Invasão do Capitólio foi 'ensaio geral' de projeto da ultradireita sem voto nos EUA

Autora afirma que ataque à democracia de um ano atrás foi ápice de ação de grupo conservador surgido nos anos 1980

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Lúcia Guimarães
Nova York

Um golpe fracassado é um ensaio para o próximo golpe. Esse truísmo político circula nos Estados Unidos desde 6 de janeiro do ano passado, quando a invasão ao Capitólio não consumou um golpe de Estado —o objetivo, porém, se tornou cada vez mais claro com os fatos descobertos nos últimos meses.

Se aquele ataque foi um ensaio, os movimentos políticos de 2021 sugerem que a próxima tentativa vai dispensar figuras como os bufões de lanças vistos na invasão ao Congresso. A violência não está descartada, mas terá sido precedida de metódica subversão da democracia eleitoral americana.

Depois do 6 de janeiro, o Partido Republicano perdeu pouco tempo examinando o papel de seus membros mais radicais nos distúrbios e passou a se empenhar numa campanha de novas leis, mudanças de regras administrativas e medidas de supressão ao direito ao voto. Estado por estado, a ideia é garantir que o fracasso de Donald Trump em reverter sua derrota em estados-chave em 2020 não se repita.

Policiais tentam conter apoiadores de Trump que se dirigiam ao Capitólio, em cena antes da invasão do prédio do Congresso americano em janeiro de 2021 - Olivier Douliery - 6.jan.21/AFP

As chamadas midterms (eleições de meio de mandato) deste ano, nas quais se espera que os republicanos recuperem o controle da Câmara e até consigam maioria apertada no Senado, podem ter um peso decisivo no próximo pleito presidencial, em 2024.

Quando a invasão ao Capitólio estava em curso e o mundo testemunhou perplexo a violência que visava impedir a confirmação no Congresso da vitória de Joe Biden —o último procedimento constitucional necessário para a posse—, em Nova York uma espectadora assistiu às cenas com filtros diferentes.

"Eu via os canais a cabo na minha TV e o streaming de mídia de ultradireita no telefone", relata à Folha Anne Nelson, historiadora e cientista política da Universidade Columbia. Seu livro mais recente, "Shadow Network – Media, Money, and the Secret Hub of the Radical Right" (rede fantasma: mídia, dinheiro e o eixo secreto da direita radical), publicado nos EUA no final de outubro de 2019, ganhou um novo capítulo meses após ao ataque ao Capitólio.

A "rede fantasma" do título é o pouco conhecido Council for National Policy (Conselho para Política Nacional), fundado em 1981. Nelson considera o 6 de janeiro a culminação de 40 anos de uma metódica estratégia do CNP para garantir que uma minoria conservadora religiosa controle mecanismos eleitorais para capturar o poder.

Deixando de lado a figura pitoresca do "xamã do QAnon" e do trumpista que jogou um extintor em policiais —ambos condenados—, a incursão no prédio do Congresso teria sido, então, menos um arroubo orgânico de violência do que o estágio mais avançado de um plano que começou antes da eleição.

O CNP não é um movimento, explica a autora em "Shadow Network", mas uma rede de influência operando em segredo desde que foi criada, após fazer uma aliança com o então candidato republicano Ronald Reagan. O mesmo acordo foi costurado com Trump em 2016: o empresário teria o dinheiro e a infraestrutura de campanha do CNP e, em troca, abriria as portas da Casa Branca para os evangélicos, inclusive nomeando juízes federais previamente aprovados pela liderança religiosa.

O Conselho surgiu do encontro de dois grupos de descontentes com os rumos da política e as transformações demográficas que, na década de 1970, começaram a tornar os EUA um país mais diverso e progressivamente mais liberal em costumes. O período após o fim da segregação racial nas escolas americanas, a partir da metade dos anos 1960, provocou uma reação entre sulistas que evocava os ressentimentos dos escravagistas derrotados na Guerra Civil um século antes.

Evangélicos conservadores começaram, então, a enriquecer abrindo escolas particulares apelidadas de "academias de segregação". Mas o governo federal bloqueou benefícios fiscais para instituições que violassem a nova legislação de direitos civis, frustrando os pastores milionários.

Ao mesmo tempo, a indústria de combustíveis fósseis via seus lucros ameaçados sob a recém-criada EPA (Agência de Proteção do Meio Ambiente), na medida em que aumentavam iniciativas de controle, como a fiscalização de despejos tóxicos.

Empresários ligados à religião e aos combustíveis se uniram para combater o poder do governo federal, atraindo aliados e arregimentando estrategistas políticos e profissionais de marketing. O maior poder do CNP, explica Anne Nelson, está em cercar todo um ecossistema com mídia conservadora e mobilizar uma rede de grandes doadores para as organizações que promovem sua agenda.

Ela conta que a lista secreta dos membros só foi descoberta na década passada, e nela figuravam nomes como os dos ex-conselheiros de Trump Steve Bannon e Kellyanne Conway. Desde a fundação, sabendo que sua agenda política seria progressivamente derrotada nas urnas, o grupo elaborou um plano de ação a longo prazo.

A cientista política lembra que muitos americanos acham que sua democracia se apoia no voto popular, mas que o sistema é uma "colcha de retalhos obsoleta". Não à toa, o CNP saiu das sombras no ano final da Presidência de Trump, quando ficou claro que seu aliado fiel poderia ser derrotado tanto no voto popular quanto no Colégio Eleitoral —instituição do século 18 que precisa certificar a eleição presidencial.

Enquanto emergiam essas preocupações, estourou a pandemia da Covid-19, e o grupo de ultradireita só via chance de reeleger Trump no final de 2020 com um calendário intenso de comícios, que serviriam para recolher dados e manter a base mobilizada.

Nelson conta que, num telefonema para a direção da campanha republicana, o CNP teria proposto interferir no combate à crise sanitária, minando a autoridade da ala do governo federal encarregada da saúde pública. Alistou médicos de ética duvidosa para vender falsos tratamentos —como a hidroxicloroquina e a perigosa ivermectina, que causou inúmeras mortes—, fez propaganda contra o isolamento social e a obrigatoriedade de vacina.

"A eleição de 2020 era estratégica para eles", diz a autora. Entre os planos que o Conselho considerou para manter Trump no poder, o mais radical foi executado logo após o pleito: um membro fundou o grupo Stop the Steal (parem com o roubo) para reforçar a falsa tese de que democratas estavam roubando votos.

"A ideia era causar uma ruptura e pedir recontagens, como aconteceu na Geórgia. E, no final, tornar caótico o processo de certificação dos votos." Nelson lembra que a conspiração previa que o então vice-presidente, Mike Pence, que chefiava a sessão no Congresso, usasse um suposto poderobscuro sob a Constituição— de não confirmar a vitória de Biden.

"Esse plano fracassou", lembra, "e nossa democracia escapou por um triz." Nelson diz que havia membros proeminentes do CNP no comício de 6 de janeiro que antecedeu o ataque, entre eles a médica Simone Gold, propagandista de tratamentos falsos para Covid que entrou no Capitólio com os invasores.

A autora afirma ainda que o Partido Democrata nunca contou com uma organização com os tentáculos do Conselho para Política Nacional e chegou a este momento confiando mais nas aspirações da maioria que representa do que no trabalho detalhado sobre a complexa engrenagem eleitoral.

"A democracia americana depende de normas de bom comportamento, e os conservadores trumpistas não acatam mais essas normas."

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