enfrentamento ocorre no âmbito do reforço dado a Biden ao Quad, o grupo de nações aliadas contrárias à China na região, que une americanos a australianos, japoneses e indianos —esses últimos foram às vias de fato numa escaramuça sangrenta com soldados de Pequim numa área disputada nos Himalaias em 2020.

Analistas afirmam acreditar que um conflito dos EUA com a China nos próximos anos é improvável, mas o risco existe, em especial de alguma escalada ocorrer devido a algum entrevero em encruzilhadas como o mar do Sul da China.

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