Descrição de chapéu Eleições 2020

Para barrar Russomanno, aliados de Covas reforçam voto útil contra Bolsonaro

Estratégia para turbinar nome do PSDB, que concorre à reeleição em SP, se inspira em movimentos suprapartidários críticos ao presidente

São Paulo

A ascensão de Celso Russomanno (Republicanos) na corrida à Prefeitura de São Paulo reforçou no entorno do candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), a pressão pelo apelo ao voto útil, em uma tentativa de barrar a vitória do nome apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Aliados do tucano apostam na narrativa de que sua campanha faz parte de um movimento maior, que ultrapassa alianças partidárias e aglutina também setores da sociedade com diferentes ideologias e sem conexão com legendas.

Covas está em segundo lugar no Datafolha, com 20% das intenções de voto. À frente, com 29%, Russomanno se apresenta como o candidato de Bolsonaro e vem recebendo acenos públicos do presidente.

A liderança ameaça os planos da coalizão de 11 partidos costurada pelo governador João Doria (PSDB) para eleger o aliado e pavimentar sua candidatura ao Planalto em 2022.

A ideia de congregar forças e deixar diferenças políticas de lado em nome de uma causa tem sido comparada ao espírito dos movimentos suprapartidários lançados neste ano para defender a democracia e se contrapor a Bolsonaro, como o Estamos Juntos e o Somos 70%.

O raciocínio é o de que, a se manter o quadro atual, Covas enfrentará Russomanno no segundo turno e terá que traduzir em gestos o propagado rótulo de candidato de centro. Isso significa aprofundar o diálogo com a direita antibolsonarista e a esquerda para derrotar o grupo do presidente.

Covas continua priorizando temas locais, em uma tentativa de evitar a nacionalização da disputa municipal, mas a tarefa se tornou inviável com a entrada de Bolsonaro como cabo eleitoral de Russomanno.

Segundo o Datafolha, 46% dos moradores de São Paulo consideram o trabalho do presidente ruim ou péssimo.

Além de acirrar a guerra entre o presidente e o governador com vistas a 2022, a interferência do titular do Planalto deu fôlego à estratégia de postulantes como Guilherme Boulos (PSOL) e Jilmar Tatto (PT), que buscam pintar a eleição paulistana como trincheira crucial no enfrentamento a Bolsonaro.

No comitê de Covas, a atração de apoios ecumênicos passa pela ex-prefeita Marta Suplicy (hoje sem partido), pelo ex-secretário municipal de Cultura Alê Youssef (do Cidadania, uma das siglas aliadas) e pelo ex-deputado Eduardo Jorge (que abriu mão da candidatura no PV para compor com o PSDB).

A ex-petista Marta diz à Folha ser natural "um movimento forte de ampliação para um voto em Covas" com o propósito de impedir "os riscos de São Paulo vir a ter uma figura como Russomanno como prefeito".

"Em alguma medida, esse voto útil poderá se dar ainda no primeiro turno, pois São Paulo, sobretudo agora, não poderá correr riscos de espécie alguma", afirma ela, que há meses defende a formação de uma frente ampla contra o que qualifica como retrocesso civilizatório promovido por Bolsonaro.

Marta, que rompeu com o Solidariedade para apoiar Covas, diz que ele carrega o simbolismo dessa frente, além de ser o postulante mais preparado para o cargo. Ela assumiu na campanha o papel de dialogar com a juventude, a periferia e os chamados setores suprapartidários.

Paralelamente à tentativa de fisgar influenciadores e eleitores que endossem a candidatura independentemente de legendas, a coligação com 11 partidos —batizada como Todos por São Paulo e encabeçada por MDB e DEM— é exaltada no núcleo de Covas como sinal de capacidade de união.

Candidato a vice, Ricardo Nunes (MDB) já elogiou a parceria entre tantas siglas e a adesão "de outras lideranças importantes, porque já não se consideram [mais] só os partidos".

Para Youssef, "a aliança que Bruno montou é o mais próximo que já se chegou da ideia de uma frente ampla". O ex-secretário também lidera um movimento de artistas e produtores, o Bloco da Cultura, que ganhou a adesão do prefeito.

"A candidatura dele representa a defesa de valores democráticos e o contraponto ao obscurantismo e ao autoritarismo", afirma Youssef, ecoando princípios caros às organizações suprapartidárias anti-Bolsonaro.

Os próprios Marta, Youssef e Eduardo endossaram o Estamos Juntos, uma das iniciativas que os inspiram. Lançado em maio, o manifesto foi assinado ainda por políticos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), além de artistas e intelectuais.

Na mesma época, a campanha Somos 70% ganhou visibilidade em redes sociais ao evocar o percentual, medido em pesquisas do período, de 30% de brasileiros que aprovavam Bolsonaro.

Embora nenhum dos dois movimentos tenha anunciado apoio a candidatos, os participantes são livres para declarar voto individualmente.

"No nosso grupo, qualquer pessoa em sã consciência vai votar a favor de quem estiver enfrentando o representante de Bolsonaro", diz o cientista político Marcio Black, um dos articuladores do Estamos Juntos.

Idealizador do Somos 70%, o economista Eduardo Moreiramanifestou apoio pessoal a Boulos. Na avaliação dele, é precipitado falar na necessidade de um esforço conjunto pró-Covas e anti-Bolsonaro.

"A gente não pode aceitar a ideia de 'vamos ficar com o PSDB mesmo, porque é melhor que o Bolsonaro', e ficar feliz com isso. Isso equivale a achar que basta tirar o bode da sala e estará tudo maravilhoso, só que na minha opinião não está maravilhoso com o PSDB", diz.

Moreira afirma, entretanto, que qualquer oponente de Russomanno em um segundo turno ("e eu espero que seja o Boulos") tende a receber o aval dos descontentes com o presidente.

Na quinta-feira (1º), o prefeito subiu o tom contra o PT durante o primeiro debate na TV, na Band. Na discussão com Tatto, ele ironizou até Dilma Rousseff (PT), presidente que sofreu impeachment. Um ruído assim tem potencial para afastar petistas da frente almejada pelos correligionários do tucano.

Oficialmente, auxiliares de Covas afirmam ser prematuro calcular cenários e lembram que Russomanno acabou se desidratando em 2012 e 2016. Outra retórica que deverá ser explorada é a do combate à polarização, na linha de que deve haver opções para além da briga entre direita e esquerda.

Coordenador da campanha, Wilson Pedroso diz que a diretriz é "conversar com todos os eleitores" e que, entre os fatores favoráveis a Covas, estão "a característica de diálogo, a amplitude da coligação e os apoios de personalidades da política paulistana como Marta Suplicy e Eduardo Jorge".

Pedroso afirma que "o movimento de voto útil é algo que ocorre mais próximo do momento do voto, mais próximo da urna", mas sustenta que "Covas tem grande de chance de atrair o voto daqueles que não querem o avanço da polarização e dos extremos na cidade de São Paulo e consequentemente no país".

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.