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Entenda por que 1999 gerou obras-primas como 'Matrix' e 'O Sexto Sentido'

Há 20 anos, Hollywood viveu um de seus momentos mais férteis e lançou bases para o cinema de hoje

Cena do filme

Cena do filme "Matrix", um dos filmes mais famosos lançados em 1999 Divulgação

Guilherme Genestreti Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Foi o ano do bug do milênio e também de certo “bug” na indústria do cinema. Uma confluência de fatores fez de 1999 um ano bastante fértil em Hollywood. Pense em “Matrix”, “O Sexto Sentido”, “Clube da Luta”, “Beleza Americana”—títulos originais e que ressoam até hoje.

Aqueles 12 meses foram o auge de fenômenos que vinham fermentando ao longo daquela década e que são indispensáveis para compreender a produção feita em 2019. 

O cinema independente, que havia ganhado força no começo dos anos 1990, virou mainstream dez anos depois e fez despejar uma torrente de “filmes médios”, isto é, que não são nem blockbusters nem longas de nicho. 

O início da era digital mudou a forma de promover lançamentos, hoje a principal engrenagem publicitária, e influenciou tramas e linguagem. 

Foi em 1999 que os irmãos Wachowski —agora irmãs Wachowski— apresentaram “Matrix”, hit que ainda inspira cópias e paródias de suas cenas de ação em câmera lenta. 

Charlie Kaufman, um dos roteiristas mais originais de Hollywood, teve sua grande estreia no cinema com “Quero Ser John Malkovich”, outro título que causava uma pane na cabeça do espectador ao questionar a noção do que é realidade. “Magnolia”, estruturado em vários núcleos narrativos, firmou Paul Thomas Anderson como um dos principais cineastas americanos.

“Clube da Luta” consolidou o status cult de David Fincher e, no Brasil, ganhou particular notoriedade após um atirador entrar num cinema de São Paulo e metralhar as pessoas.

E Stanley Kubrick, expoente de outra geração, teve no elogiado “De Olhos Bem Fechados” sua obra derradeira.

Nenhum, contudo, superou o inesperado êxito de “O Sexto Sentido”, suspense lançado de forma discreta por M. Night Shyamalan, diretor de origem indiana até então pouco conhecido e para quem os estúdios não davam tanta bola. Tornou-se a segunda maior bilheteria do ano. Hoje, é muito difícil encontrar alguém que não conheça a reviravolta que encerra o longa. 

A perenidade dos filmes lançados em 1999 tem muito a ver com uma postura dos estúdios em Hollywood na época. Apostando menos em celebridades e mais em novos diretores e projetos mais ousados, assumiram riscos que seriam impensáveis na indústria de 2019, tão atada a franquias e adaptações de obras que já são conhecidas do público. 

Isso não significa que aquele ano tenha sido prolífico só em pérolas autorais. O cinema adolescente, que havia vivido o seu auge nos anos 1980, voltou a viver um pico no período. E, curiosamente, veio a reboque de fontes improváveis. 

“Segundas Intenções” se esbaldava na intriga teen tomando por mote a trama de “As Ligações Perigosas”, a obra epistolar de Choderlos de Laclos. Já “10 Coisas que Eu Odeio em Você” levava “A Megera Domada”, de Shakespeare, para o universo colegial americano.

“American Pie”, “Nunca Fui Beijada” e “Ela É Demais” foram outros hits a formar filas.

Hoje, as sacadas desses filmes soam datadas. Não se pode mais conceber uma trama em que uma menina mal-vestida precise se arrumar e se maquiar para ser notada (“Ela É Demais”) ou que seja correto que um garotão contrate uma banda de fanfarra e pare o colégio com o único propósito de constranger uma garota a sair com ele (“10 Coisas que Eu Odeio em Você”). 

Eram tempos em que filmes adolescentes eram ambientados em cenários mundanos (como as escolas do subúrbio), e não distopias encenadas em mundos fictícios de regimes tirânicos, como “Jogos Vorazes”, “Divergente” e afins.

Além disso, foi um ano em que a comédia romântica ainda era um filão popular e rendia grandes retornos. Só Julia Roberts esteve em duas, “Noiva em Fuga” e “Um Lugar Chamado Notting Hill” —respectivamente nona e 11ª bilheterias americanas daquele ano. 

De qualquer forma, 1999 foi a época em que a atual estratégia de divulgação de filmes, online, começou a germinar.

O primeiro título a se aproveitar disso foi “A Bruxa de Blair”. Lançado em julho, o filme não só originou uma linhagem de longas terror na ideia da chamada “found footage” (filmagem encontrada), como usou a internet para criar burburinho. 

O site reunia boletins de ocorrência falsos sobre o desaparecimento dos personagens do filme. A dúvida 
sobre se aquilo era ficção ou realidade ajudou a obra a se tornar a 14ª mais vista do ano.

Hoje, a internet é indispensável à promoção do cinema. Pense na estratégia meticulosa por trás do lançamento dos teasers da Marvel, por exemplo. Isso tem a ver com o boom dos trailers de 20 anos atrás. 

É claro que Hollywood já lançava mão do recurso havia décadas, mas em 1999 estúdios notaram que se ia ao cinema para ver o trailer. Isso, graças a “Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma”, o campeão de bilheteria do ano. 

A curiosidade em relação a como George Lucas retomaria sua saga espacial 16 anos após o fim da trilogia original fez americanos lotarem as sessões de “O Rei da Água” e “Encontro Marcado”, antes dos quais o trailer do novo “Star Wars” havia sido programado.

Lançado na rede numa era pré-YouTube, o vídeo foi baixado 6,4 milhões vezes em três semanas, o que fez Steve Jobs chamar aquilo de “o maior fenômeno de downloads da história da internet”.

As sequências, por sinal, ganharam fôlego em 1999 e provaram que, com um bom marketing, poderiam se 
tornar filmes-eventos, com retorno por vezes superior aos originais —algo raro na época, quando continuações faziam pouco mais da metade do que rendiam as bilheterias dos primeiros longas. 

Um caso interessante é o de “Austin Powers”, o agente bestalhão vivido por Mike Myers. O primeiro filme, de 1997, teve um lucro modesto (US$ 67 milhões no mundo), mas foi impulsionado pelos lançamentos em VHS e DVD, que deram uma vida nova à produção. E a sequência veio logo, dois anos depois, com um retorno quase cinco vezes maior. 

“Toy Story 2” fez US$ 497 milhões no mundo todo, contra os US$ 373 milhões do primeiro filme da franquia, de quatro anos antes. Com tantos retornos, 1999 acabou com a má fama antes atribuída a sequências cinematográficas.

Ainda assim, é interessante perceber como os maiores sucessos da época vinham de ideias originais. Se compararmos as dez maiores bilheterias de 1999 nos Estados Unidos, entre elas “O Sexto Sentido” e “Matrix”, às do ano passado —a maioria derivada de quadrinhos, como “Pantera Negra” e “Vingadores”—, vemos como os sucessos recentes são todos sequências de franquias ou reboots.

E as produções de duas décadas atrás, mesmo quando eram adaptadas de outra obra, tinham cara de original. 

Casos como “Clube da Luta”, versão do romance de Chuck Palahniuk, ou “O Talentoso Ripley”, originalmente um livro de Patricia Highsmith, resistiram ao tempo e superaram o sucesso de seus originais porque não foram exatamente fiéis às obras em que se basearam e criaram algo novo.

Não há uma fórmula para replicar o sucesso de 1999. Mas, olhando em retrospecto, fica claro como a abertura da indústria para linguagens e histórias originais fez germinar uma safra que sobreviveu por anos a fio. Já no ano seguinte, um certo “X-Men” abriu a porteira para uma nova leva de super-heróis que até hoje não deixaram os cinemas.

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