Modernismo fora de São Paulo é invenção, afirma Sergio Miceli

Professor da USP discute a trajetória de Drummond e o 'paulistocentrismo' que cerca a Semana de 1922

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Às vésperas do centenário da Semana de 1922, que tem motivado uma onda de novos títulos sobre o modernismo, o Ilustríssima Conversa recebe o professor titular da USP Sergio Miceli.

Um dos mais importantes pesquisadores no campo da sociologia da cultura do país, Miceli acaba de publicar "Lira Mensageira" (Todavia). O livro se debruça sobre a primeira geração de modernistas mineiros, cujo expoente literário foi Carlos Drummond de Andrade.

O autor afirma ser impossível entender a poesia de Drummond sem levar em conta as circunstâncias sociais em que o autor estava enredado. Ele era, segundo Miceli, o "primo pobre" dos colegas oligárquicos do grupo Estrela, como eles ficaram conhecidos por se reunirem no café com esse nome em Belo Horizonte —Drummond vinha de uma família em decadência econômica, não se formou em direito e não tinha laços com os figurões da política mineira.

Na conversa com o repórter Eduardo Sombini, o professor discutiu o papel de Gustavo Capanema no percurso de Drummond e na viabilização de sua carreira literária —Drummond foi chefe de gabinete de Capanema, ministro da Educação e da Saúde de Getúlio Vargas, de 1934 até o fim da ditadura do Estado Novo, em 1945.

Fotografia em preto e branco de homem careca com camisa escura
Sergio Miceli, professor titular da USP e autor de 'Lira Mensageira' - Renato Parada/Divulgação

Miceli também fez um balanço do que pensa sobre as críticas ao "paulistocentrismo" da Semana de Arte de 1922, ou seja, uma suposta exaltação desmedida da importância do festival paulista na cultura nacional.

Para ele, apesar da produção artística que havia em outros pedaços do Brasil na época, o modernismo floresceu em São Paulo em razão de condições que só existiam na cidade, como um mercado cultural mais desenvolvido e um mecenato mais robusto da elite.

Eu não estou discutindo se não surgiram obras interessantes no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, em Pernambuco, na Bahia ou em Minas. Claro que surgiram. Esse não é o ponto. O ponto é: o movimento de renovação estética, de política cultural e de renovação política da inserção dos intelectuais com o modernismo teve condições excepcionais em São Paulo

Sergio Miceli

professor titular da USP

O Ilustríssima Conversa está disponível nos principais aplicativos, como Apple Podcasts, Spotify e Stitcher. Ouvintes podem assinar gratuitamente o podcast nos aplicativos para receber notificações de novos episódios.

O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.

Já participaram do Ilustríssima Conversa Tatiana Roque, pesquisadora que discute as relações entre mudanças climáticas e política, Margareth Dalcolmo, que falou sobre a variante ômicron e a perspectiva de tratamento precoce real da Covid-19, Marcelo Semer, autor de livro sobre o Judiciário e a política no Brasil, Eliane Brum, que alertou sobre a necessidade de preservar a Amazônia no contexto atual de crise climática, Renan Quinalha, para quem a LGBTfobia de Bolsonaro atualiza moralismo da ditadura "hétero-militar", Simone Duarte, que defendeu que o 11 de Setembro nunca terminou no Afeganistão, Natalia Viana, que discutiu a politização das Forças Armadas, Camila Rocha, pesquisadora da nova direita brasileira, Antonio Sérgio Guimarães, que recuperou a história do antirracismo no Brasil, Eugênio Bucci, que defendeu que redes sociais extraem o olhar de seus usuários, Rafael Mafei, autor de livro sobre a história do impeachment no Brasil, Kauê Lopes dos Santos, que debateu a economia política de Gana, e Rosa Freire D’Aguiar, organizadora de coletânea de cartas de Celso Furtado, entre outros convidados.

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