Cecília Meireles refletiu sobre carros e aparências em crônicas publicadas na Folha em 1964

Seção Colunas Eternas revive textos de colunistas que fizeram parte da história centenária do jornal

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São Paulo

Como parte das celebrações do centenário da Folha, o jornal lança a série Colunas Eternas, na qual recupera textos de colunistas importantes da história do jornal.

Nesta estreia, publicamos duas crônicas de Cecília Meireles (1901-1964), que colaborou com as Folhas ao longo das décadas de 1940 e 1950 e teve coluna fixa no jornal de 1963 até sua morte.

mulher branca sorri enquanto sobe escada para embarcar em um avião
A poeta brasileira Cecília Meireles ao embarcar com destino aos Estados Unidos para uma conferência sobre "o papel do artista nas Américas" - Folhapress

Um mês após a morte da autora, o crítico literário Alceu Amoroso Lima (cujo pseudônimo era Tristão de Athayde) publicou na Folha que Cecília Meireles é "a maior figura feminina da poesia continental" e que inaugurou "uma era nova da vida cultural" brasileira.

Mesclando jornalismo e literatura, a coluna dela traz textos líricos e opiniões contundentes, marcas também vistas em "Crônicas de Educação", livro que reúne textos nos quais Cecília defende o ensino laico e contesta o "sr. ditador" Getúlio Vargas.

É mergulhando nos detalhes cotidianos que as crônicas nos revelam verdades sobre a condição humana. Os dois textos aqui republicados, "A respeito de automóveis" (18 de junho de 1964) e "Ainda sobre automóveis" (20 de junho de 1964), exemplificam bem esse espírito da cronista.

No primeiro texto, o deslumbramento de um amigo por seu carro novo torna-se fonte para reflexão sobre a superficialidade das aparências e a efemeridade das coisas. No segundo, a partir de conversas com seu instrutor de autoescola, Cecília encontra no trânsito a sabedoria sobre as condutas humanas.

A poeta morreu em 9 de novembro de 1964, pouco mais de quatro meses depois da publicação desses textos.

Leia as crônicas na íntegra.

A respeito de automóveis

Um amigo entusiasmado fala-me de um carro que já teve, do que tem atualmente e do que pretende ter: descreve-me perfis, cores, forração, enfeites; depois, passa ao capítulo da velocidade e é como se descrevesse não um automóvel, mas uma seta ou um pássaro. Acompanho a descrição, maravilhada com a sua alegria: quem vai chamar à realidade um amigo que está sonhando seu sonho belo e inofensivo?

Um dia talvez ele desperte sozinho e então verá que perfis, cores, forração, enfeites são graciosas ilusões e, quanto à velocidade, que adianta, nas cidades congestionadas, onde se tem de avançar metro a metro, pelas ruas; o que adianta, nas estradas, onde sempre o bendito guarda rodoviário apita, quando se aproxima um carro a mais de 80 quilômetros por hora?

Acompanho a descrição, maravilhada; mas é assim como se meu amigo me dissesse que, cinco anos atrás, estava casado com uma linda moça loura, agora trocou-a (sem motivos especiais) por uma ruiva que lhe parece mais atraente, mas principia a interessar-se por uma jovem morena cujas especificações exteriores se pusesse a enumerar. Tudo isso me parece superficial, vago, inconsequente: automóveis e moças reduzidos a simples aparência e a alguma provisória qualidade, observada de um ponto de vista ao mesmo tempo ingênuo e utilitário. Deixo-o falar.

Deixo-o falar, mas não me deixo seduzir. Há tempos, tive a ocasião de celebrar o décimo aniversário do nosso carro, já me presto a celebrar o 11º e acho-o sempre lindo por fora e por dentro: limpo, lustroso, pronto a partir, pronto a parar, silencioso, macio, muito obediente e em tudo discreto: não é cor de laranja nem de fúcsia nem azul-petróleo nem escarlates, é apenas preto. Não tem todos esses ornamentos que exibem certos carros: broches oblíquos, autógrafos, condecorações, nada disso. E jamais suas vidraças admitiram bandeirolas, flâmulas, figurinhas turísticas e muito menos propagandas políticas com fotografias de candidatos e respectivos lemas. Este é um carro bem comportado, não-violento, apolítico, digno da divisa "talent de bien faire", que se poderia, no caso, traduzir como "minha função é bem servir".

Ao divagar sobre esse automóvel —que não vendemos nem damos nem emprestamos— até me pergunto se as criaturas humanas não deveriam, em muitos casos, copiar-lhes as virtudes e seguir-lhe o exemplo. Mas baralham-se-me as ideias: estou, no elogio de um automóvel, tomando por modelo a dignidade humana, ou propondo aos homens aceitarem para a sua vida o modelo deste automóvel? Os caminhos do pensamento têm muitas esquinas obscuras...

Ora, inicialmente, eu pretendia tratar apenas da amizade que pode ligar os homens aos objetos, como frequentemente os liga a pessoa e animais.

E ao referir-me a este automóvel que, em plena maturidade, encontra por toda parte quem se enamore de suas qualidade e logo apresente propostas de compra (quase digo casamento), lembro-me de outro carro, existente em São Paulo, que em breve completará 30 anos e cujo proprietário ao ler a minha crônica sobre esse automóvel que me pertence em parte (ou a que pertenço), fez-me a descrição amorosa do seu, que, nessa vida relativamente longa, só mudou os pneus e continua a dar-lhe constante alegria, com a precisão honesta do seu serviço.

Ocorre-me que as relações entre empregados e patrões deviam ser assim: de um lado, o cumprimento exato dos deveres profissionais; do outro, a estima, a compreensão, a valorização, o respeito dessas qualidades funcionais.

Mas principio a notar que nesta crônica se vão insinuando sugestões, conselhos, opiniões sobre o bom convívio na Terra. Isto é, contra a minha vontade, pois dar um conselho é quase sempre perder um amigo. Fica o dito pelo não dito, apenas a declaração de que o superficial, o provisório, o supérfluo, o aparente não me apaixonam. Eu sou pelo essencial.

Ainda sobre automóveis

Há muito tempo, quando eu me preparava para tirar a carteira de motorista, o instrutor que me exercitava, incompreensivelmente, num jipe de alavancas duríssimas, fazia-me constantes recomendações, que revelavam as suas tendências filosóficas.

Assim, como eu lhe perguntasse, um dia, por que me exercitava naquele veículo obsoleto que eu jamais pretendia dirigir, respondeu-me que aquilo me obrigava a compreender melhor o mecanismo do carro e, depois daquelas duras provas, eu sentiria macias como cetim todas as outras alavancas: era preciso padecer com aquela cruel disciplina, mas as compensações logo se fariam evidentes —o que fez com que eu passasse a sentir aquele adestramento mecânico como uma nova espécie de exercício espiritual. E conformei-me.

Quando eu encontrava um desses passantes que possuem a vocação particular de se colocarem na frente de um carro quando o seu motorista se encontra em situação difícil, ele me aconselhava a não buzinar porque o passante, estonteado com a buzina, poderia colocar-me obsequiosamente sob as rodas do veículo, o que me deixaria mais perplexa não só pelo seu ato, mas principalmente pelas suas imediatas consequências.

Conversa vai, conversa vem, advertiu-me o filosófico instrutor sobre o uso moderado da buzina, a qual, segundo ele, não servia para quase nada; era uma espécie de descarga nervosa do motorista em apuros ou uma forma de exibição vaidosa, principalmente essas (que ele abominava) com várias vozes, que pretendem formar uma melodia e servem apenas para produzir uma irritação auditiva (o instrutor, além de filosófico, era musical).

Como eu lhe falasse a respeito de marcas de automóveis, deu-me uma série de conselhos, que até pensei em compendiar, mas o tempo passou e muitas de suas palavras se perderam.

Não me esqueci, porém, das suas principais observações. Disse-me que eu não devia comprar um carro muito grande, o que só me daria atrapalhações para arranjar local de estacionamento e teria um ar insolente, que ele considerava em desacordo com a minha pessoa. Aconselhava-me, pois, um carro de bom tamanho, sóbrio, sem nenhum exagero de cor ou feitio.

Depois, advertiu-me sobre as boas maneiras, de que a maioria dos motoristas se esquece. Há uma ética na direção de veículo que —dizia-me ele— se confunde com a própria conduta humana.

Nas estradas, a sinalização constitui um aviso permanente contra o abuso da liberdade a que, às vezes, nos vemos tentados, quando na nossa frente se estendem caminhos abertos, que parecem de nosso uso exclusivo. Nas cidades, precisamos estar constantemente atentos a passantes e veículos, numa vigilância múltipla, situando-nos sempre no ponto conveniente entre os perigos que nos cercam pelos quatro lados —sem falar nos abismos que se abrem sob as nossas rodas e nos potes de flores e nos tijolos que podem cair por cima de nós (era quase um estrategista, esse instrutor).

Chamava-me atenção para os carros que íamos encontrando: conhecia-se o bom motorista pelo estado de conservação de seu veículo, pela segurança de sua direção, pelo seu comportamento: não querer ser obstinadamente o primeiro, não forçar os colegas que vão em determinada marcha, não andar em velocidade proibida, não andar em linha sinuosa, não deixar de diminuir a marcha nas curvas, não avançar os sinais, respeitar as vias preferenciais, observando o aviso das esquinas...

Um dia, fez-me esta comparação memorável: "Dirigir um automóvel é como dirigir um país: não é preciso correr, nem buzinar, nem querer fazer coisas impossíveis. Os motoristas têm os seus regulamentos, como os países têm as suas leis. Se todos respeitarem os regulamentos, não há colisões, atropelamentos, desastres. Mas, em geral, as pessoas aprendem a pôr o carro em movimento, metem o pé no acelerador, saem por aí como loucas e vão parar na delegacia ou no necrotério. É como no governo".

E como eu me queixasse dos calos que já tinha na mão, de lidar com aquele jipe duríssimo, consolou-me dizendo que não era esforço perdido, que para bem viver é preciso bem sofrer.

E eu pensei comigo que era um sábio, aquele modesto instrutor.

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