Em tratamento, Covas aposta no fim de obras como trunfo em ano eleitoral

Prefeito de São Paulo busca reeleição em 2020 equilibrando quimioterapia e inaugurações

São Paulo

Bruno Covas (PSDB) inicia 2020 enfrentando uma corrida de obstáculos para se reeleger prefeito da cidade de São Paulo. 

Ele encara a pecha de prefeito de imagem pública apagada, sem marcas, e enfrenta tratamento contra um câncer agressivo, que pode prejudicar sua intensa agenda como prefeito e candidato. Como trunfos de sua candidatura, tem uma cidade com dinheiro em caixa e obras importantes prestes a serem entregues. 

O prefeito tem mantido o expediente mesmo durante sucessivas sessões de quimioterapia. Durante esse período, vem mantendo grande atividade nas redes sociais. 

As notícias do tratamento contra o câncer, analisam pessoas próximas, têm feito com que o prefeito tenha mais exposição e, consequentemente, torne-se mais conhecido. Levantamentos internos do PSDB citam a imagem apagada de Covas como um dos principais desafios. 

Prefeito Bruno Covas deixa o hospital após 23 dias internado, em novembro
Prefeito Bruno Covas deixa o hospital após 23 dias internado, em novembro - Eduardo Anizelli - 14.nov.2019/Folhapress

O orçamento da cidade aprovado para 2020, de R$ 68,9 bilhões, é mais de R$ 9 bi maior que o de 2019. 
Parte significativa dessa verba extra será gasta na ampliação de vagas de creche, uma das apostas de Covas. Em 2020, a estimativa é de que seja gasto R$ 1 bilhão em educação infantil. 

Além da ampliação por meio de creches conveniadas e diretas, o tucano lançou no fim deste ano os programas Mais Creche e Bolsa Primeira Infância. Enquanto o primeiro compra vagas avulsas em entidades privadas, o segundo dá R$ 200 por mês para famílias de crianças que ainda não conseguiram uma vaga na rede municipal. 

Outra parte do caixa vai para zeladoria, onde o tucano prevê gastar em torno de R$ 3 bilhões em obras como de recapeamento e reforma de calçadas. O valor é o dobro do previsto no orçamento deste ano. 

A conclusão de obras na região central de São Paulo deverá ser capitalizada pelo prefeito no ano eleitoral. Covas pretende inaugurar até junho o parque Augusta, na Consolação.

Alvo de disputa entre empreiteiras e moradores do entorno durante décadas e desocupado há mais de 40 anos, o terreno de 24 mil m² deverá ser apresentado como uma vitória não somente por ser um parque novo mas também como resultado de uma estratégia de negociação bem-sucedida da gestão tucana.

O tucano planeja concluir na mesma época a reforma do vale do Anhangabaú. Proposto durante a gestão Fernando Haddad (PT), o projeto de intervenção foi retomado em junho de 2019, com custo previsto de R$ 80 milhões.

Além de piso acessível, 850 jatos d'água para refrescar os passantes, 1.500 assentos, bebedouros, sanitários e pontos de iluminação, a repaginação do vale servirá de contraponto à administração petista, que não conseguiu encaminhar o projeto.

Covas embalou um pacote de ações para dinamizar a região central. Os calçadões do centro histórico (região da Praça da Sé), do Centro Novo (próximos da praça da República) e do entorno do Mercado Municipal passarão por reformas abrangentes, com ampliação de calçadas, renovação da iluminação e plantio de árvores. 

Em outubro, a prefeitura lançou um novo projeto urbanístico com o objetivo de dobrar o número de moradores do centro. O perímetro do plano envolve uma área de 2.000 hectares nos distritos de Bom Retiro, Pari, Belém, Brás, República e Sé. 

A estimativa da população no perímetro do PIU é de ao menos 240 mil pessoas. A prefeitura diz ser possível dobrar esse número, e pretende fazer isso por meio da concessão de incentivos para construtoras e moradores, como permissão de construções maiores, redução das taxas para construir (outorgas onerosas) e créditos para habitações de interesse social.

Covas não conseguirá evitar, no entanto, certo amargor com o fracasso do projeto de construção de um parque no elevado João Goulart, o Minhocão, no centro. 

Anunciado com alarde e tido por Covas como a obra que marcaria o legado de sua gestão para a cidade, o parque Minhocão travou por meses na Justiça e enfrentou resistência de vereadores e da sociedade civil até que, por fim, o prefeito desistiu de tirá-lo do papel.

Também será um obstáculo de Covas na busca por popularidade a relação tensa com o funcionalismo público. No final de 2018, ele promoveu a reforma da previdência dos servidores municipais, com elevação da alíquota de 11% para 14%. A tramitação foi acompanhada por mais de uma greve de professores. A última durou 33 dias e encerrou-se em março de 2019.

Covas ainda planeja extinguir dez empresas municipais em 2020 por meio de uma reestruturação da administração indireta. Com o objetivo de cortar gastos, a prefeitura extinguirá cargos comissionados e realocará servidores concursados de empresas que devem deixar de existir, como Amlurb, Fundação Theatro Municipal e Autarquia Hospitalar Municipal, entre outras.

O pacote tem potencial de gerar forte antipatia dos servidores municipais, categoria que conta com mais de 120 mil membros e que tem significativo potencial de mobilização.

Covas tenta, por um lado, mostrar os resultados de medidas de austeridade fiscal, e deverá alardear em 2020 os resultados do pacote de concessões e privatizações, que até o momento teve sucesso em passar o estádio do Pacaembu, o parque Ibirapuera e o mercado de Santo Amaro para a iniciativa privada. O rigor na administração das contas será valorizado em momento em que o Rio de Janeiro, por exemplo, mostra o resultado do descontrole nos cofres.

Por outro lado, o prefeito poderá sofrer danos à sua imagem por não ter se comprometido com medidas populistas e comuns em anos de eleição. Covas decidiu reajustar a passagem de ônibus de R$ 4,30 para R$ 4,40, por exemplo. Tradicionalmente, prefeitos não costumam reajustar a passagem em ano eleitoral.

O atual governador João Doria (PSDB), por exemplo se elegeu prefeito em 2016 prometendo congelar o valor da passagem.

Covas passou, nos últimos dias de 2019, pela quinta sessão de quimioterapia. Durante o período, manteve os despachos até na UTI do Hospital Sírio-Libanês. Segundo médicos, o tratamento tem tido resultados positivos. 

A doença do tucano gerou uma situação política delicada, uma vez que, caso Covas tenha que se afastar o presidente da Câmara, Eduardo Tuma (PSDB), terá de assumir. Se isso acontecer mesmo que por um dia depois de abril, ele não poderá concorrer à reeleição para o cargo de vereador

Paralelamente ao imbróglio, Covas se movimenta politicamente. Tem feito alianças entre uma sessão de quimioterapia e outra, e fez recentemente uma reforma do secretariado com acenos políticos a vários partidos. 

O tucano acomodou diferentes setores do PSDB, da bancada religiosa e o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), ao incorporar indicações políticas ao governo municipal. 

As mudanças incluíram até um agrado ao governador Doria ao nomear Juan Quirós para o cargo de secretário de Tecnologia e Inovação. 

A relação de Covas e Doria é cercada de reticências de ambos os lados, uma vez que grupo ligado ao prefeito desconfia que o governador pode apoiar mais de um candidato nas eleições de 2020. Doria tentou, inclusive, amarrar o prefeito a Joice Hasselmann (PSL), como vice. 

Joice é mais próxima de Doria que Covas, tanto no trato pessoal como ideologicamente. Enquanto Doria aposta em disputar a direita com Bolsonaro na eleição presidencial de 2022, Covas adota uma postura mais à esquerda. 

O prefeito se diz um radical de centro e, nesse projeto, flerta com os dois lados do eleitorado polarizado entre esquerda e direita. De um lado adota medidas liberais, como privatizações e enxugamento da máquina pública, e de outro compra a briga de artistas censurados durante a gestão Bolsonaro —entre 17 e 31 de janeiro, a Prefeitura de São Paulo promoverá o festival Verão Contra a Censura, que abrigará produções culturais barradas ou atacadas pelo governo federal.

Vetada pela Funarte em agosto, a peça 'Res Publica 2023' será apresentada no festival Verão sem Censura, em São Paulo
Vetada pela Funarte em agosto, a peça 'Res Publica 2023' será apresentada no festival Verão sem Censura, em São Paulo - Lenise Pinheiro - 11.out.2019/Folhapress

Trunfos e obstáculos de Covas na busca da reeleição

Trunfos
Verba
A administração terá no ano eleitoral R$ 9 bilhões a mais no orçamento que em 2019

R$ 68,9 bilhões será o valor do orçamento
R$ 3 bilhões será o valor do gasto em zeladoria
R$ 1 bilhão será o valor do gasto em educação infantil 

Obras
O tucano tem uma vasta carteira de obras a entregar:

  • Conclusão do parque Augusta
  • Reforma do Vale do Anhangabaú
  • Reforma do Largo do Arouche
  • Finalização de 12 CEUs

Concessões e privatizações
Covas passou para a iniciativa privada:

  • Estádio do Pacaembu
  • Ibirapuera e outros cinco parques
  • Mercado de Santo Amaro

E planeja conceder em 2020:

  • Zona Azul
  • Complexo do Anhembi
  • Autódromo de Interlagos
  • Mercado Municipal (Mercadão) e mercado Kinjo Yamato

Cultura
Por meio de posicionamentos públicos e eventos culturais, Covas tem construído imagem de oposição à censura

Em janeiro, promoverá o festival Verão Contra a Censura, que abrigará manifestações artísticas barradas ou atacadas pelo governo Bolsonaro

Obstáculos
Tratamento
Covas enfrenta um câncer na região do estômago, com metástase, cujo tratamento pode atrapalhar sua agenda

Marcas
O prefeito não conseguiu notabilizar-se por meio de ações marcantes, e por isso ainda é pouco conhecido na cidade

Tensão com servidores
Após realizar reforma da previdência municipal e encaminhar reforma administrativa para 2020, Covas deve sofrer resistência de categoria numerosa e influente

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