Descrição de chapéu Cinema

Obra extraordinária, 'Limite' resiste ao tempo 90 anos depois

Longa de Mário Peixoto, eleito o melhor filme brasileiro de todos os tempos, foi pouco visto e não deixou sucessores

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Carlos Augusto Calil

Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, foi presidente da Embrafilme e secretário municipal de Cultura de São Paulo entre 2005 e 2012 (gestões José Serra e Gilberto Kassab)

[RESUMO] Tido como o maior filme do cinema brasileiro, “Limite” teve sua primeira exibição há 90 anos. Obra extraordinária, que não se parecia com nenhuma anterior e nem deixou sucessores, único longa de Mário Peixoto permaneceu quase desconhecido por cinco décadas, para depois arrebatar o mundo com o pujança de sua linguagem poética e de seus movimentos de câmera.

Limite”, o mais ambicioso dos filmes silenciosos brasileiros, foi realizado por Mário Peixoto (1908-1992) com a idade temerária de 22 anos. O primeiro e único filme de um jovem poeta surtiu sob o signo da morte —abutres se acomodam em um pico de morro—, decorrente da impossibilidade de realização do desejo, da inevitabilidade da derrota do humano frente à natureza. Rito de passagem da adolescência à vida adulta, sua temática se inscreve na corrente romântica tardia, pródiga de moços de talento precoce.

Ao mesmo tempo que concluía seu filme, Mário Peixoto publicou “Mundéu”, que Mário de Andrade considerou “a melhor revelação de poesia que tivemos esse ano [1931]”. O crítico, ao que se sabe, nunca viu “Limite”, mas destacava no livro o “movimento plástico das noções e das imagens”. Poesia de cinema, nela impera o ritmo.

Em “Limite”, uma câmera livre adquire estatuto lírico por conta de uma inesperada autonomia. A Mulher nº 1 (nenhuma personagem tem nome) foge da prisão com a cumplicidade do carcereiro que a deseja. A câmera a segue por uma estrada vazia, contorna o seu corpo, perde-a de vista, procura a personagem até encontrá-la debruçada em uma cerca. A câmera abandona a objetividade, torna-se cúmplice do drama da mulher.

Decadência, estagnação, melancolia da paisagem em um país jovem, de natureza exuberante, “Limite” é permeado por uma tensão erótica, do desejo homossexual reprimido pelas convenções, pela sociedade, pela “normalidade”, pela religião, pelo pai castrador.

Há inúmeras imagens que remetem ao erotismo sublimado, representado pelo vento, que despenteia os cabelos, os campos e as ruas, pelas ondas que lambem a praia, pela câmera que avança sobre a boca da personagem, como a querer penetrá-la, pela insistência da câmera em se aproximar da bica que jorra água etc.

O ritmo lento de “Limite” opera em duas dimensões simultâneas da duração: o tempo interior da personagem e o tempo latente do plano.

Filme extraordinário, “Limite” não se parece com obra anterior, não é tributário de nenhuma corrente estilística e nem deixou sucessores, pois não foi exibido publicamente. A história de que foi mostrado em Londres e visto —e comentado— por Serguei Eisenstein é lenda, fabricada pelo próprio diretor, que se revelaria um mitômano.

A inspiração aconteceu em Paris após uma altercação com o pai, herdeiro de uma rica família fluminense. Ao se afastar dele, Mário Peixoto, em um estado de espírito exaltado, vislumbrou o anúncio de uma revista francesa chamada “Vu” (visto), cuja capa trazia um rosto de mulher cingido pelos punhos algemados de um homem (imagem do grande fotógrafo húngaro André Kertész). Essa imagem de opressão e tolhimento marcou-o visualmente e se tornou a imagem nuclear do filme, reproduzida no seu início e no fim, como um leitmotiv.

“Limite” não é um filme narrativo, apesar de ter um fio de história. Sua linguagem é poética, composta de rimas visuais, metáforas, metonímias, aliterações, sinédoques. A câmera não descreve necessariamente o que se passa diante dela ou o que a personagem vê ou sente. A câmera muitas vezes assume o eu lírico, o sujeito da poesia.

O enredo

Três pessoas desconhecidas encontram-se em um barco em alto mar: Mulher nº 1, Mulher nº 2 e Homem nº 1.

Em flashback, cada personagem conta às outras episódios marcantes de suas vidas. A Mulher nº 1 é costureira, cometeu um crime e foi presa. Um homem (carcereiro) a deixa fugir com a intenção de retê-la para si, mas ela escapa e toma um trem.

A Mulher nº 2, casada com um músico bêbado, que toca no cinema da cidade, é infeliz. O Homem nº 1 é viúvo, mas tem uma amante. O marido dela, interpretado pelo próprio Mário Peixoto, o espera na beira do túmulo, para revelar-lhe que a sua mulher, e amante dele, está “morfética” (leprosa) e, portanto, condenada. O Homem nº 1 fica desolado.

Ao final de cada flashback, o filme retorna ao barco, onde as condições pioram gradativamente. Acaba a comida, e o barco começa a fazer água. Em desespero, o Homem nº 1 se joga ao mar, na esperança de alcançar um barril que flutua no horizonte. Mergulha e não retorna à superfície. Sobrevém uma tempestade que destrói o barco, e apenas a Mulher nº 1 se salva, agarrada a um destroço.

“Limite” não teria a dimensão artística que alcançou não fosse a fotografia e a câmera de Edgar Brasil. Com uma habilidade espantosa, ele realiza planos inesperados, soltos, tecnicamente complexos e impõe uma marca inédita ao filme. É possível dizer que ele antecipou em 50 anos anos o aparelho que hoje domina os sets de filmagem no mundo todo: a steadycam (câmera estável).

A reduzida equipe de “Limite” passou seis meses em filmagens em Mangaratiba, cidade colonial decadente situada no litoral do estado do Rio de Janeiro. A sintonia perfeita entre diretor e fotógrafo permitiu-lhes experimentações ousadas.

Complexos planos-sequências, que implicavam movimentações trabalhosas e sucessivas correções de foco, foram enfrentados por uma câmera na mão, inusual na época. A câmera do cinema silencioso, uma caixa quadrada tracionada a manivela, é pouco afeita ao abraço do fotógrafo.

Mário Peixoto nunca deixou de reconhecer a contribuição “inestimável” de Edgar Brasil ao seu filme-fetiche, concluído em 1931. Fosse “Limite” filme europeu ou norte-americano, Edgar Brasil hoje emprestaria seu nome a uma estatueta do Oscar ou a um prêmio de fotografia.

O culto de um filme secreto

Em 1928, um grupo de jovens intelectuais inconformados com o surgimento do cinema falado, que no seu primórdio soava muito vulgar, constituiu no Rio de Janeiro o primeiro cineclube brasileiro, que editava um jornal tabloide, O Fan. O lema desse cineclube era defender a superioridade do cinema silencioso sobre o falado, sendo por isso batizado de Chaplin Club.

Charles Chaplin, o maior artista do cinema na época, não aceitava a revolução trazida pela tecnologia do sonoro e se manteve fiel à linguagem do silencioso. Participavam desse cineclube Plínio Süssekind Rocha (estudante de física) e Otávio de Faria (estudante de direito), Almir de Castro e Cláudio Melo.

Em 17 de maio de 1931, o Chaplin Club organizava uma projeção do filme no cinema Capitólio, situado em plena Cinelândia do Rio de Janeiro, à qual compareceram a equipe de produção, Adhemar Gonzaga, jornalista, produtor e diretor de “Barro Humano”, filme de muito sucesso em 1929, e Humberto Mauro, que havia pouco lançara “Brasa Dormida”.

À parte a surpresa com a linguagem inusual de “Limite”, a constatação foi de que o filme era pouco comercial. Além desse empecilho, o cinema sonoro desde 1929 já havia se instalado no gosto do público brasileiro, que ansiava por novidades.

“Limite” surgia como o canto de cisne do cinema silencioso. Notável anacronismo ficou condenado ao ineditismo. Nunca lançado comercialmente, era exibido em sessões particulares, sempre controladas por seu diretor exigente. Mário Peixoto, depois de uma tentativa frustrada de realizar outro filme, “Onde a Terra Acaba”, refugiou-se em uma ilha na região de Angra dos Reis.

Otávio de Faria, que se destacaria como autor da caudalosa saga “Tragédia Burguesa”, e Plínio Süssekind Rocha, que ocuparia a cátedra de mecânica celeste da Faculdade Nacional de Filosofia, consideravam “Limite” a maior contribuição artística do Brasil à arte mundial. Escreveram sobre o filme e durante suas respectivas vidas o defenderam ardorosamente. Criou-se em torno do filme um culto de obra rara, inacessível e extraordinária, pouco vista e muito falada.

O professor de física nunca esqueceu o cineclubista. Promovia sessões regulares dos clássicos do cinema silencioso — “O Encouraçado Potemkin”, “Limite”— aos alunos, dentre os quais se destacaram Joaquim Pedro de Andrade, que se tornaria cineasta de renome, e Saulo Pereira de Mello.

Este devotou a sua vida a salvar o filme da decomposição química, além de escrever diversos textos e publicar livros sobre ele. Saulo morreu em abril de 2020, aos 87 anos, vítima da Covid-19.

Em 1971, Saulo concluiu a primeira restauração de “Limite”, que interrompeu o processo de deterioração do filme. Mesmo com essa medida, um trecho se perdeu definitivamente.

Não visto, mas muito incensado, “Limite” acabou por se tornar objeto do desprezo de Glauber Rocha no livro “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro” (1963). Glauber não viu e não gostou. Em 1978, foi exibido em poucas sessões na sala Funarte, no Rio, e finalmente visto pelos cineastas e críticos, entre eles o próprio Glauber, que nele reconheceu um filme de autor.

A circulação ampla de “Limite” só se iniciou em 1981. Para celebrar os 50 anos de sua realização, a Embrafilme adquiriu os direitos de exibição não comercial da obra e a liberou para projeções em cineclubes, mostras e salas especiais, sob controle estrito de seu diretor, que mandava olheiros acompanhar as sessões. Pouco depois era levado a um congresso realizado pela Bienal de Veneza, O Filme como Bem Cultural.

Em 1988, por ocasião dos 80 anos do cinema brasileiro, a Cinemateca Brasileira promoveu uma consulta entre críticos, professores e pesquisadores que resultou na eleição de “Limite” como o mais importante filme nacional. Em vista disso, o governo do Rio ofereceu um prêmio a Mário Peixoto, que lhe foi entregue em Mangaratiba, na presença de Alzira Alves, a Mulher nº 1 do filme, que tinha o nome artístico de Olga Breno.

Em 2015, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema repetiu a consulta, e “Limite” viu confirmada sua eleição, agora em um quadro mais amplo.

O restauro definitivo de “Limite” ocorreu em 2007, em uma operação conjunta da Cinemateca Brasileira com a de Bolonha (Itália), supervisionada pessoalmente por Saulo Pereira de Mello. O restauro consistiu em digitalizar a obra, convertendo a velocidade do filme silencioso para a do filme sonoro, além de incorporar a trilha sonora. A iniciativa da operação partiu de Walter Salles Júnior, e o financiamento veio da World Cinema Foundation, dirigida por Martin Scorsese. O filme finalmente alcançava merecido reconhecimento internacional.

“Limite” foi realizado segundo a linguagem do cinema silencioso, mas esses filmes eram frequentemente acompanhados de uma trilha musical, executada nos cinemas por um pianista, um conjunto de cordas com piano ou mesmo por uma orquestra nas grandes produções exibidas nos palácios de cinema.

Em “Limite”, há uma sequência no cineminha da cidade em que se exibe uma comédia de Chaplin, “Carlitos Encrencou a Zona”. A sessão é acompanhada por um pianista, interpretado por Brutus Pedreira, ator, diretor de teatro e grande amigo de Mário Peixoto. Nas sessões que se fizeram de “Limite” ao longo dos anos, Brutus foi sugerindo uma trilha musical para o filme, improvisada com a troca de discos na própria vitrola. Com o tempo, ela se consolidou e foi aceita por Mário Peixoto como trilha oficial do filme.

Ela parte de um tema sonoro, que sublinha o visual, a imagem da mulher reprimida pelo homem. Esse tema é o das “Gymnopédies”, do compositor francês Erik Satie, escritas para piano solo em 1888. A versão utilizada na trilha é a orquestrada por Claude Debussy, o maior nome do impressionismo musical francês, o que acentuou a melancolia do filme.

A sofisticada trilha sonora de “Limite” combina música impressionista com a ruptura moderna de Stravinsky, que quebrou os padrões vigentes com a dissonância de “O Pássaro de Fogo”. A trilha é eclética, incorpora autores do século 19 (Borodin, César Franck) com neoclássicos do século 20 (Prokofiev, Ravel). Antes de tudo, procura servir ao filme, ser fiel à atmosfera evocada.

Mário Peixoto era obcecado com a ideia de que o tempo, na verdade, é uma ilusão. No ateliê de costura da Mulher nº 1, entre os monumentais planos bem próximos, filmados com lente macro, há o de uma cartela de rebites, cuja inscrição está seccionada: “Nunca enfer[ruja]”.

Ao atingir os seus primeiros 90 anos, “Limite” resiste ao tempo.

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