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Vladimir Safatle

Livro mostra força política da poesia de Mallarmé

Pesquisadora brasileira examina como o autor francês criou obra em que o poema reflete sobre si mesmo e questiona a realidade

Vladimir Safatle

Professor titular do Departamento de Filosofia da USP

[RESUMO] Livro examina como o francês Mallarmé, a partir de uma crise pessoal e artística, elaborou obra poética em que a linguagem passa a refletir sobre si mesma, reflexo de uma luta por autonomia estética que aliava também um forte teor político de questionamento da realidade, combinação que seria central na literatura moderna.

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“Nada surge do nada.” Esse princípio, tão solidamente instaurado em nosso horizonte metafísico, nos acompanha ao menos desde Parmênides e Lucrécio. Ele parece ser um dos eixos a estabilizar certa visão de mundo para a qual noções como permanência, substância, distinção estrita entre ser e não ser são fundamentos para a ação e o julgamento.

Ver no nada a figura da impotência e da não produção seria, na verdade, uma das condições maiores para continuarmos a reconhecer “nosso mundo” ou, ao menos, o mundo tal como ele nos teria sido legado. Pois, em nosso mundo, nada surgiria do nada. Ideia essa que seria uma espécie de armadura metafísica a sustentar realidades que teimam em não morrer.

O poeta Stéphane Mallarmé, em pintura de Manet - Reprodução

Até porque assumir ser possível criar do nada significaria retirar a garantia da origem, do originário na base de tudo o que é, retirar a garantia de alguma forma de ancoragem de nossa linguagem na solidez do real ou na irredutibilidade da necessidade. Significaria permitir a emergência do nunca visto e sentido, dar realidade à experiência do novo.

Um dos maiores méritos de “A Linguagem se Refletindo: Introdução à Poética de Mallarmé”, de Larissa Drigo Agostinho, está na sua maneira de descrever a emergência de um dos gestos instauradores da poesia moderna a partir do seu abalo produzido em fundamentos metafísicos dessa natureza.
Gesto capaz de “deixar a linguagem manifestar sua própria natureza, desvelando o Nada que a constitui”. Nada que não é, em absoluto, figura do niilismo, mas estratégia de ruptura e abertura à outra forma de atividade.

Antes de entendermos o que isso pode significar concretamente no caso de Mallarmé (1842-1898), há de se insistir em uma questão de método. Pois tudo se passa como se fosse o caso de colocar em operação uma forma de crítica literária para qual a instauração da poesia moderna “faz mais do que flertar com a filosofia, ela é capaz de colocar para o pensamento uma questão de natureza filosófica”.

Que seja o francês Stéphane Mallarmé (1842-1898) o nome desse gesto e o objeto desse regime de crítica, eis algo que não deveria nos surpreender. O poeta visto pelo século 20 como o ponto zero do modernismo conseguiu levar gerações de filósofos a se debruçarem sobre a sua obra. Sartre, Derrida, Deleuze, Foucault, Rancière, Badiou são apenas alguns dos nomes que marcam a perenidade de tal recepção.

Por mais distintas que tais recepções sejam entre si, todas elas são impulsionadas pela compreensão de que, com Mallarmé, o poema moderno se explicita como movimento unificado de produção e reflexão. Ele é decisão a partir da reflexão sobre a sua própria forma e sobre as potencialidades da linguagem. Ou seja, a sua matéria é indissociável da abertura de um campo no qual a linguagem pode se refletir, tomar a si mesma como seu próprio objeto.

O pintor Auguste Renoir (sentado) e o poeta Stéphane Mallarmé, em foto de 16 de dezembro de 1895 - Divulgação

Nesse sentido, o livro de Drigo Agostinho tem a astúcia de mostrar Mallarmé como teórico e poeta, deixando evidente a profunda imbricação entre ambos. Ela parte de um conjunto de notas esparsas de Mallarmé, que deveriam servir para um projeto de tese de doutorado e foram posteriormente coligidas com o título “Notas sobre a Linguagem”, para mostrar como encontramos lá uma teoria elaborada da linguagem que servirá de base à produção poética do francês. Tais notas encontram-se traduzidas em anexo no livro.

A destruição foi minha Beatriz

O eixo de tal reflexão teórica de Mallarmé não poderia ser outro que uma crise pessoal vivida entre 1866 e 1869, chamada crise de Tournon ou crise do Nada. No entanto, uma crise nunca vem sozinha. A impossibilidade de escrever sentida por Mallarmé durante esses anos era também a expressão de uma literatura em crise, literatura à procura de seu lugar em um mundo em convulsão.

A linguagem se refletindo mostra com maestria a imbricação entre essas duas crises, o que nos permite não apenas compreender de outra maneira a produção de Mallarmé, mas principalmente o sentido da noção de autonomia estética no campo literário, tão fortemente associada ao seu nome.

O livro lembra como Mallarmé aparece em um momento no qual a literatura francesa expunha sua crise ligada ao esgotamento do romantismo e suas imagens de reconciliação e lirismo. Será a ironia e o sarcasmo de Baudelaire que fará dessa crise fato enunciado e corrido, que levará o leitor a desconfiar de um “imaginário literário falso”.

Nesse ponto, mostra-se um dos maiores méritos de “A Linguagem se Refletindo” —a saber, a explicitação da natureza política do que se abre com Baudelaire, pois Drigo Agostinho nos lembra como a literatura era, no século 19, setor maior de um projeto político, isso não apenas porque a França verá poetas como Victor Hugo e Lamartine subirem diretamente à cena política como senadores ou candidatos à Presidência.

Na verdade, a literatura aparece como desdobramento dos anseios de construção de uma nação, de instauração moral do povo, da preservação de sua religiosidade, repetindo assim o desejo platônico de submeter a arte à moral e aos ditames de consolidação da República. A autora lembra então como é só nesse contexto que podemos entender o que foi essa exigência de “l’art pour l’art”, de arte autônoma que animou gerações de poetas franceses.

Longe de uma evasão para fora da vida social, vinda do fracasso em uma “revolução estética”, como afirma alguém como Bourdieu, a luta contra a “utilidade” da arte era forma de recusar a submetê-la à moral, à “universal reportagem” da redução da literatura a folhetim da indústria cultural emergente.
Dar à linguagem sua autonomia era forma de “explodir um edifício que mantinha um falso império de pé, uma república falsamente democrática, uma república representativa”.

Nesse ponto, o livro anda na contramão daqueles que vêm, na autonomia estética, apenas uma estratégia autorreferencial e “formalista”. Ele recupera um Mallarmé profundamente político e consciente da força de uma poesia “na qual o burguês não se reconheça, não se admire, não se lamente de sua própria condição”. Poesia que leva sujeitos a se desacostumarem da gramática que sustenta os modos de reprodução material do presente.

É nesse contexto que a crise pessoal de Mallarmé ganha seu sentido objetivo. Como o próprio poeta dirá, em carta: “Escavando o verso a esse ponto, encontrei dois abismos que me desesperam. Um é o Nada”. Esse nada se mostrará como o desvelamento de um abismo no fundamento da linguagem, como a arbitrariedade de seus signos.

Nas mãos de Mallarmé, essa será a condição para criar uma máquina de decomposição dos mitos que habitam a linguagem, da crença na representação, das gramáticas de afetos que procuram preservar o eu lírico e suas ficções.

Pois agora se trata da poesia: “Ceder a iniciativa às palavras”, refletindo assim a produtividade da linguagem em sua nudez. É nessa nudez que Mallarmé poderá encontrar um conceito crítico de beleza, que nada mais tem a ver com a harmonia da forma, a simetria, a proporção, a submissão da experiência ao verso.

Assim, dirá a autora: “A linguagem possui essa capacidade de tornar-se Bela, esse movimento se realiza em cada poema, quando o Verbo, através da fala e da escrita, dissolve todo conteúdo dado, todo sentido preestabelecido, transforma toda representação na apresentação da ficção, desvelando o Nada que a constitui”.

Porém, essa beleza da negatividade é a manifestação criadora de um nada ativo, pois é abertura a um princípio de produção agora costurado pelas mãos do acaso.

A afirmação do acaso

Seria próprio da especificidade de Mallarmé saber que as feridas do Nada são curadas sem deixar cicatrizes, pois elas revelam como a linguagem produz a partir do acaso.

Livrando-se das ilusões representacionais, a linguagem mostra sua natureza de espaço de encontros, de abertura de espaçamentos, de contingências e devires, de ressonâncias entre significantes que podem habitar uma folha de papel. As páginas finais do livro, dedicadas à interpretação de “Um Lance de Dados”, nos mostram concretamente como isso pode operar.

Se Zola falava, sobre a poesia de Mallarmé, que “toda a loucura da forma eclodiu” é porque, como em toda “loucura”, aquilo que é expulso do simbólico retorna ao real. O processo efetivo de produção da linguagem, aquilo que deve ser recalcado para termos a ilusão de sermos mestres da linguagem, senhor de seu controle, deve aparecer no interior do poema, na reflexão que o poema faz de si mesmo.

Nasce assim uma outra autonomia, que não está ligada à transparência de si a si, mas à certeza de que, como dirá Mallarmé, “deve haver algo de oculto no fundo de todos”. “Creio decididamente em alguma coisa de absconso, significante, fechado e escondido que habita o comum.”

O poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898)
O poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898) - Reprodução

Eis uma frase que embute um inesperado realismo, que nada tem a ver com descrições da realidade socialmente partilhada, pois essa sombra não é da poesia, ela é do comum.

Não é possível mostrar as coisas como se elas fossem tiradas de um “tinteiro sem noite”, porque a língua “ganha em significação quando se desvia da lógica e das regras gramaticais”. Pois a língua, em sua verdade, é o espaço de choques, de centros de suspense vibratórios que levam a poesia a “estender uma nuvem de indeterminação sobre o escrito”.

Coube a posteridade medir a força política dessas ideias, que colocam em questão o que pode ser o comum, a decisão, o controle, o abandono. “Os governos mudaram; sempre a prosódia continuou intacta”, dirá Mallarmé.

Talvez esse tenha sido o problema. Quando a prosódia muda, não há governo que permaneça, pois o próprio sentido do que pode ser “governo” não fica mais de pé. Quem duvida, que leia “A Linguagem se Refletindo”.

A Linguagem se Refletindo: Introdução à Poética de Mallarmé
Autora: Larissa Drigo Agostinho. Editora: Annablume. R$ 60 (278 págs.)

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