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16/02/2012 - 21h00

Leia trecho de '1961 - O Golpe Derrotado'

da Livraria da Folha
Texto baseado em informações fornecidas pela editora da obra.

A renúncia de Jânio Quadros (1917-1992) em 1961 provocou instabilidade política no Brasil. Em viagem oficial à China, o vice-presidente João Goulart (1919-1976) não sabia se seria empossado ou deposto. No livro "1961 - O Golpe Derrotado", o professor e jornalista Flávio Tavares relata os eventos desse período no Rio Grande do Sul.

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Publicado pela L&PM, o volume descreve os 13 dias em que o país passou por uma guerra civil e viveu uma crise política que desencadeou o golpe de 1964. O autor testemunhou e participou do Movimento da Legalidade junto a Leonel Brizola.

Abaixo, leia um trecho do exemplar.

*

A JANELA OVAL

Reprodução
Escrito por um jornalista que testemunhou e participou do Movimento da Legalidade
Tavares testemunhou e participou do Movimento da Legalidade

Tenso, olhei para o alto e não vi o céu ou o azul das nuvens, nem me interessei pelo sol. Nada disso me importava naquela tarde fria do inverno de agosto de 1961, em que sentíamos calor a cada passo e em cada gesto. Porto Alegre e todo o sul do Brasil tinham ainda temperaturas baixas, e o nevoeiro úmido, às vezes, só se dissipava a partir do meio-dia. Todos vestíamos roupas de lã e, sob o vento gelado, ao abrir a boca exalávamos vapor, lançando um bafo brincalhão sobre as vidraças. E cada vidraça transformava-se em tela de pintura na qual, com o dedo, os tímidos escreviam o próprio nome e os mais atrevidos desenhavam um coração com o nome da amada. Talvez por isso, naquele tempo e naqueles invernos, as janelas exerciam sobre nós um fascínio ingênuo, tão secreto quanto inexplicável.

Olhei para o alto e nada vi. Ou vi apenas o vitral da janela em forma de elipse, no alto da parede do Palácio Piratini. Ali fixei a mirada e, como se aquele calor interno instalado dentro de mim me guiasse em pleno frio, gritei incisivo e forte:

- Um martelo e uma escada comprida, que chegue ao teto! Mas rápido!

O soldado da Brigada Militar do Rio Grande do Sul assentiu com a cabeça, em silêncio, e saiu em correria rumo ao pátio do Palácio, levantando um dos braços ao ar para o fuzil não esbarrar em ninguém.

Pronunciei a frase num tom direto e duro, como uma ordem, não por ter condições de dar ordens ou por ostentar algum posto militar ou civil com autoridade de mando. Eu era tão só um jornalista. Simplesmente, soltei a frase vencido pelo cansaço e guiado por uma espécie de torpor onírico que dava às palavras um ímpeto cru, como aqueles bêbados que esbravejam no auge do porre, mas são suaves e quietos na realidade do dia a dia, quando sóbrios. E o soldado obedeceu, talvez porque fosse treinado para cumprir ordens ou porque estivesse exausto também, sem ânimo para raciocinar.

Era o início da tarde de domingo, 27 de agosto de 1961. Na sexta-feira, 25 de agosto, em Brasília, Jânio Quadros havia renunciado à Presidência da República, num gesto tão inesperado e intempestivo que, há dois dias, nos provocava uma insônia de atemorizada e constante vigília. Eu havia dormido apenas três horas na madrugada de sexta-feira para sábado e, de pé já às 7h da manhã, desde então nem sequer cochilara nas cadeiras duras ou nos sofás fofos do Palácio, onde passamos a noite ao telefone ou batendo no teclado da máquina de escrever. Aos 27 anos pode-se fazer isso, sem sacrifício e sem contar as horas! Desde o sábado eu tinha me instalado no berço das notícias - o Palácio do governo gaúcho -, ali onde as situações novas podiam nascer a partir do que lá se sabia do que ocorria em Brasília, no Rio, São Paulo e no resto do Brasil. A situação era grave. Afinal, por que Jânio Quadros renunciara, se nem sequer completara sete meses no poder que exercia de forma quase imperial?

No dia 28 de agosto, segunda-feira, ele iria instalar a Presidência da República na capital do Rio Grande do Sul, naquela ideia de governo-itinerante, que começara em Recife, meses antes. Tudo estava preparado para recebê-lo com o Ministério inteiro.

Durante três dias, o gabinete presidencial funcionaria nas salas do comando do III Exército, na Rua dos Andradas, aquela que todos chamam pelo nome antigo de Rua da Praia, mesmo que agora não exista praia alguma nem a lembrança de quando o rio chegava até ali. Tudo estava preparado para receber a cúpula que comandava o Brasil. Nos municípios distantes, os partido conservadores (que apoiavam Jânio) armavam comitivas rumo à capital, onde também estariam os generais das guarnições espalhadas pelo interior, para prestar continência ao presidente e seu ministro da Guerra. Por decisão do governador, os alunos das escolas primárias estaduais, com bandeirinhas do Brasil e do Rio Grande, receberiam o presidente ao longo do trajeto do aeroporto ao centro. Porto Alegre dispunha-se a retumbar como capital do Brasil por três dias.

Não foi isto, no entanto, que fez com que, nas horas seguintes à renúncia, o governador Leonel Brizola descesse do seu gabinete e, das janelas do piso térreo, num discurso para as trezentas pessoas do povo, que se aglomeravam com improvisadas faixas e cartazes defronte ao Palácio, fizesse um apelo ao renunciante Jânio:

- Venha, presidente, venha para a capital gaúcha e instale o governo da República, como previsto. Aqui, o governo estadual e o povo inteiro, civis e militares, garantem a continuidade do seu governo. Aqui não há pressões. Venha, presidente, no Rio Grande do Sul há garantias!

*

"1961 - O Golpe Derrotado"
Autor: Flavio Tavares
Editora: L&PM Editores
Páginas: 232
Quanto: R$ 31,45 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.