Descrição de chapéu Eleições 2020

Boulos diz em sabatina Folha/UOL que cidade desigual é ruim para todos e que atrito com a Câmara é superdimensionado

Candidato do PSOL fez críticas a Covas e defendeu sua aproximação com empresários, revelada pela Folha

São Paulo

O candidato Guilherme Boulos (PSOL) reiterou o chavão de "inversão de prioridades" de sua campanha a prefeito e disse que a desigualdade social em São Paulo prejudica não só os mais pobres, mas também a elite, ao participar de sabatina realizada por Folha e UOL, na manhã desta quinta-feira (26).

Ele afirmou que um eventual governo do PSOL atuaria para reduzir a distância entre classes, com um orçamento que priorize quem mais precisa, e minimizou obstáculos que sua gestão encontraria na Câmara Municipal para aprovar projetos sem ter maioria entre os vereadores.

"O combate à desigualdade numa cidade como a nossa é bom para todo o mundo. O abismo social vai tornando a cidade refém de insegurança, de conflagração", afirmou.

"A nossa inversão de prioridades parte de um entendimento de que nós temos que focar mais nas regiões abandonadas. Onde precisa mais de investimento público: na Cidade Tiradentes ou em Higienópolis?", indagou.

Boulos fez as declarações ao comentar os encontros, revelados pela Folha, que teve com empresários e representantes da iniciativa privada ao longo dos últimos três meses. Segundo ele, as conversas serviram para apresentar suas propostas.

"Desigualdade não interessa a ninguém. Queremos uma cidade com menos desigualdade e menos segregação. Tem pessoas que atuam no setor privado que concordam com esse modelo e por isso se aproximaram da nossa candidatura", disse.

Boulos negou haver contradição entre seu discurso de militante de esquerda e líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto), muitas vezes contrários ao capitalismo, e a aproximação com agentes do mercado.

"Essas conversas que eu tenho feito com empresários refletem a minha concepção de governo de que eu, como prefeito, vou governar para a cidade toda. Tenho a minha trajetória, as minhas prioridades, e acredito que combater a desigualdade é bom para a cidade como um todo", afirmou.

O candidato do PSOL buscou ainda se mostrar comprometido com a responsabilidade fiscal, quando confrontado com as críticas feitas a seu plano de governo pela dificuldade de executar todas as propostas em um ambiente de redução na arrecadação com a pandemia de Covid-19.

“Não defendo déficit. Me coloquei em defesa de ter essa responsabilidade na forma de lidar com o Orçamento público, mas sem ser irresponsável socialmente como esse governo tem sido", disse.

O candidato voltou a comentar o desafio que terá, se eleito, de conseguir aprovar suas propostas na Câmara, onde tem uma minoria de vereadores simpáticos a ele. O PSOL elegeu seis vereadores neste ano, entre as 55 posições do Legislativo. O PT, provável aliado, fez oito cadeiras.

Segundo Boulos, a Câmara não irá se opor a medidas como a criação de frentes de trabalho, a reabertura de hospitais ou a ampliação do horário de funcionamento de UBSs (unidades básicas de saúde).

O raciocínio dele é que a pressão popular sobre vereadores ajudará a aprovar medidas de grande interesse e que os parlamentares tendem a votar favoravelmente porque precisarão dos votos dos eleitores caso queiram se reeleger.

"Acho que às vezes se superdimensiona um eventual conflito das nossas propostas com o Legislativo de São Paulo", disse.

O candidato reiterou que, se eleito, governará com base no diálogo com a Câmara e rejeitou ser comparado ao presidente Jair Bolsonaro, que antes de ser eleito prometeu governar sem fazer barganhas com o Congresso, mas viu a estratégia fracassar e acabou se aliando ao centrão.

"É descabido qualquer tipo de comparação entre mim e o Bolsonaro. Ele xinga presidente da Câmara, quer prender ministro do Supremo, tem uma prática autoritária. Essa não é minha escola, não é minha tradição", afirmou.

Segundo ele, a negociação com os vereadores "tem que ser feita com base no plano de governo e nas propostas".

"Vou construir uma relação de diálogo que eu espero que seja produtiva, não apenas com a Câmara, mas com o modelo de participação social. Existem instrumentos, com a tecnologia de aplicativos, de participação digital. Para que o debate seja aberto e feito de forma transparente com a sociedade."

Boulos costuma recorrer ao exemplo da gestão de sua candidata a vice, a hoje deputada federal Luiza Erundina (PSOL), que governou a capital entre 1989 e 1992. Ele sustenta a narrativa de que ela conseguiu avançar em parte de suas propostas graças à pressão popular.

Na sabatina, o candidato foi confrontado sobre uma declaração de Erundina ao fim de seu mandato, recordada em reportagem da Folha nesta quarta-feira (25), na qual a então prefeita reconhecia falhas no modelo.

"Na relação com o Legislativo, imaginávamos que, mesmo sendo minoria, conseguiríamos alterar as decisões dos vereadores a partir da pressão popular, e isso não é tão garantido”, disse ela ao jornal O Estado de S. Paulo em 1992.

O candidato do PSOL disse que hoje há mecanismos de participação popular que não existiam na época do governo Erundina. "As redes sociais são expressão disso. Quantas vezes, ao longo dos últimos anos, governos tomaram medidas e recuaram horas depois, justamente por um sentimento da sociedade de pressão social?", exemplificou.

Boulos aproveitou o tema da relação com a Câmara para criticar o governo do atual prefeito e candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB).

"O que eu não topo é toma lá, dá cá. Não topo o modelo de governabilidade que o PSDB faz em São Paulo hoje. Vende a ideia de boa gestão, mas faz a mesma velha prática de entregar subprefeituras para vereadores", disse.

A Folha mostrou nesta quarta-feira (25) que a gestão do tucano reparte as 32 subprefeituras de São Paulo atualmente entre indicados de ao menos oito partidos que compõem a base do governo.

"E aí quem tenta romper com esse modelo é aventureiro, é inviável", disse Boulos, em resposta às críticas que sofre de oponentes.

O representante do PSOL também alfinetou Covas em relação a seus aliados, afirmando que o prefeito omite o apoio do governador João Doria (PSDB) e esconde a figura do vice, Ricardo Nunes (MDB), alvo de suspeitas no setor de creches e acusado de ameaça, no passado, pela esposa.

"Eu não escondo de ninguém minhas posições. Aliás, é uma diferença minha em relação ao meu adversário. A minha campanha é absolutamente transparente", disse o psolista.

Boulos também criticou Covas por manter amigos de balada na administração, como mostrou a Folha, e por receber apoios ligados a Bolsonaro, como o de Celso Russomanno (Republicanos). Afirmou ainda ser vítima de fake news, uso da máquina pública e discurso de ódio por parte da campanha adversária.

Por outro lado, afirmou que não contribui com as informações falsas que circulam sobre Nunes, de que teria agredido fisicamente sua esposa —houve registro de boletim de ocorrência por violência verbal. "Vocês não ouviram nada da minha boca ao longo dessa campanha que não fosse isso, em cima de suspeitas consistentes e de um boletim de ocorrência existente", disse.

Boulos se irritou diante de perguntas sobre discrepâncias entre suas falas e a sua proposta de governo. O candidato vem dizendo, por exemplo, que não vai aumentar impostos, mas o plano fala em elevar o IPTU de mansões (sem especificar o que é uma) e o ISS (Imposto sobre Serviços) de instituições financeiras.

Ele foi indagado se ignora o próprio programa ou se há um problema de redação. “Eu não vou ficar aqui discutindo jogos de expressão. Acho que ficou bem clara qual é a nossa proposta. Não haverá aumento de impostos salvo nesses dois casos que estão colocados”, disse.

Boulos foi questionado, então, sobre a metragem de uma mansão e respondeu que não entraria nessa discussão.

Outro ponto levantado foi a proposta de reverter gradualmente processos de privatização, terceirização e conveniamento. A questão é usada pela campanha de Covas para propagar a versão de que o candidato de esquerda irá romper contratos de creches, demitir funcionários e prejudicar os serviços.

O candidato do PSOL afirmou, porém, que não fará isso, apesar de defender a administração direta dos serviços públicos, e disse que irá revisar contratos que tenham suspeitas de desvios e corrupção. "Não significa, nem de longe, romper contatos, romper convênios e demitir pessoas", pontuou.

“Se o problema aqui é de redação de programa, numa cidade de 12 milhões de habitantes, se é isso que vamos ficar discutindo na sabatina, francamente”, completou, em tom de impaciência.

Em relação à pandemia do coronavírus, Boulos evitou responder se fechará comércios caso seja eleito. Ele afirmou que, pelos números atuais, essa hipótese não está colocada, mas disse que irá sempre consultar médicos e especialistas para orientações sobre flexibilizar ou não o funcionamento das atividades econômicas.

Boulos criticou medidas tomadas pelo atual prefeito e afirmou que irá fazer "a lição de casa que Covas não fez", de testagem em massa e isolamento focado nas pessoas contaminadas pelo vírus.

Questionou também o fato de Doria ter marcado a revisão do Plano São Paulo, que orienta as restrições e o isolamento na quarentena em todo o estado, para 30 de novembro, um dia após o segundo turno das eleições. "É estranho", disse.

O candidato do PSOL ainda falou contra a criminalização dos movimentos de moradia e defendeu o transporte público.

Também voltou a afirmar que seu programa de governo, que custa R$ 29 bilhões, terá receitas para se viabilizar. Os governos que mais investiram em São Paulo até agora, de Fernando Haddad (PT) e Gilberto Kassab (PSD), conseguiram aplicar apenas metade disso.

Após a sabatina, o UOL publicou texto dizendo que errou ao aplicar rigidamente o regulamento, que estipula exatos 45 minutos para cada candidato, e encerrar o evento sem permitir que Boulos completasse seu raciocínio.

Os organizadores entraram em contato com a campanha de Boulos para que o candidato pudesse enviar um vídeo no qual responderia à última pergunta e faria as considerações finais —interrompidas quando ele começava a falar. A campanha informou que avaliaria o caso.

"Errei ao não ter atentado para o cronômetro e feito a última pergunta quando já era tarde demais. Peço desculpas ao candidato", disse a jornalista Thais Oyama.

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