Atrações secundárias do Lollapalooza animam mais que os headliners

Apesar da devoção a Kendrick Lamar, coadjuvantes fazem mais sucesso com o público

Lucas Brêda
São Paulo

O fim de semana foi dos coadjuvantes no Lollapalooza 2019. Em vez dos headliners, nomes de maior destaque na escalação, foram os artistas de horários e palcos secundários que conseguiram provocar os momentos de maior comoção no autódromo de Interlagos.

Principal atração do festival, exímio rimador e vencedor do Pulitzer, Kendrick Lamar foi recebido no domingo (7) com devoção, embora sem a empolgação vista em apresentações como a do Twenty One Pilots, que tocou antes. 

No encerramento do festival, Lamar não fez o show universal que alguns poderiam esperar, mas mostrou que possui os hits e a presença de palco dos grandes. Em retribuição, viu o púbico brasileiro cantar os versos de “Humble.” sem acompanhamento.

Como esperado, o rapper foi o mais bem-sucedido cabeça de chave do Lolla. Na sexta (5), Sam Smith rivalizou com os headliners Arctic Monkeys e, no sábado, Post Malone roubou de um inexpressivo Kings of Leon o protagonismo. 

Tribalistas e Lenny Kravitz fizeram shows entusiasmados, reunindo gente de todas as idades curtindo à beça. 

Depois de amargar uma interrupção de duas horas por ameaça de raios durante a tarde, no fim da noite de sábado (6) o público foi embora no meio do show do Kings of Leon, que acabou com poucos aplausos e cerca de 20 minutos antes do previsto. 

Na tarde anterior, o cantor e ex-youtuber Troye Sivan, 23, celebrou o orgulho LGBTQ e trocou juras de amor com uma plateia ensandecida.

O espaço eletrônico também seguiu forte e pareceu estar ainda mais isolado das outras atrações. Geograficamente longe dos palcos e calcada no EDM dançante, a pista reúne um público fiel, que vai quase exclusivamente para ouvir as batidas processadas.

Em sua oitava edição brasileira, o Lollapalooza teve público de 246 mil pessoas —54 mil a menos que em 2018, quando os 300 mil ingressos dos três dias se esgotaram, segundo a organização.

A queda de público não teve a ver com a tempestade. O segundo dia foi justamente o mais cheio, com 92 mil presentes, ante 78 mil na sexta e 76 mil no domingo. A julgar pela série de reclamações de fãs de música na internet, o que pesou foi o preço do ingresso (R$ 800 por dia para quem não é mais estudante).

O mau tempo chegou a gerar transtornos, com bombeiros e seguranças realocando as plateias para longe de palcos e estruturas metálicas. Houve relatos de pedidos de evacuação voluntária aos participantes, que puderam voltar quando o perigo passou.

Além de encher de lama o autódromo de Interlagos, a chuva causou o cancelamento do show de Silva, e artistas como Rashid e Snow Patrol tiveram suas apresentações encurtadas.

Se o sistema de compra de bebidas e alimentos pela pulseira já havia funcionado em 2018, agora, com menos gente no autódromo, foi ainda mais eficiente. As filas até apareceram, mas não chegaram a gerar confusão como outrora.

A distância entre os palcos, outro problema recorrente, pareceu aliviada depois da aproximação dos dois palcos secundários, Onix e Adidas, realizada no ano passado.

Algumas apostas do Lolla para 2019 foram certeiras. O astro do trap americano Post Malone, no palco Onix, teve uma plateia abarrotada e participativa. Mas ele ganhou mesmo os brasileiros quando chamou ao palco o funkeiro Kevin O Chris, voz conhecida de músicas sobre o agora extinto Baile da Gaiola, no Rio de Janeiro.

Comoção semelhante ocorreu com o MC Bin Laden, com “Tá Tranquilo, Tá Favorável”, no show do Jack Ü (dos super produtores Skrillex e Diplo), em 2016. Dois anos depois, o Tropkillaz gerou rebuliço com MC Zaac (parceiro de Anitta em “Vai Malandra”), o coletivo carioca Heavy Baile e um set recheados de funks.

Com MC Kevinho, gigante do funk paulista, no lineup do Lollapalooza Chile deste ano, ficou ainda mais evidente a ausência do gênero brasileiro na escalação nacional, que acabou se impondo não como penetra, mas como convidado de honra.

Em muitos shows, surgiram coros com xingamentos ao presidente Jair Bolsonaro —uns mais tímidos, outros mais sonoros.

Na sexta, em uma das primeiras apresentações do festival, a banda brasiliense Scalene exibiu imagens de políticos como Bolsonaro e Aécio Neves no telão enquanto tocava “Distopia”. No sábado, a pernambucana Duda Beat deixou o palco com as mensagens “1964 foi golpe sim” e “liberdade para Rennan da Penha”, fazendo referência ao DJ do Baile da Gaiola, acusado de associação para o tráfico.

O domingo também foi inflamado, com a carioca Letrux citando a prisão do ex-presidente Lula, que completou um ano, e pedindo sua liberdade, além de falar sobre transfobia, puxar um “fora, Bolsonaro” e levantar uma placa de rua em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018. Na sequência, Iza espalhou pelo autódromo o discurso de Martin Luther King Jr., “I Have a Dream”.

Colaborou Laura Lewer

Os melhores shows

Iza
A Beyoncé brasileira fez show digno de palco principal com vozeirão, sequência de hits e público numeroso e engajado

Kendrick Lamar
Não foi o mais cheio, mas certamente foi o mais pulsante dos headliners. Sobraram hits e rimas em um show impulsionado pelo ineditismo

Lenny Kravitz
Foi perfeito na escolha das 12 músicas, pinçou exatamente o que já fez de melhor e de mais popular

Post Malone
Espontâneo e sem estripulias, entreteve uma multidão com o trap melódico pelo qual é conhecido; ainda proporcionou momento apoteótico ao chamar o funkeiro Kevin O Chris ao palco

St. Vincent
Os solos de guitarra, a mistura moderna de guitarra e batidas eletrônicas e a presença hipnótica da americana mantiveram o público atento

The Struts
Foi um caso de amor à primeira vista entre público e banda, em grande parte graças ao carisma do vocalista Luke Spiller

Tribalistas
Com devoção emocionante da plateia, o trio não cantou um verso sequer sem o coro forte do público

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