Descrição de chapéu Humanos da Folha

Veemência das charges de Belmonte irritou até o regime nazista

Chargista começou a trabalhar na Folha da Noite em 1921 e consagrou-se com a criação do personagem Juca Pato

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São Paulo

Para aqueles que duvidam da força da crítica política ou social inserida numa charge, a história do paulistano Belmonte é uma prova incontestável.

Sem ultrapassar fisicamente os limites geográficos da região central da capital paulista, chegou a incomodar até a cúpula do regime nazista em plena Segunda Guerra Mundial.

charge mostra hitler usando vestidos e saiotes
Reprodução de charge do cartunista Belmonte publicada na Folha da Noite - Eduardo Knapp/Folhapress

Belmonte não pode deixar de figurar entre os homenageados no centenário da Folha, comemorado no ano que vem. Em fevereiro de 1921, na criação do vespertino Folha da Noite, o cartunista já integrava a equipe da Redação.

Então com 24 anos, Benedito Carneiro Bastos Barreto foi contratado por seus trabalhos publicados desde a adolescência em revistas de sucesso, como A Cigarra, D. Quixote e a satírica O Pirralho, lançada pelo escritor Oswald de Andrade em 1911.

Assinadas como Belmonte (pseudônimo que ele mesmo criou, mas relutou um pouco a assumir), suas charges atacavam com veemência os problemas políticos, sociais e econômicos, e eram extremamente populares.

Em 1925, a empresa lançou um segundo jornal, Folha da Manhã. Belmonte passou a trabalhar nas duas edições diárias, mas teve uma ideia para inovar suas charges no matutino. E fez história no humor brasileiro.

Numa época em que os desenhistas arriscavam pouco em personagens fixos, Belmonte criou Juca Pato, sua expressão do “homem comum”

desenho de homem com guarda-chuva preto em que se lê "soberania popular" e atrás dele uma imensa nuvem escura em que se lê "impostos"
Reprodução de charge do cartunista Belmonte publicada na Folha da Noite - Marcelo Justo - 11.mar.2013/Folhapress

Outros autores se esforçavam para inventar tipos de visual marcante, com características físicas exageradas, como cabeça grande, narigão ou pernas desproporcionais. Traços caricaturescos que serviam para dar uma cara única e diferenciada ao personagem.

Belmonte foi na direção contrária. Careca, magro, de estatura mediana e usando óculos, Juca Pato era visualmente enxuto. O chargista quis uma figura discreta, alguém que pudesse ser qualquer um. A força do humor estava no redemoinho de situações absurdas em que Juca Pato era jogado no dia a dia paulistano.

Radiografia inteligente e mordaz dos problemas da cidade, a arte de Belmonte escancarou o comportamento corrupto das autoridades e as situações ridículas e surreais impostas pelo funcionalismo público ao cidadão. E sem mostrar nenhum alento ao pobre sujeito vilipendiado pelos poderosos. Um resignado Juca Pato repetia seu bordão: “Podia ser pior”.

A identificação do leitor paulistano com Juca Pato transformou o personagem num precursor de uma mecânica de merchandising que só se estabeleceria no mundo décadas depois.

Sua figura apareceu em rótulos e propagandas de vários produtos, ajudando a vender cigarros, balas, biscoitos, água mineral e até água sanitária. Ele estrelou novelas de rádio e marchinhas de Carnaval, e seu nome foi parar na placa de um bar badalado, ponto de encontro da intelectualidade paulistana.

Em 1926, Belmonte publicou o primeiro de seus livros, “As Angústias de Juca Pato”, coletânea de charges. Quatro décadas depois, a partir de 1963, Juca Pato passou a dar nome a um prêmio literário anual importante, concedido até hoje pela União Brasileira de Escritores.

Em 1929 e 1930, a maior parte das charges de Belmonte nos jornais tinha clara intenção de importunar Getúlio Vargas e a Aliança Liberal, união política gaúcha e mineira que apoiou a candidatura de Vargas à Presidência, em março de 1930.

O paulista Júlio Prestes ganhou a eleição, mas não foi empossado. Vargas tomou o poder em outubro, na Revolução de 1930, para permanecer 15 anos à frente do país.

Belmonte seguiu como chargista do jornal, mas ampliou o alcance de seus trabalhos. Também pintor e escritor, publicou dois livros de crônicas de humor, “Assim Falou Juca Pato (Aspectos Divertidos de uma Confusão Dramática)”, de 1933, e “Ideias de João Ninguém”, de 1935. Na mesma época, começou a trabalhar numa obra ambiciosa, que só lançaria em 1940, “No Tempo dos Bandeirantes”, livro em que conta em textos e ilustrações os primeiros séculos da cidade de São Paulo.

Em 1937, saiu publicada a primeira edição de “O Poço do Visconde”, livro de Monteiro Lobato com ilustrações de Belmonte. Ele trabalharia em outras obras do escritor nos dez anos seguintes, e algumas das edições dessa parceria têm exemplares originais arrebatados a preços altos nos sebos.

Também em 1937, Vargas reforçou ainda mais seu poder no país com o golpe que deu origem ao Estado Novo, que vingaria até 1945. No dia da instauração do regime autoritário, Belmonte publicou uma charge em que Juca Pato lia trecho da Constituição Americana diante da Estátua da Liberdade.

Ele seguiu sofrendo pressão do governo. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939 por Vargas para censurar os jornais, determinou que dali em diante Belmonte só poderia tratar de temas políticos internacionais.

Com a Segunda Guerra em andamento, o chargista transformou Hitler no alvo principal de seu humor cada vez mais ácido. Até o final de 1944, mais de 400 charges de Belmonte com a figura do ditador alemão foram publicadas.

A repercussão foi internacional. Em janeiro de 1945, Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha Nazista, dedicou boa parte de uma transmissão de rádio a atacar os desenhos de Belmonte.

Goebbels chegou a questionar se o autor das charges era brasileiro e disse que certamente era um artista pago por americanos e ingleses para ridicularizar Hitler.

Uma amostra significativa dessa produção de Belmonte durante a Segunda Guerra Mundial foi editada em 1948, no livro “Caricatura dos Tempos”. Trata-se de uma publicação póstuma.

Belmonte morreu em 19 de abril de 1947, aos 50 anos, de tuberculose. O documentário em curta-metragem “Belmonte” (1981), dirigido por Ivo Branco, conta que, perto de morrer, ele pediu que o levassem de carro para um passeio noturno em São Paulo. Queria um olhar derradeiro.

Nascido no Brás e tendo morado toda a vida na cidade, Belmonte deixou como legado uma crônica ao mesmo tempo carinhosa e implacável de São Paulo. É um retrato plural, espalhado em 25 anos de charges na Folha e quase duas dezenas de livros, entre caricaturas, crônicas, estudos de história e literatura infantil.​

Benedito Carneiro Bastos Barreto, o Belmonte (1896-1947)

Nascido no Brás, em São Paulo, começou a trabalhar na Folha da Noite em 1921, ano em que o jornal foi lançado. Consagrou-se com a publicação de charges mordazes e com a criação do personagem Juca Pato.

Este texto faz parte do projeto Humanos da Folha, que apresenta perfis de profissionais que fizeram história no jornal.

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