Descrição de chapéu Eleições 2020

Entre ineditismos, recordes e maldições, veja peculiaridades desta eleição em SP

Disputa paulistana é marcada por seca de debates, tucanos unidos comandando a máquina e PT fragilizado

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São Paulo

Cada eleição é única, diz uma velha máxima do meio político. Mas a atual eleição para a Prefeitura de São Paulo caprichou em ineditismos.

Às situações atípicas —como o fato de o PSDB, com Bruno Covas, disputar estando no controle da máquina— se somam as candidaturas que tentam quebrar maldições —caso de Celso Russomanno (Republicanos), que tenta se sustentar na dianteira das pesquisas e ganhar, algo incomum.

Outras peculiaridades: o PT nunca entrou tão fragilizado em uma eleição na capital, o PSDB raras vezes esteve com o cenário interno tão pacificado e os debates na TV evaporaram.

Para este levantamento, a Folha considerou os pleitos disputados desde 1985, quando São Paulo voltou a escolher seu prefeito pelo voto direto.

Candidatos reunidos no primeiro debate, na TV Bandeirantes, no início do mês
Candidatos reunidos no primeiro debate, na TV Bandeirantes, no início do mês - Bruno Santos - 1º.out.20/Folhapress

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PSDB na máquina

Com Bruno Covas, é a primeira vez que o PSDB disputa uma eleição na capital paulista estando no controle da máquina municipal.

É diferente do que ocorre no governo estadual, onde os tucanos acumulam sete vitórias seguidas e mantêm a hegemonia desde 1995, com intervalos em que vices de outras legendas assumiram o posto.

Primeiro prefeito do PSDB na cidade, José Serra tomou posse em 2005 e renunciou no ano seguinte para concorrer a governador. O hoje senador deixou a cadeira para o vice Gilberto Kassab (à época no DEM), que depois tentou a reeleição.

O segundo prefeito tucano foi João Doria, que ficou no cargo entre 2017 e 2018, também abandonou o cargo para disputar o governo estadual e foi substituído por Covas.

Reeleição é exceção

Kassab (hoje no PSD) foi o único prefeito que tentou um novo mandato e foi reconduzido ao cargo na capital depois da lei que permitiu a reeleição, de 1998.

Os outros dois titulares do Executivo municipal que buscaram repetir o feito —Marta Suplicy (então no PT), em 2004, e Fernando Haddad (PT), em 2016— saíram derrotados.

Hoje em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, Covas tenta quebrar esse paradigma e conquistar mais um mandato.

Para os aliados mais supersticiosos, um sinal de esperança é a coincidência de que, assim como Kassab, o atual prefeito também herdou a cadeira com a renúncia do titular. As urnas darão a resposta.

Líder na arrancada perde

Em sua terceira candidatura consecutiva, Celso Russomanno (Republicanos) tenta desconstruir um tabu para o qual ele mesmo contribuiu nos dois pleitos anteriores.

Desde 2008, os candidatos que iniciaram a corrida liderando as pesquisas de intenção de voto não foram os eleitos. Em alguns casos, nem se classificaram para o segundo turno.

Marta, por exemplo, chegou a ter 38% em 2008 na primeira pesquisa Datafolha após a oficialização das candidaturas. A então petista passou para o segundo turno, mas perdeu para Gilberto Kassab.

O então candidato à reeleição, que angariou 60% dos votos válidos no embate contra a petista, tinha obtido na mesma pesquisa do começo da campanha apenas 13% das intenções.

Russomanno, que disparou na fase inicial da disputa em 2016 e 2012, acabou se desidratando a ponto de nem chegar ao segundo turno. Ele aposta desta vez no apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para romper com a maldição.

Quem é o candidato do presidente?

Se em outros anos bastava ver qual era o candidato do partido do presidente da República para saber o nome apoiado por ele, desta vez a coisa é um pouco mais complicada.

Começa pelo fato de que Bolsonaro está sem filiação a um partido político desde novembro de 2019, quando deixou o PSL.

Candidatos de partidos da base do governo em Brasília passaram a associar seu nome ao do presidente no início da corrida, enquanto uma declaração de apoio dele ainda era uma incógnita.

Postulantes como Joice Hasselmann (PSL) e Levy Fidelix (PRTB) aprofundaram o flerte com bolsonaristas na capital, mas Bolsonaro acabou embarcando na candidatura de Russomanno. Apesar do respaldo, o candidato do Republicanos não goza de unanimidade entre os admiradores do presidente.

PT fragilizado

Historicamente forte na cidade, o Partido dos Trabalhadores perdeu o protagonismo nesta eleição e vê seu candidato, Jilmar Tatto, estagnado nas pesquisas —teve 2% no levantamento do Datafolha em setembro e oscilou para 1% no da semana passada.

A legenda, que por três vezes elegeu um prefeito na capital (Luiza Erundina, em 1988, Marta Suplicy, em 2000, e Fernando Haddad, em 2012), chegou a todos os segundos turnos que foram disputados desde 1992.

Desta vez, com o candidato escolhido após um tumultuado processo de prévias, a sigla do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece na lanterninha das intenções de voto.

Além disso, o PT disputa sozinho, sem nenhum partido coligado, o que só tinha acontecido antes em 1985.

PSDB unificado

Habituado a rixas na escolha de seus postulantes a prefeito e a governador em São Paulo, o PSDB formou consenso em torno da candidatura à reeleição de Covas.

O atual prefeito conta com o endosso de diferentes alas do tucanato e não foi vítima, até aqui, de fogo amigo. Ele é apoiado por João Doria, que tem tido uma participação discreta na campanha em razão dos altos níveis de rejeição a seu nome na capital.

Em 2008, por exemplo, o então governador José Serra trabalhou nos bastidores pela reeleição de Kassab (DEM), seu ex-vice. O candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, foi largado na estrada.

Em 2016, as prévias que culminaram com a escolha de Doria para concorrer a prefeito foram tumultuadas. Preterido pelo então governador Alckmin, Andrea Matarazzo se desfiliou da legenda e migrou para o PSD. Ele também é candidato neste ano.

Serra e Alckmin, que foram candidatos ou tiveram papel relevante nas campanhas do partido na capital em todas as eleições desde 1996, desta vez estão distantes. Ambos foram tragados por denúncias na Lava Jato.

Às urnas sem debates

Uma tradição na disputa municipal, com brigas que se tornaram históricas, os debates na TV sumiram. Só um, o da Band, ocorreu até agora, e deve ficar por isso mesmo. Todas as outras emissoras que planejavam eventos do tipo (Globo, SBT, Record, RedeTV! e CNN Brasil) cancelaram seus encontros.

As dificuldades relacionadas à pandemia e ao número excessivo de candidatos (14) foram apontadas como justificativa. Candidaturas rivais do atual líder nas pesquisas, Celso Russomanno, levantaram a hipótese de que parte dos programas foi suspensa para beneficiá-lo. Os canais negam.

Em 2008, por exemplo, só a Band chegou a promover dois debates no primeiro turno. Para o segundo turno deste ano, as emissoras preveem a realização de confrontos.

Veterana de idade e de eleição

Vice de Guilherme Boulos (PSOL), Luiza Erundina é a postulante mais idosa a participar da sucessão municipal nos últimos tempos. A ex-prefeita pelo PT e deputada federal pelo PSOL tem 85 anos.

Quando foi candidato a vice na chapa de Marta Suplicy, no pleito de 2000, o advogado Hélio Bicudo tinha 78 anos. Ele morreu em 2018, aos 96 anos.

Erundina é também uma notória veterana das campanhas: das últimas dez eleições na cidade, ela participou diretamente de 7, como candidata a prefeita ou a vice.

Nunca antes ela tinha tido a companhia de tantas mulheres na disputa. Entre candidatas a prefeita e vice, elas totalizam 8 neste ano. O recorde anterior era de 2000, quando foram 7 as postulantes.

Outro nome assíduo nos pleitos paulistanos é o do candidato a prefeito pelo PRTB, Levy Fidelix. Incluindo a deste ano, ele esteve em 4 eleições para a prefeitura desde 1996 e 1 para a Câmara Municipal. Nunca foi eleito.

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