Bruno Covas é o 1º prefeito de SP a morrer no mandato; conheça outras trajetórias abreviadas

Neto do governador Mario Covas não resistiu às complicações de um câncer descoberto em 2019

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Gonçalves (MG)

Bruno Covas, 41, ficará marcado nas páginas da história por ter sido o primeiro prefeito na era contemporânea da cidade de São Paulo a morrer durante o mandato.

O sucessor e vice, Ricardo Nunes (MDB), terá a missão de administrar a maior cidade da América Latina pelo menos até dezembro de 2024.

Covas morreu neste domingo (16) por complicações de um câncer. Detectados primeiro entre o esôfago e o estômago, os tumores se espalharam pelo fígado e ossos do prefeito, que permaneceu em tratamento contra a doença por um ano e sete meses. Ele estava licenciado do cargo.

Bruno Covas em foto de fevereiro de 2021 durante coletiva aos jornalistas sobre a pandemia
Bruno Covas em foto de fevereiro de 2021 durante coletiva aos jornalistas sobre a pandemia - Secom

Entre os prefeitos eleitos pela população, Bruno Covas foi o segundo mais jovem a assumir o comando da prefeitura paulistana. Só perdeu para Jânio Quadros, que, aos 36 anos, foi eleito para a função em 1953.

O cargo de prefeito foi criado na cidade de São Paulo em 1835, mas acabou dissolvido três anos depois por resistência da Câmara Municipal, órgão que naquela época também era responsável por administrar o município.

Após a Proclamação da República, em 1889, a capital paulista foi chefiada por um Conselho Municipal de Intendências, que era escolhido pelo governo estadual. Só em 1898, uma lei municipal recriou o cargo de prefeito, vigente de forma ininterrupta até os dias atuais.

Das 48 pessoas (46 homens e duas mulheres) que comandaram a metrópole de 1899 para cá, apenas Bruno Covas morreu em pleno mandato.

Houve prefeito que pediu para sair do cargo, como o economista Milton Improta (1910-1984), cujo governo durou 131 dias entre 1948 e 1949. Também houve mortes de gestores pouco tempo após o fim de seus mandatos.

Em 1965, Prestes Maia, o engenheiro que concebeu o ambicioso "Plano de Avenidas" e mudou a cara da cidade de São Paulo, morreu aos 69 anos apenas 19 dias depois do término de sua segunda passagem pela prefeitura. Seu sucessor, o militar José Vicente de Faria Lima, 59, também não resistiu a um infarto quatro meses após deixar o cargo, em 1969.

Desde 1997, quando a reeleição passou a ser permitida aos prefeitos, nenhum candidato foi eleito em duas eleições seguidas na cidade de São Paulo. O cargo vem servindo para catapultar seus postulantes a disputas por posições mais elevadas na administração pública.

Assim, os “reeleitos” desde então têm sido os vices que assumiram o cargo em decorrência da renúncia do titular e conseguiram a vitória no pleito seguinte. Foi o que aconteceu com Covas, que assumiu após o então prefeito João Doria decidir disputar o governo do estado, em 2018, e deixar a gestão municipal para o vice.

A morte de Covas também repete uma sina familiar. Vinte anos antes, era seu avô Mario Covas (1930-2001), então governador do estado de São Paulo e o maior incentivador de Bruno, que teve seu segundo mandato interrompido também por causa de um câncer.

Não à toa, uma das últimas publicações de Bruno em uma rede social rendeu homenagem ao avô, que ressurgiu sorrindo numa foto acompanhada das seguintes palavras: “20 anos sem meu avô Mario Covas. Minha maior inspiração. Sua liderança e sua força fazem falta ao país”.

O câncer que apareceu na bexiga e migrou para o intestino pôs fim aos 40 anos de vida pública de Mario, que naquela altura já tinha sido quase tudo —também já prefeito de São Paulo, havia sido deputado federal, senador e governador.

Já Bruno ainda perseguia uma marca própria, chance que teve ao longo dos últimos três anos à frente da prefeitura paulistana. Antes, já havia sido deputado estadual, federal e secretário do Meio Ambiente.

Bruno Covas Lopes deixou os pais, Pedro e Renata; o irmão Gustavo; o tio e ex-vereador Mario Covas Neto; e o futuro representante do clã, o filho Tomás, 15, que já disse querer seguir os passos do pai e do bisavô.

O destino trágico dos Covas não é único na história nacional, na qual não faltam biografias interrompidas por causa de doenças. Só entre os presidentes da República, há quatro.

Nascido em Santa Bárbara do Mato Dentro, atual Santa Bárbara (MG), Afonso Pena (1847-1909) rompeu a hegemonia dos paulistas na Presidência. Chegou ao poder em novembro de 1906 graças a um acordo das oligarquias de estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Promoveu a expansão da rede ferroviária, com o início da construção de várias estradas de ferro, como a Madeira-Mamoré, no atual estado de Rondônia. Também foi ele quem incumbiu o marechal Rondon de comandar a ampliação da rede telegráfica no Norte, o que implicava o mapeamento de parte da região amazônica.

Pena foi o primeiro presidente do Brasil a morrer no exercício do cargo, o que ocorreu em junho de 1909 devido a uma forte pneumonia. Coube ao vice, Nilo Peçanha, cumprir o restante do mandato.

Rodrigues Alves, o primeiro brasileiro eleito duas vezes presidente, conseguiu cumprir o primeiro mandato (1902-1906). Já na segunda etapa, faltou saúde. Eleito novamente em 15 de março de 1918, não pôde tomar posse em 15 de novembro e morreu em 16 de janeiro de 1919.

Alves teve a causa de sua morte, por muito tempo, atrelada à gripe espanhola, a pandemia do século 20 que dizimou milhões de vidas. Mas, segundo historiadores, o presidente morreu mesmo com sintomas de leucemia.

Na ditadura militar (1964-1985), o governo do general Arthur da Costa e Silva (1899-1969) foi marcado pelo início do endurecimento da repressão contra opositores do regime e pela fragilidade de sua saúde.

Foi em seu governo que o AI-5 (ato institucional nº5) foi promulgado, fechando o Congresso, cassando direitos políticos e acirrando a perseguição política. Costa e Silva sofria de hipertensão arterial. Foi vitimado por uma trombose cerebral em agosto de 1969, ainda na Presidência. Destituído do cargo por uma junta militar, morreu em 17 de dezembro.

No retorno da democracia, a agonia de um presidente parou o país. Tancredo Neves (1910-1985), eleito indiretamente em 15 de janeiro de 1985, foi levado ao Hospital de Base de Brasília na véspera da posse, para extrair um tumor benigno do intestino e não para tratar de uma diverticulite, fato tornado público em reportagens desta Folha.

Morreu em 21 de abril, vítima de uma infecção generalizada. Foi substituído pelo vice, José Sarney.

Mais recentemente, o coronavírus vem causando baixas de prefeitos pelo país. Maguito Vilela (MDB), 71, eleito em 2020 para governar a cidade de Goiânia (GO), tomou posse na UTI do hospital Albert Einstein, em São Paulo, mas não resistiu às complicações da Covid-19. Até agora, ao menos 36 prefeitos morreram em decorrência da Covid.

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