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07/11/2010 - 16h18

Alvo de veto por racismo, obra de Lobato pinta governo como rinoceronte ineficiente

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro estimula imaginação das crianças, diz especialista
Livro estimula imaginação das crianças, diz especialista
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Livro premiado pelo Jabuti explica bibliografia de Lobato
Livro premiado pelo Jabuti explica bibliografia de Lobato

"Caçadas de Pedrinho", lançado em 1933 pelo escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948), foi acusado pelo CNE (Conselho Nacional de Educação) de um suposto teor racista. Por isso, recomendou, em parecer, que a obra não seja distribuída pelo governo nas escolas públicas. O Ministério da Educação pediu que o CNE reveja o parecer. Mas, afinal, o livro é racista?

Não, segundo especialistas na obra de Lobato, "Caçadas de Pedrinho" permite aos pequenos uma reflexão sobre a realidade brasileira, é ousado por usar recursos de humor e ironia, estimula a imaginação das crianças e apresenta uma denúncia contra a burocracia oficial pintando o governo como um paquiderme, comparado a um rinoceronte sem agilidade nem iniciativa para resolver problemas simples, como uma invasão de onças em um sítio. As crianças são os heróis da história: usam pernas de pau ensebadas para escapar dos bichos selvagens.

Todas as análises e bastidores de construção dessa obra estão minuciosamente relatados num livro de 512 páginas premiado no ano passado. Vencedor do Jabuti 2009 na categoria não ficção, "Monteiro Lobato: Livro a Livro" mobilizou uma equipe de pesquisadores universitários para examinar frase por frase toda a bibliografia de Lobato, as cartas que ele recebia dos leitores, suas entrevistas à imprensa, ou seja, tudo para esclarecer suas inspirações, processo de construção dos textos, repercussão de seus títulos.

Segundo o CNE, o racismo estaria presente, entre outras passagens, na abordagem da personagem Tia Nastácia e de animais como o macaco e o urubu. Uma delas diz: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão".

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Para "Monteiro Lobato: Livro a Livro", o autor foi pioneiro em valorizar o folclore brasileiro na literatura infantil, a linguagem coloquial e a cultura da zona rural do país em um contexto histórico de sua época.

Leia trecho do capítulo de "Monteiro Lobato: Livro a Livro" sobre a "Caçadas de Pedrinho", escrito por Jaqueline Negrini Rocha, mestre em teoria e história literária pela Unicamp e autora da dissertação "De caçadas às caçadas: O processo de re-escritura lobatiano de Caçadas de Pedrinho a partir de A Caçada da Onça".

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Reprodução
Nesta obra, Lobato é elogiado por usar metalinguagem, ironia e humor, além de crítica à ineficiência estatal
Obra de Lobato é elogiada por crítica à ineficiência estatal e uso de metalinguagem

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

Caçadas de Pedrinho

Já em sua versão definitiva, a obra "Caçadas de Pedrinho" apresenta doze capítulos e é, normalmente, dividida por estudiosos em duas partes: a caçada à onça e a caçada ao rinoceronte.

A primeira parte trata da investida e do êxito das crianças na caça de uma onça no Capoeirão dos Taquaruçus, lugar onde Dona Benta "não deixava que os meninos fossem passear", proibição que não os impede de sair em busca do animal. A morte da onça assusta todos os habitantes da mata e eles decidem, por meio de uma assembléia, invadir o Sítio do Picapau Amarelo, clamando por vingança e justiça. Emília é avisada desse revide por dois besouros, seus espiões, e uma solução para enfrentá-la é encontrada pela turma do Sítio do Picapau Amarelo, que nessa obra é acrescida de Cléu, uma leitora - filha do amigo e sócio de Monteiro Lobato, Octales Marcondes - transformada em personagem. A solução é o uso de pernas-de-pau e de granadas de cera, que continham vespas e maribondos, jogadas sobre os atacantes, para afugentá-los.

A segunda parte narra a fuga de um rinoceronte do circo, seu aparecimento no Sítio e as tentativas de sua captura pelo "Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte", cuja única finalidade era "não encontrar o paquiderme". Emília, tornando-se amiga do bicho, decide ajudá-lo e, para tal, faz as armas dos detetives falharem e Quindim, o rinoceronte, atacá-los. Consegue, também, espantar o seu verdadeiro dono, que aparece no Sítio para recuperar o animal.

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Estatueta do Jabuti
Obra ganhou estatueta do Jabuti

A narrativa é quase toda conduzida em linguagem coloquial, com traços do discurso oral, e a posição do narrador assemelha-se à de um contador de histórias que, em alguns momentos, dirige-se a um interlocutor. "A bala de pedra rolou a dois passos de distância, imaginem!".

Esses apelos ao leitor produzem um maior envolvimento deste com a narrativa. criam certo tom de aventura e tornam a situação de leitura mais próxima do universo infantil. Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde de Sabugosa e Rabicó continuam sendo os heróis da aventura. Consideram a caçada uma atividade para pessoas corajosas, não necessariamente as mais velhas: "Vovó e tia Anastácia são gente grande e, no entanto, correm até de barata. O que vale não é ser gente grande, é ser gente de verdade". Satirizam, portanto, o mundo adulto, relacionando-o ao medo, à aflição e à covardia.

Na composição das frases, estão presentes neologismos, como "pernejando pernilongalmente", e onomatopéias: "Os besouros admiraram-se da esperteza da boneca e partiram - zunn! - a fim de cumprir as ordens recebidas" e "Aproximou-se do telhado, tomou as granadas e -zás! - arremessou-as contra o bando de feras". Tais recursos parecem conferir ao discurso maior ação e comunicabilidade, além de tornar as cenas mais dinâmicas.

O narrador simula partilhar o desconhecimento do leitor sobre o desencadear dos acontecimentos, ao fazer suposições a respeito da narrativa semelhantes às que um leitor faria. Por ignorar a seqüência de ações, o leitor necessita presumir; e, acirrando esse procedimento, o narrador não revela tudo o que sabe, como no trecho a seguir: "Granadas de cera, do tamanho de laranjas-baianas! Ou a boneca estava de miolo mole...ou... Em todo o caso, como a Emília era uma danadinha capaz de tudo, os meninos e as velhas sossegaram um pouco mais".

Não se limitando a narrar, o narrador também participa da história. Ora emite julgamentos, como : "Rabicó tinha duas pernas mais que os outros, inutilíssimas pernas, porque se uma criatura pode viver muito bem com duas, ter quatro é ter pernas demais", ora tece comentários a respeito das situações vividas pelas personagens: "A situação tornava séria". Em conseqüência, aguça a curiosidade do leitor, como vem fazendo, aliás, desde o início da narrativa.

O clima de mistério e suspense que envolve o narrador é reforçado ainda por Emília, quando ela não permite às demais personagens (e nem aos leitores!) conhecerem, antes do momento final, a composição das "granadas de cera". A boneca provoca a curiosidade e estimula a imaginação de todos, ao destacar o fato de que aquela descoberta seria o clímax da aventura, aludindo metalingüisticamente à situação de leitura, ao inserir na narrativa a palavra "capítulo": "A primeira coisa que lá de cima viram foram as granadas de cera de Emília, arranjadinhas sobre o telhado. Pedrinho quis examiná-las. Não pôde. A boneca espantou-o com um grito - Não se aproxime! Não bula, não me estrague o capítulo!..."

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Procedimento narrativo contrário a esse - mas com efeitos igualmente envolventes - ocorre quando, ao invés de o narrador esconder, ele antecipa ações subseqüentes, intrometendo-se na narrativa: "Mas isso de preferir que as onças nos comam vivos é conversa. Na hora em que onça aparece, até em pau-de-sebo um aleijado é capaz de subir. A pobre da tia Nastácia ia ficar sabendo disso no dia seguinte..."

O suspense, fator tão valorizado nas histórias de aventura, é mantido, portanto, por esse jogo do narrador de revelar e esconder.

O narrador vale-se da metalinguagem e da metaficção, ao usar o vocábulo "capítulo", recurso bastante ousado, tendo em vista o público a quem se destina o texto, para lembrar o leitor de seu papel na história - o de mero expectador das aventuras. Esse procedimento poderia, talvez, configurar quebra do suspense, pois o leitor é alertado de que se trata de uma "episódio de uma história". Porém, a protelação do segredo que envolve a solução encontrada por Emília para se safarem das onças parece garantir a permanência do mistério e do tom de aventura.

Para se defenderem do ataque das onças, as crianças adotam como estratégia o uso de pernas-de-pau ensebadas. O aumento de altura pode ser lido como uma alusão ao crescimento e, conseqüentemente, ao universo adulto, contrariando assim uma interpretação que leia literalmente a afirmação das crianças enquanto agentes solucionadores dos problemas. De qualquer forma, porém, a alternativa encontrada envolve a fantasia do universo infantil: entram em cena a imaginação, um brinquedo e a capacidade dos pequenos de encontrarem uma solução inventiva, improvável de ocorrer aos adultos.

A transposição de elementos do mundo real para a ficção é maior na segunda parte do livro "As Caçadas de Pedrinho". Na caçada ao rinoceronte, iniciada no capítulo "VIII - Os negócios de Emília", a fantasia mescla-se às severas críticas à burocracia brasileira. Enquanto, na primeira parte de "Caçadas de Pedrinho", predomina a ação das crianças, cujas falas também ocupam grande espaço da obra, nessa segunda parte o discurso do narrador é que sobressai: narram-se, sobretudo, os atos dos adultos na caça ao rinoceronte. A fala do narrador ocupa mais espaço, expressando sua opinião por meio do humor e da ironia. Faz, dessa maneira, a denúncia da ineficiência estatal de modo sutil, mais por sugestão do que por ataque direto:

"Esse caso causou o maior rebuliço no Brasil inteiro. Os jornais não tratavam de outra coisa. Até uma revolução, que estava marcada para aquela semana, foi adiada, porque os conspiradores acharam mais interessante acompanhar o caso do rinoceronte do que dar tiro nos adversários.

"UM RINOCERONTE INTERNA-SE NAS MATAS BRASILEIRAS", era o título da notícia que vinha em letras graúdas em todos os jornais. Durante um mês ninguém cuidou de mais nada. Grande número de bombeiros e soldados da polícia foram imobilizados. Os melhores detetives do Rio aplicavam toda a sua esperteza em formar planos para a captura do misterioso animal. As forças do Norte que andavam caçando o Lampião deixaram em paz esse bandido para também se dedicarem à caça do monstro. Dizem até que o próprio Lampião e seus companheiros pararam de assaltar as cidades para se entregaram ao novo esporte - a caça ao rinoceronte."

A narrativa, ao ser construída pela ironia, recurso literário bastante apurado na literatura infantil de Lobato, desfaz qualquer possível autoritarismo do narrador, posto que a denúncia não é expressa diretamente por um narrador que se vale de sua onisciência para inculcar seus conhecimentos nos leitores. Prevê, aliás, o contrário: leitores que percebam esses elementos irônicos e dêem sentido ao texto, re-significando-o. Quando a denúncia se alia ao humor, ela se torna mais implacável.

A presença ativa do leitor torna-se aqui fundamental, devendo ele questionar o que o narrador conta e suspeitar da sua intenção ao narrar, por diversas vezes, as atitudes dos funcionários estatais. As peripécias dos detetives que integram o "Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte" são ironicamente qualificadas como "grandiosas". Suas providências para caçar o paquiderme são questionáveis; baseiam-se em suposições aparentemente complexas, entretanto desprovidas de qualquer fundamento prático, como, por exemplo, a instalação de uma linha telefônica para ligar a casa de Dona Benta ao acampamento, com o propósito de discutir com a moradora os detalhes da caça. A falta de eficácia e de capacidade técnica dos burocratas, diante da impraticabilidade e da inutilidade dos meios por eles agenciados, são questões colocadas ao leitor, fazendo-o refletir.

Os habitantes do Sítio do Picapau Amarelo não se calam diante da maneira como a caçada é conduzida e contestam a autoridade do governo. Cabe a eles também emitir pareceres sobre o assunto, e o fazem de forma direta: "- Mas por que não discutiu isso durante a semana em que o rinoceronte andou sumido e a passagem pela porteira esteve completamente franca? Acho que Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso" e "Considerava uma súcia de idiotas, um verdadeiro bando de exploradores".

O governo, assim, é apresentado como uma entidade misteriosa, que se pauta por razões obscuras e que não pode ser contrariado. Emília, por exemplo, pede ao rinoceronte que ele volte a deitar-se em frente à porteira, sem o que não pode ser inaugurada a linha telefônica, cuja construção precisava ser justificada. Como o governo também não pode ser desrespeitado, Cléu transmite um recado de Dona Benta aos burocratas "com outras palavras para não ofender o governo". Por não estabelecer os critérios pelos quais toma decisões, o governo acaba sendo mitificado: "Diz Cléu que são "coisas do governo", um puro mistério. O rinoceronte ficou pensativo. Devia ser uma bem estranha criatura esse tal governo, que fazia coisas acima do entendimento até de Emília!.

A razão da inclusão de uma fera africana em um cenário tipicamente rural e brasileiro, que contribui para a originalidade deste livro, é relatada por Monteiro Lobato em entrevista concedida a Silveira Peixoto, da "Gazeta Magazine":

-...Por que pôs um rinoceronte no sítio de dona Benta? Um animal que não é brasileiro...

- Exatamente por isso. Para fazer uma coisa diferente. Resolvi arranjar um bicho contrário ao cachorrinho ou ao coelhinho clássicos. Mas na realidade eu não introduzi deliberadamente um rinoceronte em minhas histórias. Aquele rinoceronte fugiu certa vez de um circo no Rio de Janeiro, afundou no mato e foi parar no sítio de dona Benta. De lá entrou muito naturalmente nos livros. Coisa muito mais do rinoceronte do que minha.

Mas a imagem do rinoceronte como animal feroz, tal como este fora mostrado no início da narrativa, é superada pela aparência de um bicho de gestos pachorrentos, deitado atravessado à porteira. Essa imagem poderia, talvez, representar o governo e suas medidas que, também, não demonstram agilidade nem iniciativa.

Assim, por meio dos recursos do humor e da ironia, aliados à fantasia e ao senso lúdico, o leitor apreende o sentido da denúncia, presente na narrativa, e a crítica a obras públicas desnecessárias, luxuosas e demoradas. Monteiro Lobato possibilidade aos leitores não só uma grande aventura, mas também uma intensa reflexão sobre a realidade brasileira.

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Mike Baltzer/AP/WWF
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