Relembre momentos marcantes das transmissões esportivas nos 70 anos da TV no Brasil

Na telinha, país vibrou com três títulos de Copa do Mundo e sofreu dores profundas

São Paulo

Responsável por mudar a vida do brasileiro e também por documentar as transformações do Brasil nos últimos 70 anos, a televisão registrou vários momentos marcantes da história do esporte no país.

Da conquista verde-amarela na primeira Copa do Mundo exibida ao vivo, em 1970, aos atuais jogos sem público no estádio durante a pandemia do coronavírus, quase tudo de mais relevante foi reproduzido na telinha.

Na companhia de grandes narradores, as pessoas viveram emoções como os triunfos da seleção, de Ayrton Senna e de Gustavo Kuerten. Viveram também experiências dolorosas, como algumas derrotas duras do time nacional de futebol e o acidente que matou Ayrton Senna em uma corrida de F-1.

Foi assim, em preto e branco, que o Brasil acompanhou a primeira Copa do Mundo transmitida em tempo real, em 1970 - Acervo - 3.jun.70/Xinhua/Pictures USA/Zumapress

Relembre momentos memoráveis levados dos campos, quadras e pistas às casas dos brasileiros nas últimas décadas.

Tri no México – 1970

A Copa do Mundo de 1970 foi a primeira transmitida ao vivo para o Brasil, ainda em preto e branco. “Alô, alô, México”, dizia a vinheta de abertura de cada jornada, exibida em cadeia por Tupi, Globo, Record e Bandeirantes. Os narradores e comentaristas das emissoras se revezaram até a celebração da vitória por 4 a 1 da seleção sobre a Itália.

Os brasileiros, que vibraram pelo rádio com os triunfos de 1958 e 1962, tiveram a inédita sensação de observar a taça Jules Rimet sendo erguida em tempo real. A ginga de Clodoaldo, o golaço de Carlos Alberto e a festa no gramado, com os jogadores despidos por torcedores ensandecidos: tudo foi visto pela tela da TV.

Adeus do Rei – 1971

No ano seguinte à conquista do tricampeonato mundial, Pelé resolveu se despedir da seleção brasileira, aos 30 anos. Em um dia repleto de lágrimas, o Rei vestiu a camisa amarela no Maracanã, o mesmo onde havia marcado o milésimo gol, e atuou no primeiro tempo de um empate por 2 a 2 com a Iugoslávia. No intervalo, deu uma volta olímpica diante de 140 mil pessoas.

“O povo todo pronuncia as duas sílabas mágicas que já encantaram plateias dos mais diferentes idiomas: Pelé”, disse o locutor Walter Abrahão, em relato emocionado na TV Cultura. “Em qualquer idioma, significa o grande jogador brasileiro de todos os tempos.”

Fittipaldi campeão – 1972

Não era fácil acompanhar as primeiras transmissões da F-1 para o Brasil, realizadas pela Globo em 1972. Até mesmo o narrador Léo Batista tinha dificuldades para acompanhar a posição dos carros e usava uma tabuleta de metal com ímãs para se orientar e tentar reproduzir a posição dos pilotos na pista.

Foi naquele ano que Emerson Fittipaldi –que seria campeão também em 1974– conquistou o primeiro título de um brasileiro na categoria. Já com exibições mais atrativas ao público, a televisão mostraria também as três conquistas de Nelson Piquet (1981, 1983 e 1987) e as três de Ayrton Senna (1988, 1990, 1991).

Tristeza no Sarriá – 1982

A Copa do Mundo da Espanha, em 1982, foi uma exclusividade da TV Globo para o Brasil. Com Luciano do Valle como locutor principal, a emissora exibiu os jogos de um time que encantou o planeta até sucumbir diante da Itália, por 3 a 2, no duelo que valia vaga nas semifinais, no estádio Sarriá, em Barcelona.

“Bateu bem aberto”, narrou Luciano, ficando em silêncio após o escanteio, enquanto a bola era desviada perto da meia-lua e chegava à pequena área. “E o gol de Paolo Rossi... Gol de Paolo Rossi. Dentro da pequena área, fazendo o giro e marcando o terceiro da Itália. Terceiro da Itália, Paolo Rossi, na marca dos 30 minutos”, observou, em tom fúnebre.

Fundamentais na trajetória da televisão brasileira, o futebol e as telenovelas se misturaram em várias oportunidades. Uma delas foi em “Vereda Tropical”, de autoria de Carlos Lombardi, exibida entre 1984 e 1985 pela Globo. Interpretado por Mário Gomes, Luca tinha o sonho de ser jogador profissional, algo que realizou no Corinthians, no fim da trama.

As cenas do ator vestindo preto e branco foram gravadas em um jogo de verdade do time alvinegro contra o Vasco, no Morumbi. Devidamente uniformizado, ele correu para abraçar Serginho Chulapa quando o atacante marcou um gol, como se fosse da equipe. No fim da partida, um empate por 2 a 2 buscado pelos visitantes no final, os corintianos gritaram “Luca”, como que pedindo que ele voltasse.

Ator Mário Gomes atua como Luca, jogador do Corinthians em "Vereda Tropical"
Luca (Mário Gomes) comemora gol real do Corinthians com Serginho Chulapa e Casagrande - 27.jan.85/Divulgação

Senna na raça – 1991

O Brasil já havia se acostumado a acordar nas manhãs de domingo para vibrar com Ayrton Senna, em 1991, quando ele caminhava para seu terceiro título na F-1. Foi naquele ano que o piloto teve uma de suas corridas mais emblemáticas, vencendo pela primeira vez no circuito de Interlagos, com sérios problemas no câmbio nas voltas finais.

“Aí vem ele. Aí vem Senna. Puxa de um lado, acelera. Puxa para a direita. Está chovendo. As gotas caem ali na câmera colocada no carro de Senna”, narrou um empolgado e empolgante Galvão Bueno, na TV Globo, na última volta –encerrada com o “Tema da Vitória” e o tradicional grito “Ayrton, Ayrton, Ayrton Senna do Brasil”.

Glória no voleibol – 1992

Foi em Barcelona, em 1992, que o Brasil conquistou pela primeira vez uma medalha de ouro olímpica em um esporte coletivo. A seleção masculina de vôlei, que era dirigida por José Roberto Guimarães e tinha nomes como Tande, Giovane, Carlão, Maurício e Marcelo Negrão, fechou sua campanha batendo a Holanda por 3 sets a 0.

O jogo foi exibido por Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT. Na voz de Luciano do Valle, o saque de Negrão que definiu o título foi resumido assim: “Somos oooouro”. A equipe masculina repetiria o triunfo em 2004 e em 2016. O time feminino nacional subiria ao topo do pódio em 2008 e em 2012.

Morte do ídolo – 1994

Ocorreu em 1º de maio de 1994 aquela que é uma das mais tristes transmissões esportivas dos 70 anos da televisão brasileira. No GP de San Marino da F-1, no circuito de Ímola, Ayrton Senna perdeu o controle de sua Williams na curva Tamburello e se chocou com uma parede de concreto.

“É a parte de maior velocidade. Eles vão atingir os 330 quilômetros por hooooora! Senna bateu forte!”, descreveu Galvão Bueno, enquanto as imagens que apareciam na tela da Globo mostravam a pancada e a destruição do carro. O ídolo brasileiro morreu na hora, ao vivo, embora o óbito só tenha sido confirmado horas mais tarde.

Show do basquete – 1994

Em 1994, a Bandeirantes já havia se estabelecido como “o canal do esporte”, apelido que era repetido por seus locutores e se justificava por toda uma programação voltada ao assunto. Entre os anos 1980 e 1990, marcou época o “Show do Esporte”, idealizado por Luciano do Valle, uma maratona dominical que chegou a ter dez horas de duração.

E foi Luciano o responsável por apresentar a histórica conquista da seleção feminina de basquete, campeã mundial. Na Austrália, depois de eliminar os favoritos Estados Unidos, o time de Hortência, Paula e Janeth fez 96 a 87 na China e sentiu “o perfume do título”, como descreveu o narrador. “O Brasil é campeão do mundo! Como é difícil ser campeão do mundo!”

É tetra – 1994

Dois meses e meio depois de narrar a morte de Ayrton Senna e levantar a voz com o susto da batida, Galvão Bueno pôde gritar com um sentimento bem diferente na Copa do Mundo. Quando o Brasil venceu a Itália nos pênaltis, em um chute de Roberto Baggio por cima, após empate por 0 a 0, o locutor começou a berrar “é tetra, é tetra, é tetra”, abraçado ao então comentarista Pelé.

A imagem é tão marcante quanto alguns lances daquele Mundial, realizado nos Estados Unidos e exibido também por outras duas emissoras brasileiras. O SBT, que tinha Luiz Alfredo como narrador e Telê Santana como comentarista, animava suas transmissões com o Amarelinho, mascote desenhado que aparecia na tela. Na Bandeirantes, a voz era novamente Luciano do Valle.

Surgimento de Guga – 1997

Gustavo Kuerten era basicamente um desconhecido, em 1997, quando começou a construir seu reinado em Roland Garros. O tenista de 20 anos foi surpreendendo ao deixar adversários duros para trás, como Thomas Muster e Yevgeny Kafelnikov, até chegar à decisão contra o espanhol Sergi Bruguera e atropelá-lo por 3 sets a 0.

Toda a campanha foi exibida pela TV Manchete e narrada por um embasbacado Rui Viotti, que não parava de exaltar o talento do garoto catarinense. A hoje extinta emissora liderou a audiência com a transmissão de uma partida de tênis, longe de ser um esporte popular naquele momento. E Guga deu início a uma trajetória de amor com Roland Garros, torneio que venceria ainda em 2000 e 2001.

'Rrrrrronaldinho' e o penta – 2002

Depois de narrar o tetra em 1994 e segurar o grito em 1998, Galvão Bueno pôde soltar a voz com o penta em 2002, na Copa do Mundo disputada no Japão e na Coreia do Sul. Em uma jornada de redenção de Ronaldo, o Brasil derrotou a Alemanha por 2 a 0, na japonesa Yokohama, e voltou a levantar o troféu.

“Éééééé... do Brasil! Rrrrrrronaldinho”, vibrou o locutor da Globo, nos dois gols marcados sobre o goleiro Oliver Kahn –eleito, em uma votação realizada antes da decisão, o melhor jogador da competição. Aquele Mundial foi exibido também pelo SporTV, canal por assinatura ligado à Globo, com narração de Luiz Carlos Júnior.

Festa inédita na piscina – 2008

O Brasil comemorou nos Jogos de Pequim aquele que é até hoje seu único ouro olímpico na natação. Depois de conquistar o bronze nos 100 m livre, o jovem Cesar Cielo, de 21 anos, prometeu que lutaria por uma medalha de outra cor nos 50 m livre e cumpriu sua palavra ao vencer a final em 21s30.

O momento foi devidamente registrado na empolgação de Galvão Bueno, que vibrou na Globo: “Saiu rasgando Cesar Cielo... Vamos, Cielo, vamos, Cielo, vamos, Cielo, vamos, Cielo, é ouro, é ouro, é ouro, é ouro, é ouro, é ouro do Brasil!”. Naquela edição da Olimpíada, exibida também pela Band na TV aberta, triunfaram ainda Maurren Maggi no salto em distância e a seleção feminina de vôlei.

Passeio alemão no Mineirão – 2014

Quase um personagem do tetra, pela narração histórica da conquista de 1994, Galvão Bueno também tem a voz ligada ao maior fracasso do Brasil em qualquer edição da Copa do Mundo. Jogando em casa no Mundial de 2014, a equipe de Luiz Felipe Scolari levou 7 a 1 da Alemanha nas semifinais.

Frases como “lá vêm eles de nooovo” e “virou passeeeio” são a ilustração sonora do que se viu no Mineirão, uma jornada desastrosa para os brasileiros transmitida pela Globo e pela Band –que já não contava com Luciano do Valle, morto meses antes e substituído por Téo José. Houve ainda exibições ao vivo nos canais por assinatura SporTV, ESPN Brasil e Fox Sports.

Olimpíada brasileira – 2016

A primeira edição dos Jogos Olímpicos realizada no Brasil recebeu, claro, atenção das emissoras do país. Globo, Band e Record foram os canais abertos que transmitiram as modalidades disputadas no Rio de Janeiro até a bonita festa de encerramento, com animada presença das escolas de samba fluminenses no Maracanã.

Os anfitriões conquistaram sete medalhas de ouro, seis de prata e seis de bronze. O futebol brasileiro finalmente venceu, com Neymar. Também se deu bem, novamente, a equipe masculina de vôlei. Triunfaram ainda Rafaela Silva (judô), Thiago Braz (salto com vara), Robson Conceição (boxe), Martine Grahel/Kahena Kunze (vela) e Alison/Bruno Schmidt (vôlei de praia).

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