Descrição de chapéu Eleições 2022

Huck se encontra com Leite para discutir aliança eleitoral em 2022 entre autores de manifesto

Conversa busca afunilar acordo sobre candidatura em grupo de seis presidenciáveis que lançou texto pró-democracia

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São Paulo

O apresentador Luciano Huck (sem partido) e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), dois dos seis presidenciáveis de oposição a Jair Bolsonaro (sem partido) que lançaram um manifesto pró-democracia, se encontram nesta quarta-feira (14) para discutir as eleições de 2022.

A conversa, em Porto Alegre, é mais um passo na direção de uma possível aliança eleitoral de nomes da direita à centro-esquerda que tentam evitar a polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Lula (PT).

Além da dupla, o grupo que busca confluência para a corrida presidencial inclui Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e João Amoêdo (Novo). Como mostrou a Folha, o sexteto acumula divergências e rusgas do passado, mas converge na resistência à dicotomia Bolsonaro-Lula.

No dia 31 de março, quando o golpe que instaurou a ditadura militar (1964-1985) completou 57 anos, os seis publicaram o Manifesto pela Consciência Democrática. Eles afirmaram no texto, em recado para Bolsonaro, que a democracia está ameaçada e conclamaram uma soma de forças para defendê-la.

Foi também a primeira vez que Huck se colocou indiretamente na condição de presidenciável para o pleito do ano que vem, algo que evita confirmar abertamente.

O apresentador da TV Globo quase foi candidato na eleição presidencial de 2018, mas acabou recuando. Desta vez, vem entabulando conversas com partidos e líderes políticos, mas sem se declarar pré-candidato e dizendo que deseja contribuir com a saída do país da crise. O titular do programa "Caldeirão do Huck" não é filiado a partido, mas tem pontes com siglas como Cidadania, DEM e PSB.

O encontro desta quarta é parte dos esforços para garantir o envolvimento do PSDB na construção de coligação que una o grupo batizado de Polo Democrático. O gaúcho anunciou a intenção de disputar as prévias do PSDB para definir um nome para 2022, entrando em choque com os planos de Doria.

Segundo aliados que acompanham as articulações, a conversa também será um gesto ao senador tucano Tasso Jereissati (CE), membro da ala tradicional do PSDB. Tasso é entusiasta do nome de Leite e vem declarando publicamente apoio à participação dele no debate sobre candidatura.

O senador também se coloca favoravelmente à pacificação do que chama de centro político em torno de um único projeto.

O discurso envolvidos nas discussões é o de que o candidato ao Planalto deverá ser aquele que reunir as melhores condições para ser competitivo. Internamente, políticos defendem que o campo fragmentado entre Bolsonaro e Lula não desperdice energias dividindo-se em mais de uma chapa.

Huck e Leite se aproximaram nos últimos anos e já trocaram elogios publicamente. No início de março, o governador gaúcho participou ao lado do comunicador de um evento virtual do RenovaBR, escola de formação de candidatos da qual o apresentador é um dos conselheiros.

O presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, fez críticas a Huck, nesta quinta-feira (15), em uma rede social, ao cobrar que o apresentador exponha "de forma transparente suas ideias sobre o Brasil", já que vem despontando como presidenciável. O PSOL poderá ter candidato próprio ou apoiar Lula.

"Todos fazem política nos bastidores. Não critico Huck por ir ao Rio Grande do Sul cuidar da sua pré-candidatura. Mas quando saberemos o que ele pensa sobre o teto de gastos? O financiamento do SUS? A política externa? A dívida pública? A relação entre os Poderes, em particular, com o Congresso?", escreveu.

"Quem quer ser presidente do Brasil tem que se expor. Eu quero ter o direito de explorar minhas diferenças com Huck", disse Medeiros.

A organização do manifesto partiu do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Na semana passada, ele disse à reportagem que a evolução da iniciativa para uma aliança no campo eleitoral dependeria do andamento das conversas entre os envolvidos, o que começa a se desenrolar agora com mais vigor.

As dificuldades de entendimento entre pré-candidatos e partidos, no entanto, são significativas.

Afora o propalado respeito às regras democráticas, poucos traços ligam, por exemplo, dois nomes que estão nas pontas do sexteto: o liberal convicto Amoêdo, que votou em Bolsonaro no segundo turno de 2018, e o centro-esquerdista Ciro, que já foi ministro de Lula e hoje se opõe ao ex-presidente.

O ex-juiz Sergio Moro, que é cotado como presidenciável, também participa dos debates e integra o núcleo que resolveu divulgar o texto. Ele foi convidado a endossar o documento, mas declinou alegando razões contratuais com a consultoria Alvarez & Marsal, para a qual trabalha.

Antes de se darem as mãos, signatários do texto já protagonizaram embates públicos.

No quesito críticas, Ciro é talvez o recordista, com histórico de ataques desferidos contra praticamente todos os novos companheiros. Sua bronca com Doria foi parar nos tribunais. O ex-ministro já usou termos como "farsante" e "picareta completo" para se referir ao governador de São Paulo.

O empresário e ex-banqueiro Amoêdo, que, como o pedetista, concorreu na eleição de 2018, também virou alvo dele durante a campanha —e rebateu, falando que Ciro precisava "conhecer um pouco mais sobre economia".

Já Mandetta e Leite soam mais agregadores, sem tantas arestas internas. No caso do gaúcho, a aventura presidencial depende, antes de tudo, de uma solução no PSDB, com a definição sobre o nome dele ou o de Doria, que desde 2019 vinha sendo tratado como virtual presidenciável do tucanato.

O único que desfruta de situação confortável dentro de sua legenda é Ciro, hoje sem maiores óbices a seu nome entre os correligionários.

A plataforma mínima que une o sexteto está fundamentada, basicamente, no antipetismo e no antibolsonarismo. À exceção de Ciro, todos são identificados na opinião pública como simpatizantes de Bolsonaro no segundo turno de 2018, embora hoje se declarem na oposição ao mandatário.

O caso mais emblemático é o de Doria, que se elegeu na onda da dobradinha BolsoDoria e rompeu com o presidente no ano seguinte, iniciando um antagonismo que se aprofundaria com as discordâncias nas medidas de combate à pandemia do novo coronavírus e a politização do tema das vacinas.

A receita desejável para atenuar a crise sanitária causada pelo vírus é outro ponto pacífico entre os subscreventes do manifesto. Todos pregam obediência às recomendações científicas, o que os coloca em campo oposto ao de Bolsonaro, que nega a gravidade da doença e sabota ações preventivas.

O impeachment do presidente é controverso —Ciro e Amoêdo são abertamente favoráveis.

PONTOS QUE DISTANCIAM E APROXIMAM OS SEIS PRESIDENCIÁVEIS

Ciro Gomes (PDT)

João Doria (PSDB)

Luciano Huck (sem partido)

Luiz Henrique Mandetta (DEM)

João Amoêdo (Novo)

Eduardo Leite (PSDB)

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