'Mídia é uma das principais histórias do jornalismo hoje', diz colunista do New York Times

Para Ben Smith, jornalistas superestimam o quarto poder e devem aprender a se contrapor a forças antidemocráticas

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Thiago Amparo
São Paulo

Colunista de mídia do jornal mais lido do mundo, o americano The New York Times, Ben Smith, 44, tem visão apurada dos desafios do jornalismo.

Sua própria trajetória expressa mudanças no setor. Por oito anos, Smith foi editor-chefe do BuzzFeed News, site que ajudou a fundar. No NYT, escreve toda semana sobre como a mídia se conecta a outros temas de relevância, como a política e a tecnologia.

Ben Smith, colunista do jornal americano The New York Times
Ben Smith, colunista do jornal americano The New York Times - Divulgação/BuzzFeed

Nesta entrevista, que integra a série Fuga para a Frente, em comemoração ao aniversário de 100 anos da Folha, Smith reflete sobre o futuro da mídia pós-Trump, a dependência de assinaturas e o quão americanizado é o jornalismo global.

Ele reconhece, de um lado, o poderio sem precedentes de veículos de imprensa, como o próprio NYT. De outro lado, atesta que, por vezes, jornalistas superestimam sua capacidade de se contrapor a forças que não têm compromisso com a verdade.

Com a suspensão de Trump de redes sociais, afirma Smith, podemos presenciar o início do fim de uma era.

Qual é a importância de colunistas de mídia? 

A mídia é uma ótima história, não apenas a indústria midiática em si, mas suas conexões com outros temas. Se você cobre política, tecnologia ou esportes, perceberá quanto poder a mídia tem em todos esses campos. Não se conta a história da política fingindo que a mídia é um mundo à parte ou a história do esporte sem perceber que boa parte do seu dinheiro vem de acordos com a mídia.

Você escreveu numa coluna que “jornalistas não são inimigos do povo, mas não são seus amigos”. O que quis dizer com isso?

Em primeiro lugar, diria que pessoas como você e eu, que crescemos em países democráticos, temos muito a aprender com pessoas que passaram suas carreiras enfrentando forças antidemocráticas, como as que estão em crescimento no Brasil e nos Estados Unidos agora.

No entanto, muitos liberais que se opuseram a Donald Trump passaram a ver a nós, jornalistas, como aliados nessa luta contra ele. Há um elemento de verdade nisso, porque Trump estava mentindo e estávamos tentando corrigi-lo. Mas isso também é um movimento político que tem seus próprios líderes, que têm suas próprias agendas, que nem sempre respeitam fatos. Acho importante para a mídia não fazer parte desse movimento.

Como avalia a crítica de viés da mídia em certas coberturas? E a escolha editorial de enquadrar certas falas como “mentira” ou “racismo”, por exemplo?

Essas são questões difíceis. Acho que a mídia americana por muito tempo teve esse padrão preguiçoso de dizer “alguém diz que o céu é azul, alguém diz que o céu não é azul, vamos apenas imprimir os dois lados.”

De certa forma, Trump forçou todos a reconhecer o fato de que ele estava mentindo e nos desafiando a ver se o chamávamos de mentiroso para, em seguida, usar o fato de que o chamávamos de mentiroso para dizer à sua base, “Veja, eles me odeiam, eles odeiam vocês”. De certa forma, foi uma armadilha.

Não é simples o uso dessas palavras mágicas, como “mentira” e “racista”. Durante o período de Trump, a mídia mudou para uma linguagem muito mais sangrenta sobre ele. Talvez isso tenha feito os jornalistas se sentirem melhores, tenha feito com que pessoas que já odiavam Trump se sentissem apoiadas por jornalistas, mas não tenho certeza de que isso tenha mudado a opinião de alguém. Às vezes, superestimamos nosso poder.

Você já recebeu telefonema do presidente francês Emmanuel Macron, reclamando de uma reportagem da mídia americana sobre racismo, terrorismo e religião na França. Em que sentido o jornalismo transnacional é importante hoje? 

A mídia americana é poderosa e influente em todo o mundo (o NYT, onde trabalho agora, certamente é), mas também é muito, muito americana e tende a procurar ângulos no resto do mundo que estejam ligados à história dos EUA.

Então, nós escrevemos muito sobre Bolsonaro, mas sempre no contexto de como ele é igual a Trump. A mídia americana tem dificuldade em reconhecer como as coisas são diferentes em outros lugares, como a política racial do Brasil é diferente da americana.

O que Macron estava reclamando era que a mídia dos EUA olha para a França através de lentes políticas americanas específicas, e eu acho que isso é um grande problema, em especial na medida em que a mídia dos EUA é, de certa forma, a mídia global.

Como você vê a estrutura da mídia americana e quais as principais diferenças em relação a lugares como o Brasil ou a Hungria?

As pessoas falam que a Folha é o NYT do Brasil. Mas a Folha tem muito menos assinantes. O NYT está com 7,5 milhões de assinantes. O que está acontecendo nos EUA é que as maiores e mais bem-sucedidas publicações e negócios estão crescendo. Tudo no meio se foi, e os grandes têm todo esse poder.

Escrevemos muito sobre Bolsonaro, mas sempre no contexto de como ele é igual a Trump. A mídia americana tem dificuldade em reconhecer como as coisas são diferentes em outros lugares

Ben Smith

Colunista do jornal The New York Times

A outra coisa é que, por muito tempo, a mídia americana se baseou em publicidade, o que significava que ela queria apenas a maior audiência possível. Então se produzia um jornal que não defendesse ninguém e que, portanto, todos pudessem ler. Agora, o NYT, o Washington Post estão ganhando dinheiro com assinantes e não precisam mais falar com todos.

Isso é bom para o jornalismo? Como você vê essa dependência de assinantes?

Não sei se é bom ou ruim para o jornalismo. Sempre houve tipos diferentes de jornalismo. Esse sempre foi um tipo de negócio muito complicado, com muitas pessoas diferentes fazendo muitos tipos diferentes de trabalho. Presumo que isso continuará mudando. Mas o NYT é como a Folha em outro sentido: há uma cultura interna que diz que somos sempre adversários. E acho que você verá o NYT ser muito duro ao cobrir Joe Biden, embora haja também uma força gravitacional dos assinantes.

Como foi sua transição do BuzzFeed para o NYT e como você vê a mídia para além dos grandes jornais?

Minha transição pessoal foi muito estranha, porque eu estava dirigindo uma Redação e, de repente, estava escrevendo apenas um artigo por semana para pessoas que nunca tinha visto. O crescimento desses novos veículos, como o BuzzFeed, mudou muito o jornalismo. Eles forçaram todos a reconhecer o fato de que a internet era a principal forma de todos receberem suas notícias, que esse é o seu principal produto.

O novo populismo de direita vive das redes sociais e criou uma onda de veículos de direita que não estão realmente fazendo jornalismo, mas propaganda. Eles estão tentando ajudar o líder a atacar seus oponentes

Ben Smith

Colunista do jornal The New York Times

Fiquei muito triste em ver como a pandemia acabou com a operação brasileira do BuzzFeed, porque senti que a equipe no Brasil fez um trabalho realmente incrível. E o Brasil precisa de mais competição nas notícias. É um setor muito centralizado. Ainda há muito espaço para novas formas de jornalismo e novos lugares para outras histórias.

Como vê o papel da mídia conservadora no contexto do aumento da política de direita em países como Brasil ou EUA?

O novo populismo de direita vive das redes sociais e criou uma onda de veículos de direita que não estão realmente fazendo jornalismo, mas propaganda. Eles estão tentando ajudar o líder a atacar seus oponentes e são um verdadeiro problema social para sociedades que estão tentando se apegar a fatos.

Nos EUA, a Fox News é algo diferente —é uma plataforma gigantesca, um dos canais de notícias a cabo mais assistidos do país há anos. Donald Trump é principalmente quem ele é por causa da Fox. É quase chato falar sobre isso, porque é tão óbvio, mas é realmente uma característica central da política americana.

É um problema para o jornalismo quando a mídia conservadora tem mais acesso a presidentes? 

Há um ditado no jornalismo americano que diz que “acesso é uma maldição”. Eu realmente acho que a maior parte do acesso é inútil. Ou vão dizer algo que você já sabia ou vão mentir para você, principalmente Trump e Bolsonaro. O acesso é valioso quando ocorre nos seus termos, quando querem falar com o seu público, e então você pode fazer perguntas difíceis. O único momento em que o acesso é valioso é quando você pode conversar com alguém poderoso, como um chefe de Estado, e desafiá-lo.

Como você vê a suspensão da conta de Trump no Twitter e, de forma mais geral, o papel dessas plataformas em relação à mídia?

É extraordinário. Se você tinha alguma dúvida sobre quanto poder essas plataformas tinham, não mais: banir Trump o silenciou. Ele se foi. Mas acho que a questão é quem toma essas decisões: são apenas os executivos da empresa? É um funcionário do governo?

Quando se fala sobre regulamentação, geralmente o que os governos europeus e outros estão dizendo não é que um funcionário do governo decidirá o que está certo, mas que a regulamentação forçará as empresas a ter processos claros.

Qual é o futuro da mídia americana pós-Trump? 

Muitas das tendências que Trump trouxe vão continuar a servir à raiva e à divisão na política e também à capacidade cada vez maior de pequenas organizações de notícias alcançarem diretamente as pessoas mais conectadas a elas.

Continuaremos a ver as mesmas tendências tanto em direção a mais divisão quanto a uma economia baseada na assinatura e na conexão direta com os consumidores. A questão é se a era da mídia social está chegando ao fim. A saída de Trump do Twitter é isso: parece o começo do fim de algo.


RAIO X

Ben Smith, 44

Colunista de mídia do jornal The New York Times desde 2020, por oito anos foi editor-chefe fundador do BuzzFeed News. Antes disso, trabalhou cobrindo política para Politico, The New York Daily News, The New York Observer e The New York Sun.

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