David Fincher fala de 'Mank', seu filme mais pessoal, indicado a 10 Oscars

Escrito pelo pai do diretor, longa retrata os conflitos de artistas e produtores na fase de ouro de Hollywood

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Ana Maria Bahiana

Jornalista da área cultural e editora-adjunta do site goldenglobes.com, é autora, entre outros livros, de "Nada Será Como Antes - MPB nos Anos 70" (Civilização Brasileira, 1980)

[RESUMO] O diretor David Fincher fala sobre "Mank", o filme mais pessoal de sua carreira. Projeto iniciado há três décadas, com roteiro escrito pelo pai do diretor, o longa retrata os embates do roteirista Herman Mankiewicz na Hollywood dos anos 1930 e a sua relação conturbada com Orson Welles durante a criação de "Cidadão Kane". "Mank" é o filme recordista de indicações ao Oscar neste ano (10 no total), incluindo melhor filme, diretor (para Fincher) e ator (Gary Oldman). O resultado será divulgado em 25 de abril.

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Este é o começo da história: muitos anos atrás —talvez 1988, talvez 1989—, o cineasta David Fincher, conversando com o seu pai, Jack Fincher, sobre os turbulentos anos da adolescência de Hollywood, entre a década de 1930 e a Segunda Guerra Mundial, teve uma ideia.

“O que você sabe sobre Herman Mankiewicz?”, perguntou. Não o diretor Joseph Mankiewicz (“A Malvada”, “A Condessa Descalça”), que ganhou um monte de prêmios e é um dos pilares da Hollywood clássica, mas o irmão dele, o roteirista de “Cidadão Kane”.

Fincher pai achou que era uma boa ideia. Howard Kelly “Jack” Fincher era criança quando os irmãos Mankiewicz, Orson Welles, Hearst, Louis B. Mayer, Marion Davies, Greta Garbo e todo o seu cortejo faziam a história, pelo avesso e pelo direito, do cinema.

Havia um elemento que sempre fascinara Fincher pai —e, em breve, a seu filho— nesse enredo fascinante: qual o verdadeiro poder da escrita em uma cultura de imagens?

Nascido no Texas em 1930, Jack Fincher foi jornalista e chefe de Redação da revista Life, em San Francisco, para onde se mudou com a família, incluindo o filho David, que tinha então dois anos.
O gosto pelo cinema levou-o a ensaiar os passos como roteirista e escritor, com um livro publicado. Seu interesse sempre foi a narrativa inspirada por fatos reais; esteve perto de ter seu roteiro transformado em “O Aviador” (2004), de Martin Scorsese (o de John Logan acabou sendo o escolhido).

No final dos anos 1980, começo da história deste texto, Jack, quase chegando aos 60, ainda batalhava para se firmar como roteirista e autor. David Fincher, aos 26, era um dos reis do videoclipe, dirigindo as estrelas musicais da época: Paula Abdul, Sting, Madonna, Gipsy Kings, Aerosmith.

“Nós estávamos conversando, e eu disse que seria muito interessante ter um filme sobre Hollywood nos anos 30”, diz David Fincher, de dentro das quase trevas de seu escritório em Los Angeles, com as luzes todas apagadas e apenas uma tímida janela como iluminação.

“Foi só uma ideia. Ele escreveu uma primeira versão, me mostrou, eu achei que não ia funcionar. Ele sumiu, fez outra versão, eu achei que estava quase no ponto. Conversamos muito, eu fui para Londres, 1989, 1990. Em 1990, eu disse para ele: ‘Por que você não concentra em Herman Mankiewicz?’. Em 1992, tínhamos uma primeira versão, mas era confusa. Em 1995, ele me apresentou uma versão que incorporava a questão da pobreza na Califórnia dos anos 30. Aí achei que estava na hora de fazer o filme.”

As tentativas, contudo, terminaram em frustração. “Não era a hora certa, não tínhamos o fôlego para subir a ladeira”, diz Fincher. “Eu fiquei frustrado por não poder realizar, mas Jack era uma pessoa extremamente pragmática, brilhante, que dava duro. Eu precisava fazer outras coisas, e Jack compreendeu. Não era a missão da minha vida lutar para filmar o roteiro.”

Fincher fala pausada e metodicamente. Nada é curto, simples ou desprovido de detalhes. “Os detalhes são os ossos de qualquer tema”, diria ele um pouco adiante, acrescentando: “Não sou dado a rompantes de emoção. Meu pai também era assim. Nada particularmente sentimental nele ou em mim. Ele me ensinou o respeito às palavras, a reverência à palavra escrita e aos que sabem fazê-la com beleza e força”.

Décadas se passaram, Jack morreu em 2003, David emplacou uma série sucessos como diretor —”Seven: Os Sete Crimes Capitais” (1995), “Clube da Luta” (1999), “O Quarto do Pânico” (2002)—, foi indicado a dois Oscars e três Globos de Ouro (levou um deste último para casa, de melhor diretor por “A Rede Social”, que define como “o ‘Cidadão Kane’ dos filmes estilo John Hughes”), casou, descasou, casou de novo (com a fotógrafa Donya Fiorentino, também futura ex-esposa de Gary Oldman), teve uma filha, hoje com 26 anos, descasou mais uma vez, ganhou mais prêmios e criou uma série de sucesso para a Netflix, “Mindhunter”.

E o roteiro de seu pai continuava, ele mesmo descreve, apontando vagamente para o seu lado direito, “acumulando poeira na estante aqui do escritório”.

Apenas quando terminaram as filmagens da primeira temporada de “Mindhunter”, o roteiro esquecido na prateleira entrou novamente em cena. Fincher pediu uma reunião com a Netflix.

“Eu disse: ‘Sou um péssimo showrunner e, além de tudo, estou exausto e não vejo como criar material para uma nova temporada’. E a Netflix, em vez de me falar ‘você tem um contrato, se vire!’, me disse: ‘Você não tem um outro projeto, menor, mais simples, algo mais pessoal que queira fazer? Você viu ‘Roma’?’.”

Fincher pausa e abre um raro sorriso. “Com a palavra Roma tudo mudou, e eu me lembrei, imediatamente, do roteiro que havia herdado do meu pai.”

“Existem toneladas de histórias sobre Mankiewicz e suas confusões em Hollywood”, diz Fincher. “Mas o roteiro final de Jack era preciso: era sobre Mank, não sobre o litígio com Orson Welles a respeito do crédito em ‘Cidadão Kane’ —a narrativa termina bem antes disso—, mas sobre o ofício da palavra, a relação entre roteiristas e diretores, uma relação complicada, o conflito saudável que existe entre os dois, o processo de criar uma narrativa bidimensional no papel para que se possa entender o que o filme é, e a adaptação para uma dimensão tridimensional, fotografada.”

Assim, o roteiro de Jack deu origem a “Mank”, filmado por David. O longa retrata uma década na vida do jornalista Herman Mankiewicz trabalhando em Los Angeles para os grandes estúdios. Biógrafos calculam que Mank escreveu mais de 40 filmes entre 1927 e 1941, incluindo “O Mágico de Oz” (teria dado a ideia de que Kansas deveria ser em preto e branco, e Oz, em cor), “A Primeira Página”, “Os Homens Preferem as Louras” e “O Diabo a Quatro”, embora nem sempre tenha recebido os créditos por seu trabalho.

A narrativa do filme vai e vem entre o retiro forçado de Mank em um bangalô no alto deserto do sul da Califórnia, preso a uma cama após fraturar o fêmur, ditando o que viria a ser o roteiro de “Cidadão Kane”, e a sua vida entre a bebida, os amigos e os chefões de Hollywood.

O processo da criação de “Mank” foi simples, do ponto de vista de Fincher: “Eu tinha, afinal, um excelente roteiro. Agora só precisava de um ótimo elenco, capaz de atuar com os maneirismos do cinema dos anos 30/40, som mono e fotografia em preto e branco”.

Houve uma breve escaramuça com a Netflix em torno dos dois últimos itens, mas Fincher venceu, como, em geral, ele vence. “Eu entendo as justificativas de quem está bancando um projeto, mas não havia sentido em fazer ‘Mank’ de outro modo. Eu queria que o espectador estivesse junto com ele, em 1939, 1940. Queria que a experiência de ver o filme se aproximasse da nossa memória dos filmes dessa época —o preto e branco tem esse poder, de nos transportar para a memória dos filmes que vimos.”

“A mesma coisa com o áudio. Eu havia criado uma pátina visual, portanto fazia sentido criar também uma pátina auditiva. Foi uma espécie de viagem no tempo da tecnologia de som. Agora que temos dúzias de recursos para criar um ambiente sonoro, eu resolvi pôr tudo em quatro canais, todos juntos na caixa de som do meio, atrás da tela —se o filme for exibido em um cinema, é claro. Ruído, a vaca mugindo, a buzina de carro, o diálogo, a música —tudo junto, no meio.”

Fincher faz uma pausa e começa a rir. “É nessa hora que reconhecemos as coisas incríveis feitas com quatro canais. Como eles fizeram ‘Magical Mystery Tour’ com quatro canais? Meu Deus, você começa a pensar como esses caras eram precisos naquilo que queriam fazer!”

Com exceção de alguns nomes —Gary Oldman, a primeira escolha de Fincher para o papel de Mank, Charles Dance como William Hearst, Lily Collins como Rita Alexander e Amanda Seyfried com Marion Davies—, o “ótimo elenco” almejado pelo diretor acabou sendo um time perfeito de atores de grande experiência, com longas carreiras em cinema e TV, mas que nunca chegaram ao título de astro.

Na maioria das cenas, Fincher dirige seus atores para o que ele chama de interpretação de cinema antes de Marlon Brando. “No período em que o filme se passa, os atores não se preocupavam com as emoções reprimidas, o mundo interior dos personagens, as reservas pessoais das almas dos personagens, essas coisas. A abordagem dramática era utilitária, e isso era assim em grande parte para que a plateia ouvisse claramente o diálogo e pudesse acompanhar a narrativa.”

Quando, em dois momentos cruciais e inspirados na realidade —o drama do roteirista que cria, a mando dos chefões da indústria, uma série de filmetes fake news, em plenos anos 1930, para derrubar um candidato progressista, e o porre fenomenal de Mank em um banquete na casa de Hearst—, o tom dos atores muda para a intensidade dramática a que estamos acostumados hoje, o filme alcança um outro nível de complexidade, um diálogo entre passado e presente.

“O que me interessava, e o que Jack escreveu, focava diretamente o cara que, de certa forma, desprezava o rumo que sua vida tinha tomado, e como seu destino cruzou com o de um jovem gênio poderoso [Orson Welles] e como essa pessoa acabou lhe dando a oportunidade de descobrir do que ele era capaz, uma certa medida de respeito por si mesmo, o caminho de uma salvação.”

Fincher faz uma pausa e retoma. “Isso era o que me interessava. Não é uma negação do papel de Welles nem do trabalho de Mankiewicz. A verdade está sempre no meio. Eu não acredito que filmes existam para dar respostas absolutas.”

Ele pausa de novo, pensa um pouco e volta ao assunto. “Mank era meio um mistério, uma contradição. Ele era o cara que dizia as verdades na cara dos poderosos, mas era também o cara que achava que ele e seus amigos eram idiotas e burros. E, mesmo assim, ele era o cara que achava que escritores e roteiristas deviam ser respeitados.”

Gary Oldman tem uma visão semelhante sobre seu personagem. “Mank era um poço de contradições. Ele dizia que lia muito, que tinha padrões elevados e que ser tão crítico de si mesmo destruía a sua criatividade. E, ao mesmo tempo que admirava o poder da palavra, ele desprezava o trabalho do roteirista. Ele se sentia confortável com o dinheiro que ganhava e, ao mesmo tempo, se sentia destruído por ele. O dinheiro era ótimo e, ao mesmo tempo, era um grande sacrifício.”

Mank

  • Quando Em cartaz nos cinemas; a partir de 4/12 na Netflix
  • Elenco Gary Oldman, Amanda Seyfried e Lily Collins
  • Direção David Fincher
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