Saltar para o conteúdo principal
 
26/10/2017 - 09h01

Leia trecho de "A Noite da Espera", novo romance de Milton Hatoum

da Livraria da Folha

Divulgação
Novo livro de Milton Hatoum acompanha período de formação de um grupo de jovens durante os anos de chumbo
Novo livro de Milton Hatoum acompanha período de formação de um grupo de jovens durante os anos de chumbo

Quebrando um jejum de nove anos sem publicar desde "Órfãos do Eldorado", Milton Hatoum lança pela Companhia das Letras o romance "A Noite da Espera", primeiro volume da trilogia "O Lugar Mais Sombrio".

A trama ambientada em São Paulo, Paris e Brasília tem o período da ditadura militar como pano de fundo.

Nos anos 1960, Martim, um jovem paulista, muda-se para Brasília com o pai após a separação traumática deste e sua mãe. Na cidade recém-inaugurada, ele trava amizade com um variado grupo de adolescentes.

Romance de formação, o livro acompanha o amadurecimento sentimental, político e cultural destes jovens.

Descobertas culturais e amorosas e a dor da separação da mãe formam essa gangorra emocional na vida de Martim.

Nascido em Manaus em 1952, Milton Hatoum estudou arquitetura na USP e estreou na ficção com "Relato de um Certo Oriente", publicado em 1989 e vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance do ano. É autor de "Dois Irmãos", que também ganhou um Jabuti e foi adaptado para a televisão, teatro e quadrinhos.

Lançou também "Cinzas do Norte" e "A Cidade Ilhada". É colunista dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "O Globo".

Leia abaixo um trecho de "A Noite da Espera".

*

Inverno e silêncio. Nenhuma carta do Brasil.

Paris, dezembro, 1977

Cidade gelada, nem sempre silenciosa: algazarra de turistas na travessia de uma ponte sobre o Sena. Somos do mesmo país, andamos para margens opostas. Essas gargalhadas e vozes são verdadeiras?

Hoje, em Neuilly-sur-Seine, meu aluno francês me ofereceu café e quis conversar um pouco sobre o Brasil. O bate-papo, de início besta, aos poucos rondou um assunto mais cabeludo, que logo ficou grave; para ir da gravidade ao terror político bastaram duas xícaras de café e uns biscoitos. No fim, meu aluno, mudo, pagou os quarenta francos da aula e me deu dez de gorjeta. Foi o lucro desta tarde fria e cinzenta.

Embolsei os francos e caminhei pelo Bois de Boulogne: árvores sem folhas, uma fina camada de gelo no solo, canto de pássaros invisíveis. A quietude foi assaltada por lembranças de lugares e pessoas em tempos distintos: Lázaro e sua mãe no barraco de Ceilândia, a voz do Geólogo no campus da Universidade de Brasília, a aparição de uma mulher no quarto de um hotel em Goiânia, o embaixador Faisão recitando versos de um poeta norte-americano: "Apenas mais uma verdade, mais um/ elemento na imensa desordem de verdades...".

Outro dia vi o rosto de Dinah, segui esse rosto e deparei com uma francesa, que se surpreendeu com o meu olhar; outros rostos brasileiros apareceram em museus, na entrada de um cinema em Denfert, nas feiras da cidade.

Peguei o metrô até Châtelet, toquei violão no subterrâneo abafado e me lembrei das lições de música da Cantora. Não ouvi a língua portuguesa na plataforma nem nos corredores, peguei as moedas na capa do violão e andei pelo Marais até o Royal Bar. Um conhaque. Abri meu caderno de anotações e esperei meus três amigos, brasileiros. Marcamos às sete da noite.

Pessoas encapotadas passam na calçada da Rue de Sévigné, vozes enchem o Royal Bar, lá fora um saltimbanco atravessou o ar gelado e pediu uma moeda a uma mulher.

Oito e quinze da noite. Damiano Acante, Julião e Anita furaram.

Nem tudo é suportável quando se está longe...

A memória ofusca a beleza desta cidade.

Meu senhorio é um casal angolano que fugiu da guerra. Durmo neste quartinho em forma de trapézio; o teto é inclinado, só posso ficar de pé quando me aproximo da mesinha encostada na parede da janela. Almoço por aqui mesmo, num bistrô da Rue de la Goutte-d'Or, ou do Boulevard de la Chapelle, a caminho do metrô; depois atravesso a cidade para dar aulas particulares, na hora do rush desço na estação Châtelet, ganho uns trocados com a voz e o violão, e volto a Aubervilliers depois das dez da noite, quando os dois angolanos dormem. Ele é porteiro de um hotelzinho do bairro, e a mulher está desempregada. Conversam pouco comigo, sempre em português, e entre eles falam em quimbundo.

Hoje acordei assustado, levantei para beber água e bati a cabeça no teto baixo. Manhã escura, meu mau humor cresceu com a lembrança do sonho.

De noitinha, fui ver Julião e Anita num café do Boule-vard Arago. Julião me deu uma caderneta de capa verde, manchada, folhas enrugadas. Li na primeira página um poema de Ox e tentei decifrar os garranchos das outras.

"Meus últimos dias no Brasil, Martim. A debandada geral, cara... Lúcifer solto na Pauliceia. Não quero guardar a porra desse diário. Se eu reler esses rabiscos, vou sentir mais saudade dos amigos, da escola de samba e da Vila Madalena. A saudade destrói e seca o coração."

"Eu também fiz anotações", disse Anita. "Acho que esqueci a caderneta em São Paulo, na casa do Ox. Eu tinha anotado a primeira noite com o Julião e outras coisas da nossa república na Vila Madalena."

Quando Julião foi atender um cliente, Anita disse que ele estava desanimado com a vida em Paris. "Não sei se é o inverno ou a língua, Martim. Ele está aprendendo francês, mas ainda se atrapalha muito. Fala fazendo mímica, é o mímico deste bar. Os clientes se divertem quando ele gagueja em francês, faz mímica e diz baixinho: 'Pardon, pardon'. Ganha uns trocados com o show, depois solta uns palavrões em português. No fim da noite, ele se lembra do Brasil e fica na fossa. Com tanta saudade assim, acho que vai adoecer."

*

A NOITE DA ESPERA
AUTOR Milton Hatoum
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 31,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

-

 
Voltar ao topo da página