Descrição de chapéu Eleições 2020

Boulos deve ter adesão explícita da esquerda, já Covas, apoios envergonhados

Em São Paulo, candidatos procuram derrotados no primeiro turno em busca de adesão, mas cenário ainda é nebuloso

São Paulo

A busca por apoio de derrotados para o segundo turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo aponta para uma adesão explícita da esquerda à candidatura de Guilherme Boulos (PSOL), enquanto a de Bruno Covas (PSDB) pode ser a destinatária de endossos envergonhados ou pragmáticos da direita.

Conversas que começaram a se desenrolar na noite do primeiro turno, no domingo (15), mas só devem ter um desfecho ao longo da semana serão decisivas para as campanhas e envolvem também discussão sobre espaço no governo em caso de vitória.

Os candidatos a prefeito Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), ao votarem no domingo (15) - Fotos Marcelo Justo e Danilo Verpa/Folhapress

O que se desenha, por ora, é um cenário em que políticos de esquerda e centro-esquerda abracem Boulos por razões ideológicas e pelo enfrentamento ao governador João Doria (PSDB), aliado de Covas.

O PT já designou seu candidato derrotado, Jilmar Tatto (que teve 8,7%), como coordenador da participação petista na campanha de Boulos. Ainda na noite de domingo, Tatto e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) declararam apoio ao candidato do PSOL.

O ex-presidente Lula (PT) telefonou para o candidato no domingo e se colocou à disposição para ajudar na campanha como Boulos achar necessário. Como mostrou a Folha, a ligação entre Boulos e o PT já é explorada pelos tucanos como ponto negativo do adversário.

Lula confirmou seu apoio ao candidato do PSOL nesta terça-feira (17) e, em rede social, pediu que os eleitores do PT votem no líder de movimentos de moradia.

"Todos os eleitores e eleitoras que votam no PT, todos os eleitores que são de esquerda, todos os eleitores progressistas, todos que querem restabelecer a democracia no Brasil, têm agora o compromisso histórico de votar no companheiro Guilherme Boulos para prefeito de São Paulo", escreveu.

Tatto se reunirá nesta terça com a equipe do PSOL para acertar detalhes da estratégia no segundo turno, ancorada nos acenos à periferia. Tatto quer manter uma campanha intensa de rua nos bairros mais afastados, como vinha fazendo.

"Vamos entrar de cabeça na campanha para Boulos ganhar. Vamos juntar todos os setores democráticos e populares. ​Derrotamos Bolsonaro no primeiro e vamos derrotar Doria no segundo turno", disse Tatto à Folha.

Questionado a respeito de uma discussão sobre espaços do PT em um eventual governo Boulos, o petista afirmou que esse aspecto não está colocado. ​"Me recuso a falar sobre isso. O PT faz campanha para Boulos de modo incondicional."

A executiva municipal do PT confirmou nesta segunda apoio ao PSOL, para ajudar a "derrotar o projeto neoliberal representado por Bruno Covas, João Doria e Bolsonaro".

Além do PT, Boulos quer buscar o PSB de Márcio França e o PDT do vice de França, Antonio Neto. O PC do B de Orlando Silva já confirmou a adesão, em nome de "um projeto popular que priorize emprego e renda e faça de São Paulo uma cidade livre do racismo".

No caso do candidato à reeleição, ainda há dúvidas sobre a adesão de adversários que se contrapuseram a ele nos últimos meses, como Celso Russomanno (Republicanos, que terminou com 10,5%), Andrea Matarazzo (PSD, 1,6%) e Joice Hasselmann (PSL, com 1,8%).

Como os candidatos atuam no campo da direita, porém, os únicos caminhos possíveis são a neutralidade ou o apoio a Covas. Apesar dos ataques de Russomanno a "Bruno-Doria", a segunda opção é a tendência do Republicanos, que integra a base do governo Doria e fazia parte da gestão Covas até agosto.

Segundo tucanos, as conversas estão em andamento. Nesta segunda (16), o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, que é ligada ao partido, foi questionado por um seguidor em rede social sobre em quem votar e respondeu: "Jamais votarei na esquerda, portanto estamos com Covas".

Em entrevista ao UOL nesta segunda, Covas afirmou que dialoga com o Republicanos e que vai procurar o apoio de França.

Mesmo enfrentando um candidato de esquerda, o prefeito quer evitar uma virada à direita e uma associação com o bolsonarismo, até porque o presidente Jair Bolsonaro, por meio de seu candidato Russomanno, saiu derrotado. Mas os tucanos mantêm o discurso de que não recusarão voto algum.

A situação na direita, porém, ainda é nebulosa. Matarazzo e Joice não tomaram decisões.

"Estou amadurecendo a ideia. Fazendo a conta da tragédia. Por enquanto não [vou declarar apoio]", disse à Folha a candidata do PSL, que era próxima de Doria e dos tucanos, mas acabou minando pontes pelas críticas que dirigiu a eles na campanha.

Arthur do Val (Patriota), que teve 9,8% dos votos, não deve declarar apoio a nenhum dos dois. Seu partido, com três vagas na Câmara, fará oposição seja quem for o vencedor no dia 29.

O eventual apoio ao prefeito por candidatos de direita, no entanto, passa por uma mudança de discurso dos então adversários que o criticavam —um apoio "útil" para evitar o avanço da esquerda.

As conversas são guiadas ainda por interesses de ambos os lados, de fazer parte da composição do governo (da parte dos partidos) e de formação de base na Câmara Municipal (da parte de Covas).

Em relação a Boulos, o cenário é mais claro. Como PT e PSOL não estão em trincheiras diferentes e tampouco trocaram ataques na campanha, a adesão veio sem dificuldades.

No PT, a vitória de Boulos tem sido lida como uma vitória da esquerda. "É o que eu falo. Boulos é como um irmão mais novo, jamais eu o atacaria. Estamos no mesmo campo e no mesmo lado", disse Tatto.

A campanha do petista demonstrou irritação no domingo com a fala de Lula que responsabilizou Tatto pelo fato de o PT não desistir da candidatura para apoiar Boulos ainda no primeiro turno. A declaração foi vista como uma sinalização ao voto útil de esquerda e um abandono do candidato petista.

"​Lula é como pai pra mim, não tem discordância nenhuma. Lula estava preocupado que não fosse nenhum dos dois [Tatto ou Boulos] no segundo turno. Era uma preocupação de colocar a esquerda no segundo turno", disse Tatto, afirmando que não ficou chateado com o ex-presidente.

Por ora, não está claro se a participação de Lula na campanha de Boulos envolverá a aparição em propagandas e atos públicos ou se ficará restrita aos bastidores.

O assunto é tratado com cautela no PSOL porque pode tanto beneficiar o postulante quanto dar munição à campanha rival, que estabeleceu a estratégia de associar Boulos aos problemas do PT e pintá-lo como um radical que terceirizará a gestão para a legenda aliada caso se eleja.

A decisão sobre um apoio de França deve sair nesta terça-feira, depois de uma reunião com dirigentes dos partidos que compuseram sua coligação (PDT, Solidariedade, PMN e Avante).

Auxiliares do ex-governador dão como praticamente nula a chance de ele declarar apoio a Covas, depois de ter baseado sua campanha na marca anti-Doria e criticado a gestão do tucano.

As outras duas opções (apoio a Boulos ou neutralidade) são analisadas, mas França quer tentar obter no encontro desta terça uma decisão de consenso. Não está descartada uma solução de meio-termo, em que o ele orientaria seus apoiadores a dar um voto anti-PSDB, sem se associar claramente a Boulos.

Entre os representantes do PDT, a possibilidade que conta com mais apoio é a de adesão total ao projeto do PSOL. Candidatos a vereador da legenda derrotados no domingo já fazem campanha em prol do candidato nas redes sociais.

Boulos tem dito que buscará diálogo com todas as legendas do campo democrático e progressista que queiram se comprometer com uma agenda de justiça social, valorização da periferia e garantia de direitos para os mais pobres, três de suas bandeiras na disputa municipal.

Os candidatos do PSOL e do PSB tiveram rusgas ao longo da campanha, mas assessores dizem que os conflitos se deram no âmbito de falas acaloradas em debates e que eventuais mágoas são superáveis.

Para o segundo colocado, a migração de parte da base conquistada por França seria um empurrão de peso, porque poderia somar eleitores da periferia, mais velhos e com um pensamento mais ao centro.

Boulos recebeu, nesta segunda, até o que foi lido como sinalização da deputada estadual Janaina Paschoal (PSL), que apoiou Matarazzo no primeiro turno. A parlamentar de direita questionou Boulos, pelo Twitter, se ele se comprometia a governar os quatro anos de mandato.

"Sim, Janaina", ele respondeu. "Não sou da turma do PSDB, que usa São Paulo como trampolim para projetos pessoais. Governar a cidade em que eu nasci e vivo será a maior honra da minha vida. Sendo eleito, governarei os 4 anos."

A deputada, então, convidou o candidato para um diálogo ou até uma live para entender suas propostas. Questionada pela Folha, Janaina afirmou que "não descarta nada" em relação a apoiar algum postulante.

"Só quero mesmo detalhar as propostas. É preciso explicar como os projetos serão implementados. Não acho que o meu papel seja apoiar A ou B, mas ajudar a discutir propostas para a cidade", disse ela.

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