Saiba quem é quem na Secretaria da Cultura de Mario Frias sob Bolsonaro

Em pasta que acumula gestões breves, ator completa escalação de seus principais assessores

Belo Horizonte

Um policial militar, uma servidora de carreira, um “bolsonarista raiz”, um promotor de eventos e um egresso da gestão Covas.

O time de Mario Frias para tocar a Cultura já está escalado e, em grande parte, afinado à lógica bolsonarista que vê na área das artes a grande arena de uma guerra ideológica que precisa extirpar o que parcela da direita vê como uma máquina pública de financiar imoralidades.

Mas, pelo menos por enquanto, quem quiser ver a seleção do secretário especial ex-ator de “Malhação” —e tiver tempo e paciência— precisa pinçar os nomes um a um no Diário Oficial da União.

Passados quase três meses desde a posse de Frias, o site da Secretaria Especial da Cultura informa que todos os cargos de subsecretários ainda estão vagos, com a exceção de um —ocupado por Aldo Valentim, chefe da Secretaria da Economia Criativa. A lista, claro, está desatualizada.

O secretário, que flertou com seu lado ator no polêmico vídeo da campanha “Um Povo Heroico”, passou a exigir o controle total das redes sociais de todos os órgãos vinculados à pasta, em ofício enviado no mesmo dia em que chamou o comediante Marcelo Adnet de “criatura imunda”.

É difícil encontrar um padrão entre os profissionais na linha de frente da pasta de Frias, mas são recorrentes as críticas quanto ao conhecimento de cada um —ou falta dele— em relação à área que chefia. E isso leva a outra questão —o que pesa mais, uma adesão às ideias bolosonaristas ou currículos mais robustos?

Aldo Valentim chegou ainda na gestão de Regina Duarte. Ocupava antes o cargo de secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, então comandada por Alê Youssef. Em julho do ano passado, ele pediu exoneração e saiu dizendo “espero que um dia São Paulo volte a ter um secretário de Cultura e não um produtor de eventos”.

Uma das primeiras nomeações ocorridas durante a gestão de Frias foi a da secretária-adjunta, a “número dois” da casa —a advogada Andrea Abrão Paes Leme, que ocupou o cargo de diretora do Departamento do Sistema Nacional de Cultura da secretaria.

As demais subpastas são as de Audiovisual, Desenvolvimento Cultural, Fomento e Incentivo à Cultura, Direitos Autorais e Propriedade Intelectual. Havia ainda uma secretaria da Diversidade Cultural, que foi incorporada à subpasta da economia criativa, na véspera do Dia Mundial da Diversidade Cultural.

Em agosto, foi nomeado o capitão André Porciuncula, da Polícia Militar baiana, como secretário de Fomento e Incentivo à Cultura. Nas redes, ele já fez críticas aos “autoproclamados iluministas” e posta frases como “a cultura é um insight espiritual de primeira grandeza, é o evento teofânico em que o culto (cultura) brota em uma sociedade e define todos os demais aspectos da existência humana”.

Nomeado no mesmo dia, Maurício Waissman é o secretário nacional de Desenvolvimento Cultural. Ele chegou a exercer antes o cargo de coordenador-geral da Política Nacional de Cultura Viva, mas
havia sido demitido na véspera da posse de Regina Duarte.

No Facebook, Waissman se apresenta como um “cristão, conservador, bolsonarista raiz, escritor, palestrante, professor, advogado, artista plástico e cronista dos absurdos tragicômicos do cotidiano”.

A Secretaria de Direitos Autorais é chefiada pela advogada Glaucia Sugai, servidora concursada, admitida em 2014, tendo sido aprovada para a função de analista técnico-administrativo. Em julho, Sugai foi designada substituta eventual do cargo. Em agosto, foi nomeada secretária.

A Secretaria do Audiovisual ficou sob o comando de Bruno Graça Melo Côrtes, que tem carreira ligada à área de promoção de eventos. Segundo seu currículo no LinkedIn, Côrtes trabalhou durante 13 anos na Som Livre, lidando principalmente com shows.

Procurada para comentar a compatibilidade de nomeados com os respectivos cargos na Cultura, a secretaria não quis responder perguntas.

A pasta também conta com entidades vinculadas —órgãos que são bastante conhecidos pelos brasileiros, como a Ancine e a Funarte.

Poucos dias depois da posse de Regina Duarte, em março deste ano, foi nomeado Pedro Mastrobuono para o Ibram, o Instituto Brasileiro de Museus. O advogado é um membro fundador do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna.

A Ancine é chefiada por um colegiado —formado atualmente por substitutos. Alex Braga Muniz, diretor-presidente, foi aprovado pelo Senado para o cargo em setembro de 2017, depois de uma sabatina. Entre 2009 e 2017, ele exerceu a função de procurador-chefe junto à Ancine.

Braga Muniz assumiu o cargo de diretor-presidente após a saída de Christian de Castro, que foi acusado de falsidade ideológica e estelionato. Ele então ficou sozinho na diretoria que deveria ter quatro pessoas, isso até Bolsonaro designar a servidora Luana Rufino —atualmente ela está de licença-maternidade.

Bolsonaro também indicou o pastor e colunista social Tutuca, que chegou a ser cotado para o Audiovisual.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, é chefiado desde maio por Larissa Rodrigues Peixoto Dutra. Sua nomeação chegou a ser suspensa. A decisão, depois cancelada, apontava que Peixoto não tinha formação nem experiência compatíveis com esse cargo.

A Fundação Nacional de Artes, a Funarte, estava sob o comando de Luciano Querido, que foi assessor do vereador Carlos Bolsonaro por 13 anos. Querido, que é webdesigner e bacharel em direito, participou dos primeiros passos dos Bolsonaros no mundo digital.

Querido teve exoneração publicada no DOU desta segunda (14). No seu lugar, assume Lamartine Barbosa Holanda, coronel da reserva do Exército.

Os chefes da Casa de Rui Barbosa, Biblioteca Nacional e Fundação Palmares foram nomeados ainda na gestão de Roberto Alvim —demitido por ter estrelado um vídeo parafraseando o ministro nazista
Joseph Goebbels—, em 2019.

Alvim ficou 72 dias no cargo. Regina, 77. Numa longa série de gestões breves, Frias completa agora 88 dias no posto.

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