Movimentos de renovação política preparam reação a partidos após caso Tabata

Acredito, que tem deputada entre fundadores, e outros grupos querem pressionar siglas por modernização

Joelmir Tavares
São Paulo

Sob ataque desde que partidos abriram processos para punir deputados desobedientes na reforma da Previdência, movimentos que pregam renovação política articulam uma ofensiva para defender sua atuação e forçar a modernização de legendas.

O estopim para a reação foram declarações de Ciro Gomes, o principal líder do PDT, que ao apoiar a saída da correligionária Tabata Amaral passou a dizer que ela faz dupla militância e pertence a um "partido clandestino", em alusão ao Acredito, organização que a jovem ajudou a fundar.

A deputada federal por São Paulo se tornou símbolo do imbróglio que eclodiu durante a votação da Previdência, quando ela e outros parlamentares descumpriram a orientação das siglas de rejeitar o projeto. O PDT registrou 8 defecções em uma bancada de 27.

Os deputados Tabata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES) em evento do RenovaBR em São Paulo, em maio
Os deputados Tabata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES) em evento do RenovaBR em São Paulo, em maio - Roberto Casimiro - 10.mai.2019/Fotoarena

Outro partido que protagoniza a crise é o PSB, onde 11 dos 32 deputados votaram a favor do texto, em dissonância com a determinação da legenda. Felipe Rigoni (ES), também participante do Acredito, foi um deles. O presidente da sigla, Carlos Siqueira, já se referiu aos infiéis como traidores.

Puxada pelo Acredito e pelo Transparência Partidária, a mobilização dos grupos independentes envolve também os movimentos Agora! (que tem entre os membros o apresentador Luciano Huck, quase presidenciável em 2018) e Livres (de defesa da causa liberal).

A coalizão, mais identificada com o centro do espectro político, sonda agora organizações com um pé na esquerda, caso da Bancada Ativista, do Muitas e do Quero Prévias. A ideia é formar uma frente ampla, com representação de diferentes campos. Pelo menos 15 grupos já foram procurados.

A prioridade será lançar um manifesto em defesa da reformulação dos partidos e da abertura deles a iniciativas da sociedade. Nas conversas, o apelo é para que as legendas deixem de ser "ilhas" e passem a olhar para o que ocorre fora do ambiente formal da política.

O conteúdo do texto foi discutido em reuniões ao longo dos últimos dias, mas a versão final só deve ser divulgada na volta do recesso parlamentar, em agosto.

Os movimentos defenderão que as legendas ampliem a democracia interna e aperfeiçoem mecanismos de participação de filiados, com busca de equidade de gêneros, por exemplo.

Também serão atacados pontos como a perpetuação nos postos de direção e a falta de critérios justos e transparentes para a distribuição de dinheiro de campanha, sobretudo dos fundos públicos de financiamento.

Os idealizadoras da carta têm a preocupação de que o documento seja visto como uma proposta direcionada aos partidos em geral, e não apenas aos que estão envolvidos na pendenga de agora.

O tom geral será o de que as siglas são importantes e necessárias, mas devem se adaptar às novas demandas da população e dos políticos —ou, no jargão dos movimentos, precisam "se reenergizar".

Para os grupos, os processos abertos por PDT e PSB que podem culminar com a expulsão dos deputados insurgentes colocaram à prova o quanto as agremiações estão dispostas a absorver inovações extramuros, caso das iniciativas pró-renovação que floresceram principalmente depois de 2016.

Para entusiastas da oxigenação, a impressão é que, para usar um termo corrente entre eles, as duas legendas não estão tão "porosas" quanto se imaginava.

Como a Folha mostrou, o Acredito considera preocupante que os partidos recuem logo no primeiro impasse, depois de terem aberto as portas para os nomes da nova safra. O grupo assinou um compromisso com PDT e PSB que previa o respeito à identidade do movimento.

As siglas, por sua vez, passaram a colocar em xeque o papel que as organizações desempenham em relação ao sistema partidário tradicional. Houve acusações de que elas podem interferir na atuação dos parlamentares, minando a autoridade das instâncias partidárias e regras internas.

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, por exemplo, questionou se Tabata estaria mais disposta na questão da Previdência a seguir a decisão da convenção nacional da legenda ou a "ouvir o Jorge Paulo Lemann", bilionário cuja fundação apoiou a trajetória da deputada.

Em indireta para Lupi, o RenovaBR divulgou nota nesta quarta-feira (17) na qual repudia ataques aos movimentos cívicos e sustenta que "partidos não deveriam ter donos".

"Há partidos políticos que, nos últimos 15 anos, estão sob o comando da mesma pessoa", diz o texto, assinado pelo fundador do Renova, Eduardo Mufarej. Lupi assumiu a presidência do PDT interinamente em 2004 e, com hiatos, está na função até hoje.

No comunicado, Mufarej acrescentou: "Talvez a permanência de um só político na mesma posição de poder por tanto tempo tenha o acostumado a imaginar que os cargos públicos devam ser exercidos pelos mesmos indivíduos sem renovação".

O Renova, que apoiou Tabata com formação e uma bolsa em 2018, não participa da discussão com as demais organizações. O posicionamento de Mufarej, contudo, antecipa uma das medidas práticas que serão propostas: a obrigatoriedade de rotatividade nas cúpulas das siglas, com a fixação de mandatos.

Procurados, os movimentos que estão à frente da articulação dizem que não vão se manifestar oficialmente até que o plano de ação seja concluído.

Houve divergências ao longo do processo sobre o momento ideal para pôr o bloco na rua. A corrente que defendia uma ação imediata para não perder o timing de repercussão do assunto acabou derrotada.

Por ora, a decisão é esperar a volta do Congresso às atividades, já que outro braço da iniciativa se dará no plano parlamentar, com a apresentação de um projeto de lei que englobe propostas do manifesto.

Parte das ideias em discussão foi introduzida em artigo do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) publicado na Folha nesta quarta-feira (17). O parlamentar, que também é membro do Acredito, citou nominalmente Ciro como "a melhor caricatura" de caciques partidários "fiéis a velhos hábitos".

Alessandro pregou o direito de "votar por convicção, e não por conveniência partidária" e afirmou que o respeito à divergência deve prevalecer nos partidos.

Ainda não está definido como o manifesto dos movimentos deve tratar a atuação parlamentar e a questão da fidelidade, mas o grupo deve propor um debate sobre a obrigatoriedade de voto conforme ordem do partido, que desencadeou a atual crise.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.