Descrição de chapéu Coronavírus

Três ministros da Saúde e uma pandemia: o ano em que ficamos doentes

País encerra 2020 com mais de 190 mil mortes pela Covid-19, ainda sem plano integrado contra a doença e com histórico de embates gerados por Bolsonaro

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Brasília

Segunda-feira de Carnaval, 2020. Um paciente busca o hospital Albert Einstein com quadro de febre, tosse e dor de cabeça após chegar de uma viagem à Itália. Na TV, notícias mostram o país europeu às voltas com o novo coronavírus, e médicos decidem coletar amostras para testagem.

Era o primeiro caso da Covid-19 no Brasil.

O então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anuncia a confirmação ao lado do secretário de saúde paulista à época, José Germann.

Na prática, a rede de saúde já sabia havia semanas que o vírus chegaria ao país –isso se já não circulava por aqui. Só não imaginava quando detectaria o primeiro caso.

Equipe médica durante cirurgia de Broncotomia na UTI para tratamento da Covid-19 do Hospital Albert Einstein, na primeira quinzena de dezembro - Eduardo Anizelli/ Folhapress

Se repetir a China, com 50 mil casos em São Paulo, como em Wuhan, é perfeitamente administrável”, disse Mandetta à Folha no dia seguinte, questionado sobre o cenário dali para frente. “Agora, como é um vírus novo, se tem 100 mil casos, 200 mil, 500 mil, 1 milhão, aí temos uma epidemia franca”, emendou, dizendo, porém, não acreditar que isso iria ocorrer.

Poucos dias depois, o cenário mudava e era o próprio Mandetta quem apontava “20 semanas duras” e que não havia "nenhum sistema de saúde 100% preparado”. Na contramão, o presidente Jair Bolsonaro reclamava de “histeria” pela “gripezinha”.

A lembrança dos primeiros dias da epidemia no país expressa apenas uma parte de um ano (que mais pareceu uma década) em que embates políticos invadiram a saúde e levaram à troca de dois ministros, fizeram brasileiros irem às janelas em panelaços e deixaram problemas que vão desde o atraso em ações programadas até a tentativa de restringir o acesso a informações públicas.

Um ano marcado por mudanças na vida dos brasileiros, que perderam amigos e parentes ou tiveram a rotina alterada por uma epidemia que já soma 7,6 milhões de casos e mais de 193 mil mortos – e não dá sinais de acabar tão cedo.

“A gente sabe que o vírus não vai mais embora das nossas vidas. Não há algo que tenha se disseminado no mundo de maneira tão rápida e tão grande como a Covid”, diz a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo, uma das primeiras a integrar a linha de frente do combate à doença.

Do primeiro alerta à declaração de pandemia: o início da crise

Não que a rede de saúde tenha demorado a ter tido alertas.

Era 15 de janeiro quando o primeiro deles apareceu de forma discreta em boletim do Ministério da Saúde. Com o título “Evento de monitoramento internacional: China – Pneumonia de etiologia desconhecida”, o texto falava sobre uma síndrome respiratória que já deixava 47 pessoas hospitalizadas em Wuhan.

Até então, as informações eram limitadas para estimar o risco de surto, dizia o material. “Mas a necessidade de hospitalização e gravidade em alguns casos requer prudência.”

O ministério então decidiu ativar um comitê de emergência para monitorar a situação.

Inicialmente, a pasta enquadrava como suspeita de infecção a ocorrência de febre, tosse ou falta de ar, além de histórico de viagem a Wuhan.

Não demorou para incluir toda a China e outros países – até chegar a continentes inteiros.

Foi assim até a declaração da pandemia pela Organização Mundial de Saúde, quando o critério de viagens foi derrubado. No dia seguinte, o Ministério da Saúde também recomendou cancelar eventos de massa e estados passaram a orientar pessoas a ficarem em casa.

Bolsonaro então passou a dar recados aos governadores e ao ministro.

“Alguns foram mais simbólicos. Aquela saída em público dele, com o presidente da Anvisa, foi uma delas”, relembra Mandetta à Folha, sobre o dia em que Bolsonaro foi a uma manifestação na Esplanada em 15 de março.

Sem máscara, o presidente cumprimentou apoiadores, incluindo idosos. Para Mandetta, o ex-chefe adotava o discurso de Donald Trump. “Parece que combinaram como iam se portar.”

Enquanto os embates políticos cresciam, aumentava a preocupação dos médicos diante da nova doença.

Dalcolmo, da Fiocruz, lembra do aprendizado com os primeiros casos depois do Carnaval.

Inicialmente, "parecia uma pneumonia atípica”. “Mas rapidamente vimos uma doença sistêmica, com hipóxia silenciosa. O paciente chegava andando, falando, mas já com insuficiência respiratória grave.”

Lidar com esses casos exigia aumentar a estrutura da rede de saúde, e o ministério intensificou a corrida iniciada semanas antes por leitos extras, respiradores e equipamentos de proteção individual.

A concorrência internacional e disputas judiciais, no entanto, prejudicaram parte das compras.

Na tentativa de conter a transmissão e aliviar a rede, Mandetta, que no início ficou em cima do muro, passou a reforçar a defesa do isolamento.

Também levou ao ex-chefe projeções que apontavam o risco de até 180 mil mortes. “Mas ele não queria escutar nada. Ele se fechou como se um milagre fosse ocorrer a qualquer momento.”

Os embates continuaram até que Mandetta foi demitido, em 16 de abril. Naquele dia, o país já somava 30.449 casos e 1.933 mortes pelo novo coronavírus.

“Se eu não saísse, ia repetir tudo o que aconteceu com Mandetta”

Com a saída de Mandetta, a pasta passou a ser chefiada pelo oncologista Nelson Teich, cuja gestão foi marcada por críticas pela falta de um discurso claro em defesa do isolamento, pela promessa de ampliação de testes – de 22,9 milhões para 46 milhões – e pelo início de uma militarização da saúde, imposta pelo Planalto e iniciada com a entrada do general Eduardo Pazuello como secretário-executivo.

A troca de gestão ocorreu em meio a um período de mudança no patamar da epidemia no país. Em Manaus, hospitais já dispensavam pacientes por falta de vagas, e covas comuns começavam a ser abertas para enterrar os mortos. Em São Paulo, o hospital Emílio Ribas já registrava todos os leitos lotados.

Em outras cidades, a epidemia, iniciada pelas classes econômicas mais altas, começava agora a atingir também os mais pobres. “Aconteceu o que dissemos: a doença vai bater pesado e revelar a nossa obscena desigualdade social”, afirma Dalcolmo.

Foi no meio desse contexto que Teich passou a ser pressionado pelo presidente. Mesmo sem evidência científica, Bolsonaro queria ampliar a oferta de cloroquina, indicada originalmente para malária, também contra a Covid.

Não pode mudar o protocolo agora? Pode e vai mudar”, disse a jornalistas.

“Foi aí que percebi: não dá para ficar”, relata o ex-ministro à Folha. “Se não saísse, ia repetir tudo o que aconteceu com o Mandetta.”

Resposta à base de cloroquina e restrição a dados da doença

Teich saiu em 15 de maio, quando o país tinha 218.223 casos e 14.817 mortes pela Covid.

A partir dali, a Saúde ficou sem titular –ou, ao menos, um oficial. Na prática, Pazuello assumia a gestão com acenos a Bolsonaro, na contramão da ciência. O primeiro deles foi ampliar a oferta de cloroquina para casos leves.

Jair Bolsonaro, no período em que ficou em isolamento no Palácio da Alvorada após ser diagnosticado com covid-19 - Pedro Ladeira -17.jul.20/Folhapress
Interino, ele também aumentou o número de militares na pasta --ainda que muitos, como ele, não tivessem experiência em saúde. “Não sabia nem o que era o SUS”, admitiu em rara coletiva de imprensa.

Foram poucas. No cargo, Pazuello passou a evitar encontros com jornalistas, restrição que se acentuou com um "apagão" de dados em plena pandemia.

Era 5 de junho quando a pasta retirou de suas plataformas o total de casos e mortes pela Covid e informou que pretendia mudar critérios de contagem.

A situação levou veículos de imprensa a formarem um consórcio inédito para manter a divulgação dos dados. Pressionado, o ministério recuou. Mas era tarde.

Para especialistas, a medida enterrou a credibilidade da pasta, já abalada pela defesa de tratamentos sem eficácia. “É um apagamento da tragédia sanitária e da instituição que deveria ser responsável pelas respostas”, definiu na época a sanitarista Ligia Bahia.

Nos meses seguintes, a pasta passou a concentrar as ações em atender demandas dos estados e municípios por leitos e respiradores, ao mesmo tempo em que ainda derrapava nas promessas de testes contra a Covid.

Pazuello foi então confirmado no cargo em setembro, quando, já com 4.419.083 casos e 134.106 mortes pela Covid, a epidemia dava sinais de queda.

O novo aumento da Covid e a ‘ansiedade’ por vacinação

O cenário de "trégua", porém, durou pouco, e os casos voltaram a crescer em novembro.

Um mês antes, o ministro também entrou na mira do presidente. A situação ocorreu após Pazuello anunciar intenção de obter 46 milhões de doses da Coronavac, vacina desenvolvida pelo Butantan com a chinesa Sinovac.

Até então, a pasta já tinha um acordo para obter 140 milhões de doses da vacina de Oxford e com a OMS, mas sem data.

Não será comprada”, escreveu Bolsonaro em rede social menos de 24h depois. Era o início de uma nova guerra política --agora, em torno da vacinação.

Para Carlos Lula, presidente do Conass (conselho de secretários estaduais de saúde), os constantes embates prejudicaram a resposta à pandemia. “A Covid-19 poderia ter sido um motivo para unir o país, mas usamos para dividir ainda mais.”

Na tentativa de evitar desgastes, Pazuello acabou por silenciar inicialmente sobre o caso. “Um manda, outro obedece”, disse em vídeo ao lado de Bolsonaro.

Atualmente, a pasta já cita a Coronavac no plano de imunização, anunciado em meio a críticas de atraso e cobranças do STF, mas a compra —e o início da vacinação— seguem indefinidos.

Um cenário que preocupa especialistas, que veem na queda na adesão ao isolamento o risco de uma situação ainda mais grave que no início da pandemia.

“É como se a pandemia só existisse dentro do hospital”, afirma a infectologista Ho Yeh Li.

A Folha procurou Pazuello para comentar os planos da pasta, mas ele não se manifestou. Recentemente, o ministro admitiu que há “um repique” de casos, mas rebateu críticas sobre atrasos na vacinação, que ele prevê agora para fevereiro.

Para que essa angústia, essa ansiedade?”, questionou em evento ao lado do presidente. "Somos referência na América Latina."

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