Descrição de chapéu Eleições 2020

Boulos recebe diagnóstico de Covid e inicia isolamento; debate da Globo é cancelado

Candidato do PSOL suspendeu agendas de rua e pediu a apoiadores que 'virem voto' por ele

São Paulo

O candidato Guilherme Boulos (PSOL) informou nesta sexta-feira (27), a dois dias do segundo turno, que deu positivo o exame para Covid-19 a que ele se submeteu na quinta-feira (26). A equipe do candidato a prefeito de São Paulo disse que ele está sem sintomas e já iniciou um período de isolamento.

O debate da TV Globo entre ele e o candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), que estava marcado para a noite desta sexta-feira, foi cancelado pela emissora. Representantes das duas campanhas chegaram a entrar em acordo e solicitar que o embate fosse feito de maneira virtual, mas a Globo se negou.

Ao anunciar o diagnóstico, Boulos disse que havia proposto à emissora que o confronto ocorresse a distância, sem a necessidade de comparecer ao estúdio. O acordo prévio dos candidatos com a Globo, contudo, não previa essa possibilidade, que foi descartada pela emissora.

A Globo afirmou em nota que as regras aceitas pelos partidos continham a proibição claramente, no trecho: "O debate eleitoral só será realizado de forma presencial, não se admitindo, em nenhuma circunstância, o uso de meios virtuais para realizá-lo”.

O confronto na emissora de maior audiência era esperado com ansiedade pelos dois concorrentes, mas especialmente por Boulos, que via no encontro uma possibilidade de fustigar o rival e tentar ultrapassá-lo.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (26) mostrou o tucano à frente na disputa, com 54% dos votos válidos, e o psolista com 46%.

O embate desta sexta vinha sendo tratado como decisivo também porque a campanha deste ano ficou marcada pela escassez de confrontos —o da Globo seria apenas o terceiro neste segundo turno, que, com duração de duas semanas, é o mais curto da história, por causa da pandemia.

O postulante do PSOL decidiu fazer o teste para a doença depois que a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), sua aliada, teve diagnóstico positivo, na segunda-feira (23). Ela havia participado de um evento da campanha na sexta-feira passada (20), no auditório de um hotel no centro de São Paulo.

No ato, acompanhado pela reportagem da Folha, os participantes usavam máscara. A assessoria de Boulos afirmou nesta sexta que tanto ele quanto Sâmia "seguiram todas as medidas sanitárias recomendadas, como uso de máscaras e álcool em gel".

Depois da confirmação da contaminação da deputada, Boulos passou a ser questionado sobre sua agenda e anunciou na terça (24) que suspenderia os atos de rua no segundo turno. Ele interrompeu caminhadas e aparições em locais de grande circulação de pessoas, mas manteve encontros menores.

No comunicado, a campanha afirmou que Boulos "irá cumprir o protocolo de quarentena pelo período necessário" e que "toda a equipe que trabalha na campanha e que tem contato próximo com o candidato será testada a partir de agora".

A ciência ainda não sabe quanto tempo dura uma suposta imunidade após a infecção e a recuperação, uma vez que já houve uma série de casos de reinfecção de pessoas que se recuperaram.

Covas se manifestou sobre o caso, em uma rede social, minutos após a informação vir a público. "Desejamos pronta recuperação ao candidato", disse o tucano, que teve Covid em junho deste ano, quando a cidade estava em um de seus piores momentos da pandemia.

O atual prefeito, que enfrenta um câncer, foi diagnosticado com o novo coronavírus após um exame de rotina, mas também não apresentou sintomas e continuou trabalhando de casa.

Tanto na nota em que confirmou ter sido contaminado quanto nas falas feitas nesta sexta, Boulos mencionou a possibilidade de a capital paulista estar enfrentando uma segunda onda da Covid, como já vinha fazendo nos últimos dias.

Ele tem criticado aspectos da atuação de Covas e do governador João Doria (PSDB). No comunicado, o psolista disse reforçar sua preocupação sobre "os indícios de uma segunda onda da pandemia até aqui negligenciada pelos governos estadual e municipal, responsáveis pela aplicação das medidas".

Em entrevista concedida pouco depois ao apresentador José Luiz Datena, na Band, o coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) voltou a cobrar responsabilidade das autoridades e transparência sobre os dados da doença.

"É muito preocupante, não digo nem por mim, agora que testei positivo, [mas pelo] aumento do número de internações. [...] E eu espero que a prefeitura e o governo do estado, que são os responsáveis por definir as normas de combate à pandemia, tratem isso com seriedade", disse.

"Eu vi com muita preocupação que o governador marcou uma coletiva para definir mudar ou não o Plano São Paulo para um dia após a eleição [30 de novembro]. Acho que o calendário eleitoral não pode pautar o combate à pandemia do coronavírus na cidade, porque são vidas que estão em jogo", completou.

Sempre que questionado sobre o tema, Covas afirma que as decisões no combate à disseminação do vírus não se pautam pela eleição, mas, sim, a partir de opiniões médicas e de especialistas.

O prefeito tem dito que, até agora, os números não mostram uma segunda onda, mas o aumento de casos e internações faz com que a comunidade médica pressione pela volta da quarentena mais restrita.

Aliados do tucano afirmam que ele não irá "cair em provocação" e não responderá caso Boulos use seu diagnóstico para politizar o debate sobre a pandemia. A campanha do PSDB minimizou o efeito eleitoral da divulgação da doença do adversário e diz considerá-la insuficiente para alterar rumos da corrida.

Auxiliares de Boulos lamentaram o episódio, que viram como "uma bomba" e se disseram frustrados com a impossibilidade de realização do debate na Globo. A expectativa entre os aliados era que o desempenho dele no programa pudesse reforçar o que chamam de onda de apoio à candidatura.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, Boulos pediu a apoiadores que assumam a campanha e falou que vai precisar da ajuda deles para chegar à vitória.

"Eu não vou poder estar nas ruas nos próximos dois dias, na reta final da nossa virada nestas eleições. A gente está acostumado a ter dificuldade e a superá-las. Vai ser assim mais uma vez. Mais do que nunca, agora é a hora que a nossa campanha vai precisar de todos vocês", afirmou.

"Eu não vou poder estar na rua para virar voto nos próximos dias, mas eu sei que milhares de pessoas vão fazer isso no meu lugar", disse na gravação.

Boulos afirmou que não votará no domingo, incentivou que os eleitores compareçam às urnas, mas tomando precauções. Como mostrou a Folha, a abstenção prejudica mais Covas, que é favorito entre os mais velhos, enquanto o candidato do PSOL é preferido pelos mais jovens.

A assessoria da candidata a vice, Luiza Erundina (PSOL), disse que ela não teve contato com Boulos ou com integrantes da equipe direta do candidato. A deputada federal e ex-prefeita, de 85 anos, ficou afastada da campanha de rua por ser parte do grupo de risco para a enfermidade.

Erundina participará neste sábado (28) de uma das quatro carreatas organizadas pelo PSOL para divulgar a candidatura em diferentes regiões da cidade. Boulos disse nesta sexta que "tudo o que queria era que o resultado desse negativo", para que ele pudesse comparecer aos atos já previstos.

Para se proteger, a candidata a vice tem usado uma caminhonete adaptada, com uma cabine de acrílico onde ela fica isolada. No compartimento, a ex-prefeita fala ao microfone e acena a apoiadores. O veículo é chamado por integrantes da campanha de "Erundinamóvel" (em alusão ao papamóvel) ou "cata-voto".

A última vez em que Boulos e Erundina se viram pessoalmente, segundo a campanha, foi no sábado (21), mas Erundina estava separada dele pela parede de acrílico transparente. Ambos também usavam máscara na ocasião, durante uma caminhada em Heliópolis (zona sul).

A ordem na equipe, diante do imprevisto, é manter a mobilização na rua mesmo sem o candidato. Nos bastidores, auxiliares admitiram se tratar de um revés importante, no momento em que Boulos busca conquistar eleitores de Covas para superar a vantagem de oito pontos do tucano no Datafolha.

Em live na noite desta sexta nas redes sociais, dividindo a tela com Erundina, Boulos minimizou os prejuízos de sua ausência nos últimos dois dias de campanha. "Embora, pela necessidade do isolamento, eu não possa sequer ir votar, milhões de pessoas vão poder votar no meu lugar”, disse ele.

Erundina afirmou que, com o novo cenário, será preciso intensificar a campanha, inclusive "a noite inteira do sábado para o domingo". "A agenda está mantida. Vamos ocupar a cidade com carreatas, manifestações”, disse.

Embora simpatizantes de Boulos tenham iniciado pressão nas redes sociais para que a Globo mantivesse o debate de forma virtual, as regras para o encontro, assinadas por ambas as campanhas, previam que o programa seria cancelado em caso de problema de saúde de um dos postulantes.

Em nota, a emissora disse que cancelou o encontro "seguindo as regras acordadas com os partidos, que preveem o cancelamento do debate em caso de problemas de saúde de um dos participantes".

“A alternativa de fazer um debate de forma remota não é possível", informou o canal. "Os candidatos precisam ser tratados de forma equânime e ter as mesmas condições, e o público precisa perceber isso."

"Um candidato pode injustamente ser acusado de estar com ponto eletrônico, de estar recebendo ajuda de assessores, por exemplo. A transmissão pode cair num momento importante do debate, e a Globo ser injustamente acusada de ser a culpada ou, da mesma forma, e também de forma injusta, o candidato ou sua campanha serem acusados de terem provocado a interrupção para fugir de um momento difícil."

O debate, cercado de cuidados por conta do novo coronavírus, teria três blocos: o primeiro e o terceiro com temas livres, e o segundo, com assuntos escolhidos em sorteio. Os políticos teriam 30 segundos para perguntas, um minuto e meio para respostas, um minuto para réplicas e 45 segundos para tréplicas.

Em todas as rodadas, as perguntas seriam feitas de candidato para candidato. No bloco com temas determinados, o tema a ser abordado seria sorteado pelo mediador, o jornalista Cesar Tralli. No encerramento, cada postulante faria suas considerações finais.

AGLOMERAÇÃO

As agendas do candidato divulgadas à imprensa mostram que Boulos participou de pelo menos 19 compromissos nos últimos 11 dias, desde que começou o segundo turno.

Mesmo depois do diagnóstico positivo da deputada Sâmia, divulgado na segunda-feira (23), Boulos ainda teve alguns compromissos de campanha. Na terça-feira (24), ele avisou que sua equipe vinha tentando agendar um teste, mas estava com dificuldade por causa da alta demanda em laboratórios.

O candidato participou do Roda Viva, da TV Cultura, naquela mesma segunda-feira do diagnóstico da correligionária. Na emissora, teve contato com toda a equipe do programa, além dos jornalistas que o entrevistaram. Também participou presencialmente de sabatina na rádio CBN.

Além disso, o candidato se encontrou com servidores públicos no hotel Excelsior (o mesmo do evento a que Sâmia compareceu), no centro, na terça (27). Na quarta, esteve com mulheres da periferia em Itaquera e, na quinta (26), se reuniu com pequenos comerciantes da região da rua Santa Ifigênia, no centro​.

Na última semana, por causa do teste de Sâmia, o candidato suspendeu as atividades feitas na rua e que costumavam formar aglomerações, mas manteve esses encontros com apoiadores —em locais privados, com menos pessoas, mas ainda assim com riscos de contaminação.

Na sexta, por exemplo, o encontro com comerciantes foi feito ao ar livre, mas os cerca de 40 presentes no local não se sentaram de maneira distanciada.

Durante a campanha, tanto Boulos quanto Covas promoveram agendas que ignoraram o distanciamento social e outras medidas de controle da pandemia, com exceção do uso de máscaras, mesmo diante do aumento de internações por Covid-19 na cidade nos últimos dias.

Com frequência, houve cenas de aglomeração, empurra-empurra e também apelos das equipes dos candidatos por distanciamento, além de distribuição de álcool em gel.

Ao longo da corrida eleitoral, a Folha questionou os dois sobre as aglomerações em eventos. Ambos ressaltavam a importância de não ignorar a pandemia, mas afirmavam que as agendas seguiam "todos os cuidados necessários".

"Tem equipe com álcool em gel, orientando o distanciamento", disse Boulos após uma caminhada pelo centro da capital no último dia 20.

Candidato Guilherme Boulos durante agenda de campanha no centro de São Paulo
Candidato Guilherme Boulos durante agenda de campanha no centro de São Paulo - Marlene Bergamo/Folhapress

Em um evento na zona sul no último dia 18, Covas afirmou que "não é porque é campanha que o vírus acabou. Evitando aglomeração, evitando ao máximo, mas é difícil também segurar o apoio das pessoas que querem vir ajudar”.

No plano sanitário que define os protocolos para o dia da votação, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) reuniu recomendações para as campanhas em meio à pandemia.

Estão entre as sugestões: orientar o uso correto de máscara para os participantes, optar por espaços amplos e abertos quando em contato com outras pessoas e evitar aglomerações e distribuição de material impresso.

Em São Paulo, o uso de máscaras é obrigatório. Pessoas físicas que estiverem sem o item podem ser multadas no valor de R$ 524.

O Ministério Público de São Paulo também explica que as regras sanitárias devem prevalecer às eleitorais em razão da pandemia de coronavírus e que os partidos receberam recomendações para seguirem as regras de distanciamento social, uso de máscara e álcool em gel.

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