Saltar para o conteúdo principal
 
13/11/2012 - 13h30

No aniversário de Stevenson, leia trecho de 'O Médico e o Monstro'

da Livraria da Folha

Lloyd Osbourne /Domínio Público
Stevenson, autor de "O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde"
Stevenson, autor de "O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde"

No dia 13 de novembro de 1850, em Edimburgo, na Escócia, nascia Robert Louis Stevenson, autor de "A Ilha do Tesouro" e "O Médico e o Monstro", ou "O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde"

Box reúne cinco autores clássicos da literatura de horror
Siga a Livraria da Folha no Twitter
Conheça nossa página no Facebook

Uma das mais famosas histórias de horror da literatura mundial, "O Médico e o Monstro" apresenta a busca do advogado Utterson por um criminoso nas ruas de Londres do fim do século 19.

Com a saúde debilitada por anos de tuberculose, morre em 3 de dezembro de 1894, aos 44 anos.

Abaixo, leia um trecho de "O Médico e o Monstro".

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

*

A HISTÓRIA DA PORTA

Reprodução
"O Médico e o Monstro" é um clássico da literatura de horror e mistério
"O Médico e o Monstro" é um clássico da literatura de horror

O advogado, Mr. Utterson, era um homem de aparência rude, que nunca se iluminava com um sorriso; frio, restrito e embaraçado no falar; retraído nos sentimentos; magro, comprido, aborrecido, melancólico e, apesar de tudo, amável. Em reuniões com amigos, e quando o vinho era de seu gosto, algo de eminentemente humano brotava de seus olhos; algo que nunca se mostrava em sua conversa, mas que se comunicava não só pelos silenciosos símbolos de sua face após o jantar, como, com maior freqüência e de forma mais perceptível, por seus atos. Era austero consigo mesmo; bebia gim quando estava só, para controlar seu gosto pelo vinho e, embora apreciasse o teatro, não tinha entrado num nos últimos vinte anos. Mas tinha uma comprovada tolerância pelos outros; às vezes se maravilhava, quase com inveja, pela enorme pressão espiritual envolvida em seus maus atos e, em casos extremos, estava sempre mais inclinado a ajudar do que a reprovar. "Eu me inclino pela heresia de Caim", costumava dizer textualmente, "deixo que meu irmão encontre o Diabo por seus próprios meios." Dessa forma, era freqüente que fosse o último amigo de boa reputação, e a última boa influência na vida de homens que decaíam. E sempre que tais homens vinham visitá-lo em seus aposentos, jamais deixou que sequer uma sombra de mudança afetasse seu comportamento.

Sem dúvida que agir dessa forma era fácil para Mr. Utterson, pois ele pouco demonstrava seus sentimentos, e mesmo suas amizades pareciam ser baseadas numa similar tolerância de amável benevolência. Receber seu círculo de amigos, já pronto, das mãos do destino é a marca de um homem modesto; e esse era o caso do advogado. Seus amigos eram aqueles de seu próprio sangue, ou aqueles a quem conhecia há mais tempo; sua afeições, como as heras, eram um desenvolvimento do tempo, não continham nenhuma ação objetiva. Em conseqüência, assim também eram os laços que o uniam a Mr. Richard Enfield, um parente distante, muito conhecido na cidade. Era motivo de especulação para muitos o que esses dois viam um no outro, ou que assunto podiam ter em comum. Diziam aqueles que os encontravam em seus passeios domingueiros, que eles não diziam nada, pareciam estranhamente enfadados, e saudavam com óbvio alívio o encontro de um amigo. Apesar de tudo, ambos davam grande valor a essas excursões, consideravam-nas o ponto alto de cada semana e, além de não trocá-las por outras possibilidades de atividades prazerosas, chegavam a ignorar chamados de negócios para que pudessem apreciá-las sem interrupções.

Numa dessas perambulações, o acaso fez com que seu caminho os levasse a percorrer uma rua secundária, num bairro movimentado de Londres. A rua era pequena e poderia ser considerada tranqüila, embora tivesse um próspero comércio nos dias úteis. Pela aparência, seus habitantes estavam indo muito bem, e com ambições de ir ainda melhor, gastando as sobras de seus rendimentos em sofisticação, de tal sorte que as vitrines das lojas daquela via tinham um ar convidativo, como fileiras de vendedoras. Mesmo aos domingos, quando escondia seus maiores atrativos, e se transformava numa passagem relativamente vazia, o brilho da rua contrastava com sua sombria vizinhança, como um fogo na floresta; e, com pintura nova em suas janelas, suas peças de bronze bem polidas, sua limpeza geral e tom de alegria, era agradável ao olhar e instantaneamente chamava a atenção dos passantes.

A duas portas de uma esquina, à esquerda de quem segue no sentido leste, o alinhamento era quebrado pela entrada de um pátio, local em que o bloco sinistro de um certo prédio avançava seu espigão sobre a rua. O prédio tinha dois andares, nenhuma janela aparente, nada além de uma porta no andar de baixo e uma parede cega e descolorida no superior. Ou seja, tinha todas as características que marcam uma suja e prolongada negligência. A porta, que não tinha sineta ou aldrava, estava cheia de bolhas e descolorida. Mendigos entravam naquele recesso e raspavam seus fósforos nos painéis, crianças brincavam nos degraus, um garoto de escola tinha testado seu canivete na moldura da porta e, por quase toda uma geração, ninguém tinha aparecido para afastar esses visitantes esporádicos, ou para consertar os estragos causados por eles.

Mr. Enfield e o advogado estavam do outro lado da rua, mas quando se colocaram na linha da entrada, o primeiro levantou sua bengala e apontou.

- O senhor alguma vez prestou atenção naquela porta? - perguntou e, quando seu companheiro respondeu afirmativamente, completou: - Em minha mente ela está ligada a uma história muito estranha.

- É mesmo? - disse Mr. Utterson, com uma ligeira mudança em sua voz. - E de que se trata?

- Bem, foi assim - respondeu Mr. Enfield: - Eu estava voltando para casa de algum lugar próximo do fim do mundo, por volta das três horas de uma negra madrugada de inverno, e meu caminho passava por uma região da cidade onde não havia literalmente nada para olhar, exceto os lampiões. Rua após rua, e com todo o povo adormecido - rua após rua, todas iluminadas como se fosse para uma procissão, e todas vazias como uma igreja -, até que finalmente entrei naquele estado mental em que se fica ouvindo, ouvindo, até que se começa a desejar ver um policial. De repente, vi dois vultos: o de um homem de pequena estatura que dava fortes e rápidos passos na direção leste, e o de uma menina de oito ou dez anos, correndo tão rápido como podia por uma rua perpendicular. Bem, naturalmente que os dois se abalroaram na esquina. Então veio a parte horrível, pois o homem calmamente pisoteou o corpo da criança e deixou-a no chão, gritando. A cena não parece muito impressionante quando contada, mas foi diabólica de assistir. Não parecia ser um homem; era mais parecido com um jaganata. Gritei-lhe que parasse, saí em seu encalço, apanhei o homem pelo pescoço e o trouxe de volta para o local onde se encontrava a garota, agora já cercada por em grupo de pessoas. Ele estava perfeitamente frio e não apresentou nenhuma resistência, mas deu-me um tal olhar que fez o suor brotar em mim. As pessoas que tinham aparecido eram familiares da menina, e logo depois o médico, a quem a menina tinha ido chamar, também apareceu. Bem, segundo o médico, a criança não estava mal, apenas assustada, de forma que se poderia supor que fosse o fim da história. Mas havia uma curiosa circunstância. Eu havia detestado o homem à primeira vista. Da mesma forma ocorreu com o pessoal da família, o que era natural. Porém o caso do médico foi o que mais me chamou a atenção. Ele era em prático comum, pragmático, sem idade ou cor definidas, com um forte sotaque de Edimburgo, e tão emotivo como uma gaita de foles. Bem, aconteceu com ele o mesmo que conosco: a cada vez que ele olhava para meu prisioneiro, eu notava que o médico ficava branco e enojado pelo desejo de matá-lo. Eu sabia o que ia por sua mente, assim como ele sabia o que se passava na minha e, uma vez que assassinato estava fora de questão, optamos por fazer o máximo que podíamos. Dissemos ao homem que ali havia matéria para um escândalo, e que era exatamente o que pretendíamos fazer, de tal sorte que seu nome ficaria marcado por toda Londres. Se ele tivesse amigos ou crédito, agiríamos para que os perdesse. E, o tempo todo, enquanto pintávamos a coisa mais e mais feia, tentávamos manter as mulheres afastadas dele, pois elas estavam selvagens como harpias. Nunca vi um círculo de rostos onde o ódio se estampasse daquela maneira. E lá no meio estava o homem, com uma espécie de frieza zombeteira... também tinha medo, eu podia ver isso... mas passava por aquilo tudo, meu senhor, como o próprio Satã. "Se o senhor quiser obter algum capital a partir desse acidente", disse ele, "fico naturalmente à sua mercê. Evitar uma cena é o desejo de qualquer cavalheiro. Faça sua proposta." Bem, nós o apertamos até tirar dele cem libras para a família da criança. Bem que ele tentou evitar, mas havia alguma coisa em nossa aparência que prometia confusão e, finalmente, ele concordou. Em seguida, era necessário buscar o dinheiro; e aonde o senhor imagina que ele nos levou, senão àquele local com a porta? Apanhou uma chave, entrou, e voltou rapidamente com dez libras em ouro e um cheque ao portador, sacado contra o banco Coutts, tendo uma assinatura cujo nome não posso revelar - embora seja um dos pontos de minha história - mas posso dizer que era muito conhecido e aparecia freqüentemente na imprensa. O valor era salgado, mas a assinatura seria boa para bem mais que aquela quantia, desde que fosse verdadeira.

*

"O Médico e o Monstro"
Autor: R. L. Stevenson
Editora: L&PM Editores
Páginas: 112
Quanto: R$ 11,70 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
Voltar ao topo da página