Saltar para o conteúdo principal
 
23/11/2010 - 11h19

"O Alufá Rufino" conta história de escravo que foi vendido para traficantes brasileiros

da Livraria da Folha

Divulgação
Rufino foi adquirido por traficantes brasileiros e levado para Salvador
Rufino foi adquirido por traficantes brasileiros e levado para Salvador

Além de analisar o contexto histórico do Brasil e da África no século 19, "O Alufá Rufino" (Companhia das Letras, 2010) percorre a biografia de Rufino José Maria, que foi escravizado durante a adolescência por um grupo étnico rival.

Rufino nasceu no antigo reino africano de Oyó. Na adolescência, foi escravizado por um grupo étnico rival.

Foi adquirido por traficantes brasileiros e levado para Salvador, na Bahia. Após muito sofrimento, obteve sua alforria. Tornou-se então cozinheiro assalariado de navios negreiros.

Mais velho, ele se mudou para o Recife, onde adquiriu o posto de alufá --guia espiritual da comunidade de negros muçulmanos.

Escrita por João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus Joaquim de Carvalho, a trama documenta as aventuras desse ex-escravo africano.

Leia abaixo um trecho do capítulo inicial da obra.

*

Rufino disse ser filho do reino de Oyó, provavelmente sua capital Oyó Ilê, onde nasceu no início do século XIX. Oyó destacou-se como um dos Estados mais poderosos da região interior do golfo de Benim, chegando a controlar durante largo período no século XVIII e início do XIX a maioria dos reinos localizados em território iorubá. Além disso, submeteu os reinos de Daomé a oeste, Borgu ao norte e Nupe a nordeste, que se tornariam seus tributários. Oyó dominava importantes rotas de comércio de escravos que vinham do interior até portos dos golfos de Benim e de Biafra. Parte importante do poderio militar de Oyó, com destaque para sua cavalaria, ímpar na região, vinha dos recursos obtidos de sua ativa participação no tráfico de gente.

No alvorecer do século XIX, Oyó já enfrentava alguns desafios à sua hegemonia na região. Daomé e Nupe lutavam para sair da sua órbita de influência e, mais importante, o reino foi abalado por dissensões internas. Em torno de 1796, um guerreiro chamado Afonjá, o are-ona-kakanfo (ou comandante em chefe do Exército provincial de Oyó), se rebelou contra o recém-empossado alafin (rei de Oyó) sob alegação de que esse cargo lhe cabia por mérito e direito de linhagem. Afonjá, além de importante chefe militar, era o líder político (ou baálè) da cidade de Ilorin, que ficava a sudeste de Oyó Ilê.

Sediado em Ilorin, Afonjá resistiu à autoridade do alafin durante duas décadas e, em 1817, decidiu jogar uma cartada decisiva ao incitar uma grande rebelião escrava em Oyó. Pois esse poderoso reino, além de promover o tráfico de escravos, era destes grande consumidor, ou seja, tratava-se de um Estado traficante à testa de uma sociedade escravista. A maioria dos escravos de Oyó vinha de territórios situados ao norte do reino, e entre eles a maior parte era haussá e muçulmana. Os povos de língua haussá ocupavam vasto território situado no norte da atual Nigéria, e ali um Estado muçulmano - o califado de Sokoto - foi formado em torno de 1809 sob a liderança dos fulânis, importante grupo étnico presente na região, obstinados devotos do Islã e responsáveis por um jihad iniciado em 1804.

Liderado por Usuman Dan Fodio - homem letrado, autor de eruditas obras religiosas, também poeta -, o jihad representou uma virada radical na história dos haussás e povos vizinhos. Inicialmente, a guerra santa teve como alvo principal os chefes haussás, acusados de oprimir os bons muçulmanos e de tolerar um estilo de islamismo sincretizado com a religião "pagã" local. Muitos adeptos desta, todavia, lutaram ao lado dos guerreiros do jihad com vistas a se verem livres de lideranças políticas amiúde tirânicas. Os haussás escravizados em Oyó eram principalmente vítimas desse conflito político-religioso que revolucionou a região, um movimento sobretudo de reforma muçulmana, de muçulmanos ortodoxos contra outros, acusados de relaxados, que no entanto evoluiu para uma guerra de expansão por todo o território haussá e para além de suas fronteiras, inclusive o país iorubá de Rufino. A revolta dos escravos haussás de Oyó, em 1817, marcaria o início da penetração muçulmana em larga escala entre os iorubás.

 
Voltar ao topo da página