Descrição de chapéu Eleições 2020 datafolha

Decisivo, último debate será vitrine em campanha atípica e teste para estratégias de Covas e Boulos

Candidatos de PSDB e PSOL devem insistir em temas espinhosos no confronto desta sexta-feira na Globo

São Paulo

Marcado para as 22h30 desta sexta-feira (27) na TV Globo, o último debate entre Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), candidatos que disputam a Prefeitura de São Paulo no segundo turno, é tratado como decisivo pelas campanhas e tido como vitrine em uma eleição atípica.

Os dois postulantes vão evitar compromissos externos nesta sexta-feira para se dedicarem à preparação para o confronto, no qual testarão as estratégias em curso. A batalha em torno dos vices e discussões sobre elitismo, experiência e radicalismo, além de cartas na manga, podem ser esperadas.

Depois de um primeiro turno marcado pela ausência de debates na TV (as principais emissoras cancelaram os programas alegando restrições em razão da pandemia de Covid-19 e excesso de candidatos), o segundo turno mais curto da história teve apenas dois embates na capital paulista.

A principal diferença, de acordo com estrategistas de PSDB e PSOL, é a audiência da Globo, superior à da CNN Brasil e à da Band, que promoveram os outros dois debates nestas duas semanas que separam o primeiro turno e a votação final do próximo domingo (29).

Na eleição de 2016, vencida por João Doria (PSDB) no primeiro turno, o encontro entre os adversários na Globo, realizado na quinta-feira anterior ao pleito, registrou 23 pontos. Na época, cada ponto de audiência representava 69 mil domicílios na cidade de São Paulo.

Na sexta-feira passada (20), no mesmo horário em que será exibido o programa com os candidatos a prefeito, depois da novela das 21h, a emissora alcançou 15 pontos com o especial "Falas Negras". Cada ponto representa o equivalente a 203.309 pessoas.

O debate, cercado de cuidados por conta do novo coronavírus, terá três blocos: o primeiro e o terceiro com temas livres, e o segundo, com assuntos escolhidos em sorteio. Os políticos terão 30 segundos para perguntas, um minuto e meio para respostas, um minuto para réplicas e 45 segundos para tréplicas.

Em todas as rodadas, as perguntas serão feitas de candidato para candidato. No bloco com temas determinados, o tema a ser abordado será sorteado pelo mediador, o jornalista Cesar Tralli. No encerramento, cada postulante fará suas considerações finais.

Embaladas pela pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (26), que mostrou Covas à frente, com 54% dos votos válidos, e Boulos com 46%, as duas campanhas apostam em um debate quente, fechando uma semana de trocas de ataques no horário eleitoral, em discursos e nas entrevistas.

"O debate da Globo tem peso por ter uma grande audiência. É importante que o candidato vá bem", diz Wilson Pedroso, coordenador da campanha do PSDB.

Para Josué Rocha, que coordena a candidatura do PSOL, o programa será importante para atrair eleitores indecisos, hoje no patamar de 4%. "Já há um sentimento de virada nas ruas", diz ele, referindo-se à chamada "onda" de apoio que o candidato propagandeia.

No entorno de Covas, porém, o resultado da pesquisa Datafolha foi comemorado. Na avaliação dos tucanos, o candidato do PSOL atingiu seu teto.

Boulos seguirá centrando fogo no candidato a vice do rival, o vereador Ricardo Nunes (MDB), que se tornou uma pedra no sapato, com as suspeitas que pesam sobre suas relações com creches e o registro de violência doméstica feito em 2011 pela esposa de Nunes, revelado pela Folha.

O candidato do PSOL tem levantado os dois temas e apostado no que considera uma tradição de prefeitos do PSDB na cidade, a de abandonar a prefeitura para disputar outros cargos e deixar o vice no lugar. Ao mesmo tempo, busca apresentar sua vice, Luiza Erundina (PSOL), como um contraponto.

A presença da ex-prefeita e deputada federal na chapa também é explorada como uma resposta à crítica dos aliados de Covas de que o líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) carece de experiência em gestão. Ele nunca ocupou um cargo público.

Segundo auxiliares, o psolista deve manter o tom duro contra Doria, mas sem deixar de falar de suas propostas. Eles admitem, contudo, que ele poderá deixar de lado a moderação para responder à altura eventuais ofensivas do prefeito, como a tentativa de vinculá-lo aos regimes de Cuba e da Venezuela.

A campanha de Boulos pretende ainda questionar Covas a respeito de sua gestão na cidade e, nessa seara, afirma que há assuntos ainda não trazidos à tona e que merecem ser explorados.

Na campanha do atual prefeito, a orientação tem sido sempre de continuidade. A ordem é exaltar o programa de governo e suas ideias para a cidade. Críticas, a princípio, devem aparecer na mesma intensidade vista nos embates televisivos anteriores, mirando as propostas e a trajetória do oponente.

Não se descarta, contudo, uma reação mais enérgica caso o adversário insista na depreciação a Nunes e na associação de Covas a Doria. Estrategistas do tucano afirmam que um debate que termine em zero a zero o beneficia.

Nos últimos dias, conforme mostrou a Folha, o desempenho de Boulos fez acender um alerta no comitê da reeleição, que discutiu o peso que um alto índice de abstenções no domingo possa ter para o candidato à reeleição.

As acusações contra Nunes, que trazem um desgaste para o cabeça de chapa, também passaram a ser combatidas com mais vigor, inclusive nas redes sociais, território onde o rival da esquerda detém vantagem.

Também foram discutidas nas reuniões dos últimos dias, nos dois lados, armas que poderão ser apresentadas no debate desta noite. Detalhes, por óbvio, são mantidos em sigilo. A tática de surpreender com algum elemento novo, além de desestabilizar o rival, pode ter impacto às vésperas da votação.

Marcada pela pandemia, que impôs limitações a atos de rua (embora aglomerações tenham ocorrido), a campanha municipal de 2020 trouxe ainda um elemento inédito: o segundo turno relâmpago, fruto da alteração no calendário eleitoral, que também postergou o pleito de outubro para novembro.

O intervalo de duas semanas, em vez das três ou até quatro semanas de outras disputas, foi elemento central nas análises das campanhas de PSDB e PSOL.

Entre apoiadores do psolista, a avaliação é a de que a chamada "onda" em torno do candidato ganhe propulsão em virtude do prazo limitado e o leve à vitória.

A equipe de Boulos concorda, porém, que faltou tempo para que ele se tornasse mais conhecido e que a campanha mais curta acaba beneficiando quem já está na frente e teve maior exposição, caso de Covas.

Na opinião da campanha do PSOL, o debate da Globo, realizado poucas horas antes da ida às urnas, teria potencial tanto para consolidar tendências quanto para modificar o rumo da disputa, considerando que o ambiente volátil tem jogado definições de voto para os momentos finais.

Já os apoiadores de Covas consideram difícil que o encontro desta noite seja suficiente para que Boulos supere uma vantagem de oito pontos na reta final da eleição.

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