Descrição de chapéu New York Times Cinema

'A Montanha' de Hollywood encolheu e ficou reduzida a um formigueiro

Estúdio responsável por clássicos como 'O Poderoso Chefão' e 'Chinatown', a Paramount luta para sobreviver

Amy Chozick Brooks Barnes
Los Angeles

​​Foi uma batalha legendária de Hollywood, repleta de tanto subterfúgio, tantas punhaladas nas costas, que a Vanity Fair a comparou a um filme de terror: “‘Wall Street’ dirigido por Hitchcock”.

Durante meses, a partir do outono de 1993, dois titãs da mídia, Sumner Redstone e Barry Diller, disputaram o que era na época o maior prêmio da indústria do entretenimento: a Paramount Pictures, o estúdio de 250 mil metros quadrados responsável por clássicos do cinema como “O Poderoso Chefão” e “Chinatown”, além de blockbusters contemporâneos como “Top Gun” e “Um Tira da Pesada”.

Graças ao boom do home entertainment, chovia dinheiro em Hollywood. Mas a Paramount era mais do que uma simples máquina de fabricar dinheiro. Estúdios de tradição e alta qualidade, como a Paramount —fundada na década de 1910, que operavam sets suntuosos e controlavam catálogos imensos—, raramente eram postos à venda. Quem fosse dono de um deles seria um membro reconhecido da elite cultural e figura dotada de poder permanente.

Redstone, da Viacom, comprou o estúdio por US$ 9,75 bilhões (que seriam US$ 17 bilhões hoje). “Agora não me venha dizer que eu não lhe comprei nada para seu aniversário”, ele disse à sua então esposa, Phyllis, quando eles festejaram o negócio com seus advogados no 21 Club, em Nova York.

Fazendo um fast-forward de 25 anos, vemos a Paramount mais uma vez ao centro de uma batalha. Só que desta vez o estúdio histórico não é nem de longe o prêmio mais disputado de Hollywood. Hoje a Paramount está lutando para sobreviver.

Devido à má gestão quase cômica da Viacom —incluindo a venda de um setor lucrativo de TV, a demissão do mestre do cinema de horror Jason Blum, a perda da oportunidade de comprar a Marvel Entertainment, tratar Steven Spielberg como “alguém sem a menor relevância”—, a Paramount hoje está praticamente sobrevivendo com a ajuda de aparelhos. Entre 2016 e 2018 o estúdio acumulou um prejuízo de quase US$ 900 milhões. Os 29 sets de filmagem que compõem o estúdio estão precisando de reformas há muito tempo; um upgrade no valor de US$ 700 milhões anunciado em 2011 ainda não se concretizou.

Além disso, juntamente com o resto de Hollywood, a Paramount está colidindo com o Vale do Silício. A Netflix, que ocupa um edifício comercial alugado situado a seis quadras da sede da Paramount, está engolindo a indústria do entretenimento sem mastigar. Este ano o serviço de streaming vai lançar 90 filmes, incluindo documentários. A título de comparação, os cinco estúdios convencionais ainda em operação —Paramount, Universal, Sony, Disney e Warner Bros.— vão produzir mais ou menos o mesmo número —juntos. Desse total, a Paramount deve contribuir com 13.

Com a proliferação dos serviços de streaming, fazer cinema à moda antiga vai ficar mais e mais difícil. A Apple pretende lançar nos próximos meses sua plataforma multibilionária de TV e cinema. O Facebook vem encarando a sério a divulgação de sua plataforma Watch, de video on demand. Em um esforço para não ficar para trás, empresas de entretenimento como Disney e Warner Media vêm se fortalecendo (a Disney com a compra de ativos da 21st Century Fox por US$ 71,3 bilhões, a Warner, vendendo-se à AT&T por US$ 85,4 bilhões —e pretendem lançar seus próprios serviços de streaming até o final do ano. Ao lado desses superpetroleiros, a Viacom é o equivalente corporativo de uma canoa.

Tudo isso obriga agentes, diretores, roteiristas e produtores a encarar perguntas incômodas. Será que a Paramount, o estúdio que simboliza a própria Hollywood mais que qualquer outro, vai encontrar um caminho para seguir adiante como estúdio isolado? Ou veremos seus créditos de conclusão passando pela tela, como aconteceu com a Fox?

“Eu sabia que seria difícil”, disse o veterano executivo do cinema Jim Gianopulos, que assumiu como chairman da Paramount em 2017 e lidera o esforço para ressuscitar o estúdio. “Mas não imaginava o tamanho do desafio.”

 "Os olhos das pessoas brilham”

Passeie pelo terreno da Paramount, como nós fizemos numa tarde do final do ano passado, e você verá atividade frenética. Frotas de empilhadeiras transportam sets recém-fabricados pela marcenaria da casa. Jardineiros cuidam das sebes de hibisco. Eletricistas penduram luminárias. Funcionários da produção andam de um lado a outro em carrinhos de golfe. À primeira vista a Paramount parece tão dinâmica quanto era quando Sumner Redstone assumiu seu controle, em 1994.

Mas a atividade toda é principalmente uma ilusão. Hoje poucos filmes ainda são rodados em Los Angeles, pela Paramount ou qualquer outro estúdio. Dos cem filmes de maior bilheteria de 2017, apenas dez foram rodados na Califórnia, segundo a Film L.A., que rastreia as produções. Custa menos produzir filmes em estados como Novo México ou Geórgia, que oferecem subsídios generosos. Séries de TV ainda são produzidas nos estúdios, mas Redstone dividiu seu império em duas partes em 2005, e a divisão inteira de televisão da Paramount ficou com a CBS Corp.

Sob muitos aspectos a Paramount se converteu em um imóvel alugado especial. A HBO aluga o set 17 para a produção de “Barry”, comédia sobre um matador de aluguel que quer mudar de profissão. “This Is Us”, produção chorosa da Fox que vai ao ar na NBC, se espalha por três sets. Outros sets da Paramount são alugados pela Sony e a Amazon.

“A decisão de desfazer-se da Paramount TV inteira realmente aleijou a Paramount Studios”, comentou Frank Biondi, que presidiu a Viacom entre 1987 e 1996.

Além de ocupar os sets de filmagem, a produção de TV garante aos estúdios um fluxo de receita estável, algo com o qual podem contar quando filmes de grande orçamento fracassam nas bilheterias, como inevitavelmente acontece com alguns. A TV impulsionou o crescimento de Hollywood nos últimos dez anos. Pelo menos 495 programas originais roteirizados foram ao ar em 2018 (em 2012 haviam sido 288), graças a novos compradores como Netflix e Hulu.

Para puxar a Paramount de volta da beira do abismo, Gianopulos e uma nova segunda em comando, Nicole Clemens, estão reconstruindo a divisão de televisão do estúdio. A Paramount reiniciou a produção de programas de TV em 2013 e agora está com sete séries no ar, incluindo “The Alienist” na TNT e “Jack Ryan” na Amazon Prime. Gianopulos disse que espera ter 20 séries em produção até o final do ano. A Viacom afirmouque a Paramount Television gerou receita de US$ 400 milhões no ano passado; Gianopulos disse que este ano a divisão deve dobrar os lucros de 2018.

Sob pressão para mostrar resultados, Nicole Clemens ainda estava trabalhando com afinco às 18h de uma sexta-feira recente. Enquanto aguardávamos diante de sua sala, dois assistentes faziam telefonemas como se a vida deles dependesse disso.

Clemens acabou saindo de trás de sua mesa. “Isto daqui está calmo agora”, ela disse. “Vocês deveriam ter visto a gente hoje cedo.”

Por mais que a TV seja importante para o futuro financeiro da Paramount, Gianopulos disse que o cinema sempre será a âncora da empresa. Com isso em mente, em setembro de 2017 ele contratou um dos produtores mais respeitados de Hollywood, Wyck Godfrey, cujo currículo inclui os blockbusters da série “Twilight”, para presidir a divisão de cinema. Godfrey conta com o apoio de novos diretores de marketing, publicidade e animação.

“Pode soar um clichê, mas você só é tão bom quanto sua equipe”, disse Gianopulos. “E todos os nomes principais que eu trouxe para cá são executivos experientes e bem-sucedidos.” Talvez aludindo indiretamente a profissionais intempestivos que já deixaram a empresa, ele comentou: “Nenhum dos novos diretores é alguém que grita. Eles não são hiperbólicos. São todos adultos. Sabem colaborar”.

Godfrey havia vivenciado a disfunção da Paramount em primeira mão como produtor. Em 2016 o estúdio cancelou um de seus projetos sem aviso prévio devido a uma disputa sobre escolha de elenco. Era uma adaptação ao cinema do romance “Quem é Você, Alasca?”, de John Green.

“Do meu ponto de vista de outsider, este lugar tinha ficado muito impulsionado pelo medo, então a primeira coisa que eu precisava fazer era tentar mudar essa situação”, disse Godfrey. “Eu dizia a quem quisesse ouvir: ‘Vamos começar a apostar de verdade nas coisas em que acreditamos’. Eu assumirei a responsabilidade quando a gente errar, o que é inevitável. Mas vamos nos lançar.”

“Precisamos fazer mais filmes e também filmes que resistam à prova do tempo”, ele prosseguiu. “Não temos escolha. É a única saída.” A Paramount espera produzir 17 filmes em 2020.

A lista de filmes que Godfrey pretende produzir enfatiza projetos feitos com grande orçamento e voltados a plateias globais, trabalhos conhecidos em Hollywood como “tentpoles” (literalmente, as hastes que sustentam uma barraca). Uma sequência de “Top Gun” que vinha sendo gestada havia tempo vai finalmente se concretizar. Godfrey está trabalhando para infundir vida às franquias desgastadas “Tartarugas Ninja”, “Exterminador do Futuro”, “Star Trek” e “G.I. Joe”. A Paramount tem grandes esperanças para filmes ligados às redes a cabo da Viacom, incluindo “Dora, a Aventureira”, uma adaptação em live action do desenho animado da Nickelodeon.

Mas, seja qual for sua viabilidade nas bilheterias, esses filmes não parecem exatamente algo que vá “resistir à prova do tempo”.

Godfrey discordou, porém. Imagine, por exemplo, a Paramount confiando “Star Trek” a Quentin Tarantino. “De repente os olhos das pessoas brilham”, ele disse. “Os seus acabaram de brilhar.”

Ele também destacou que “Missão Impossível – Efeito Fallout”, lançado pela Paramount em agosto, desmentiu as previsões dos pessimistas. Sexto capítulo de uma série que já dura 23 anos, o filme recebeu resenhas eufóricas e gerou US$ 791 milhões nas bilheterias mundiais, 16% mais que o filme anterior da franquia. Dois outros capítulos de “Missão Impossível” estrelados por Tom Cruise já estão programados.

“Efeito Fallout” e outro sucesso inesperado do ano passado, “Um Lugar Silencioso”, ajudaram a Paramount a anunciar um prejuízo operacional de US$ 39 milhões em 2018, sendo que um ano antes disso ela havia perdido US$ 280 milhões. A título de comparação, a Walt Disney Studios, líder da indústria, declarou lucro de US$ 2,98 bilhões em 2018, mais que os US$ 2,36 bilhões do ano anterior.

Alguns filmes mais recentes da Paramount tiveram resultados desiguais. “Bumblebee”, uma prequela bem recebida dos filmes “Transformers”, arrecadou US$ 370 milhões, uma cifra respeitável, mesmo que não seja exatamente monumental. As comédias “Nobody’s Fool” e “Instant Family” decepcionaram nas bilheterias.

Para Gianopulos, ainda é cedo para a Paramount sair do vermelho. Ele prevê que isso aconteça este ano. “Numa partida em quatro tempos, estamos na metade do segundo tempo”, explicou.

“O estúdio devorando a si mesmo”

Pergunte aos donos do poder em Hollywood como a Paramount decaiu e eles dirão que não querem falar mal dos mortos. E então eles falam mal dos mortos, detalhadamente e com grande gosto.

O predecessor de Gianopulos, Brad Grey, liderou o estúdio por 12 anos e demitiu-se sob pressão em fevereiro de 2017. Ele morreu de câncer três meses depois, para espanto da capital do cinema. Quase ninguém sabia de sua doença.

Mas olhando em retrospectiva, havia alguns sinais. Perto do fim de sua gestão Grey raramente era visto na Paramount. Um boato circulou, segundo o qual seu motorista levava o carro para a sede da Paramount e estacionava —para dar a impressão de que Grey estava em algum lugar ali—, voltando para casa então de táxi. O vice-presidente do estúdio, Rob Moore, também se ausentava com frequência. Ele passava muito tempo na China, onde tentou vender uma participação minoritária do estúdio, uma transação que não chegou a ser fechada. E ele namorava uma apresentadora de TV chinesa.

A ausência do presidente pode ter contribuído para o declínio do estúdio, mas o declínio pode ter começado com a briga de Redstone com Diller, em 1993. Visto por Hollywood como arrogante e inseguro, Sumner Redstone quis comprar a Paramount para comprovar que fizera sucesso e que fazia parte da elite de Hollywood. Que ele era mais do que apenas seu império a cabo composto do VH1, da Nickelodeon e da MTV, uma empresa de mídia que os verdadeiros grandes nomes dos estúdios descreviam como “A Casa que Beavis e Butt-Head Construíram”.

Diller também tinha vínculos emocionais com a Paramount; ele comandara o estúdio de 1974 a 1984, quando saíram da Paramount sucessos como “Grease”, “Caçadores da Arca Perdida” e “Um Tira da Pesada”. Mas Diller queria usar a Paramount para impelir Hollywood para uma nova era: uma era em que uma “superinfovia” ainda incipiente chamada a internet percorreria o estúdio, levando filmes e séries de TV diretamente para computadores.

Em outras palavras, a Netflix.

Redstone acabaria comprando a Blockbuster (sim, aquela Blockbuster) para fechar o acordo, e seus advogados zombaram do interesse de Diller pela internet. Escarneciam dele por levar um computador —um dos primeiros da Apple— para a sala de negociações. Quem acabou perdendo foi Redstone, cuja Viacom perderia inúmeras oportunidades na internet nos 25 anos seguintes. Diller fundaria a IAC, uma coleção dinâmica de empreendimentos na web.

Outras decisões míopes de Redstone e seus amigos, todas tomadas devido à soberba e cobiça, acabaram arrastando a Paramount para baixo. Executivos experientes do setor de entretenimento compararam a má gestão do estúdio sob Grey e seu chefe, Philippe Dauman, que comandou a Viacom de 2006 a 2016, a um velho filme de terror. Talvez “Invasion of the Body Snatchers”.

“Você vê o estúdio devorando a si mesmo e sente uma dor no estômago”, comentou Jonathan Dolgen, chairman da Paramount na década de 1990.

A verdadeira debacle começou em 2005. Para reforçar seu catálogo, o estúdio comprou a DreamWorks SKG, com isso incluindo Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen sob seu manto. Mas a aliança não demorou a virar um conflito entre figuras poderosas. Em dado momento, Dauman disse a investidores que Spielberg —o diretor mais poderoso de Hollywood então e hoje— era, na realidade, “completamente irrelevante” para a receita da empresa. Geffen separou a DreamWorks da Paramount e da Viacom em 2008.

Então, em 2009, um filme de horror feito com orçamento minúsculo e intitulado “Atividade Paranormal”, produzido por Blum e distribuído pela Paramount, virou um sucesso inesperado, dando início a uma franquia de US$ 1 bilhão. Em lugar de ungir Blum, Grey quis controlar a série —e ficar com o crédito para si. Então ele expulsou Blum da Paramount. Blum foi para a Universal, onde vem gerando receita sem parar, criando sucessos comerciais feito com baixo orçamento como “Corra!”, “Uma Noite de Crime”, “Halloween” e “Fragmentado”, através de sua produtora Blumhouse.

No ano seguinte a Paramount deixou a Disney comprar seus direitos de distribuir filmes de super-heróis da Marvel. O negócio ajudou os executivos da Viacom a alcançar metas financeiras que lhes valeram bônus financeiros. Mas a Paramount saiu prejudicada mais adiante. A Marvel se tornaria a maior máquina de geração de sucessos da Disney.

Começaram a circular teorias sobre como Grey estava conseguindo se manter no cargo. Anos antes, no início de sua época no comando da empresa, ele interviera numa festa de première de um filme para defender Dauman de uma saraivada de insultos do produtor Harvey Weinstein. Naquela época ninguém opunha resistência a Weinstein. A atitude levou o refinado Dauman a apreciar Grey. Mas fora tudo montado. Grey havia planejado o confronto com Weinstein, de quem era amigo havia anos.

Dauman foi demitido em 2016 e recebeu US$ 72 milhões ao sair da empresa. Na época, a Paramount estava perdendo US$ 450 milhões por ano e as ações da Viacom haviam se desvalorizado em 50% em dois anos.

Não conseguimos falar com Dauman para ouvir seu lado da história. Grey, por sua parte, insistiu até o final que fez o melhor que pôde pela Paramount. Ele se orgulhava do fato de Dauman lhe ter deixado continuar fiel à visão romântica da indústria do cinema —um lugar que tinha espaço para filmes de autor, como “Silêncio”, de Martin Scorsese, e “Aliados”, de Robert Zemeckis—, ao mesmo tempo em que os estúdios concorrentes, adaptando-se à realidade dos negócios, haviam aderido quase completamente às grandes produções de fantasia, suas “tentpoles”.

Para Hollywood, a Paramount não estava evoluindo. Era quase como se Grey e alguns de seus colegas estivessem encenando trechos de “Crepúsculo dos Deuses”, uma produção da Paramount de 1950.

“Eu sou grande”, insiste em um momento famoso a iludida estrela do cinema mudo Norma Desmond. “São os filmes que ficaram pequenos.”

“É irrelevante”

A Paramount já passou por ciclos de “boom and bust” anteriores. Na década de 1960 a então proprietária do estúdio, o conglomerado industrial Gulf & Western, quase vendeu o estúdio, em sérias dificuldades na época, por seu valor imobiliário. Foram iniciadas negociações com um cemitério contíguo ao estúdio, que visualizava aumentar sua área.

Foi quando o jovem diretor de produção da Paramount, Robert Evans, converteu um drama macabro, “O Bebê de Rosemary”, em enorme sucesso de bilheteria. Outro sucesso inesperado, o sentimental “Love Story”, sairia em 1970.

Evans acabou fazendo da Paramount uma vitrine de filmes que definiriam a cultura americana, lançando “O Poderoso Chefão”, “O Poderoso Chefão Parte 2”, “Ensina-me a Viver”, “Serpico”, “Chinatown” e “Cowboy do Asfalto”, entre outros. Esses filmes inspiraram muitos dos maiores diretores e executivos de hoje a fazer carreira em Hollywood. Uma geração inteira de criatividade se nutriu do que a Paramount produziu.

Uma sucessora, Sherry Lansing, manteve a Paramount saudável até entregar as rédeas a Grey. Sua direção foi marcada pelos sucessos premiados com o Oscar “Forrest Gump”, “Braveheart” e “Titanic”, uma co-produção com a Fox. Na realidade, a Paramount era tão forte que ganhou em Hollywood o apelido “A Montanha”, uma referência ao seu logotipo, um pico montanhoso nevado cercado por estrelas.

Portanto, tudo é possível. Para os próximos meses a Paramount está apostando em drogas, sexo gay e rock ‘n’ roll: “Rocketman”, um musical sobre a turbulenta vida e carreira de Elton John, sairá em março, um dos meses mais competitivos em Hollywood. Gianopulos enxerga outro sucesso potencial em “Gemini Man”, de Ang Lee, que sairá no outono americano, com Will Smith no papel de matador de aluguel envelhecido que tem que combater um clone dele próprio, mais jovem.

Gianopulos consertou relacionamentos cruciais com produtores, algo que constitui um bom indício. Por exemplo, a Hasbro, parceira que estava desencantada com o estúdio, concordou em prolongar sua parceria por mais cinco anos.

David Ellison, produtor e financista bilionário de projetos de grande orçamento como “O Exterminador do Futuro: Gênesis”, estava prestes a deixar a Paramount e se estabelecer em outro estúdio; Gianopulos o persuadiu a continuar com a Paramount por mais quatro anos. Mas esse relacionamento ficou tenso novamente, com a Paramount insatisfeita com a decisão de Ellison de contratar John Lasseter, obrigado a pedir demissão da Disney no ano passado em função de acusações do Me Too.

Em novembro Gianopulos fechou um acordo com a Netflix para fornecer alguns filmes originais por ano ao serviço de streaming, abrindo uma nova fonte de renda para a Paramount.

E a Paramount finalmente tem o apoio pleno da Viacom, onde um novo executivo-chefe, Robert Bakish, deslanchou um plano agressivo para imprimir uma reviravolta no estúdio. Em entrevista concedida no 52º andar da sede da Viacom na Times Square, Bakish comentou que acabara de retornar de Hollywood, onde se reuniu com agentes a quem disse que, diferentemente de seu predecessor, ele não tem planos de vender o estúdio. Pelo contrário, a Viacom está apostando forte na Paramount: estamos abertos, tragam-nos seus roteiros.

“Estava claro que tínhamos um problema enorme”, disse Bakish. “Mas é a Paramount. É a Montanha.”

Pessoas da indústria do cinema querem acreditar que a Paramount vai reagir bem aos desfibriladores. Mas, reservadamente, algumas pessoas já estão montando vigília em torno do estúdio moribundo.

Quando conseguimos falar com Diller, que estava na Europa a negócios, para lhe perguntar sobre seu esforço fracassado para controlar a Paramount e o que foi feito do estúdio e da indústria do cinema, sua primeira reação foi perguntar por que alguém se daria ao trabalho de escrever sobre o estúdio.

“Por que a Paramount?”, ele indagou. “Ela é irrelevante.”

Tradução de Clara Allain

The New York Times
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