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01/04/2010 - 14h19

"Veteranos se sentem esquecidos", diz autor de HQ sobre Brasil na Segunda Guerra

GUILHERME SOLARI
colaboração para a Livraria da Folha

Divulgação
HQ mostra a entrada na guerra do país através de olhar de pacifista
HQ mostra a entrada na guerra do país através de olhar de pacifista

Celso Menezes, roteirista de "Jambocks!", HQ que mostra a atuação na Segunda Guerra Mundial da FAB (Força Aérea Brasileira) conversou com a Livraria da Folha sobre a criação da obra e a condição dos veteranos brasileiros do conflito.

Veja trecho e reportagem sobre "Jambocks!"

Entre os temas abordados estão a colaboração com o ilustrador Felipe Massafera, o processo de pesquisa, o descaso do ensino com essa parte tão ignorada da história brasileira e a sensação de amargura entre os veteranos brasileiros do conflito, que se sentem esquecidos pela sociedade.

"O que eu aprendi com o contato com esses veteranos é que eles foram tão perseguidos quanto os civis e tem muito ressentimento de serem colocados no mesmo balaio de gato e de ninguém querer esclarecer isso", disse Menezes. "Por mais piegas que possa parecer hoje, essas pessoas foram para a Europa lutar pela liberdade do mundo". Leia a entrevista completa abaixo.

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Livraria da Folha - De onde veio a ideia de criar uma HQ sobre a participação brasileira na Segunda Guerra?

Celso Menezes - Eu sempre quis fazer uma história em quadrinhos. Eu conheci o Felipe e sabia que ele desenhava, mas não falei nada até que vi uma reportagem sobre o trabalho dele em um jornal e achei muito bacana. Nós nos reunimos algumas vezes pra conversar, mas não conseguíamos achar um tema. Foi então que eu li uma matéria em uma edição da "National Geographic" sobre a FAB na Guerra e mandei a sugestão pro Felipe, sem saber se ele se interessaria por esse assunto. Para a minha surpresa, ele tem um irmão na aeronáutica e cresceu nesse meio de aviões e adorou a ideia.

Livraria da Folha - Como foi o processo de criação desse seu roteiro de estreia?

Menezes - Eu sempre li muito e sempre quis fazer um roteiro, mas apanhei um pouco no começo. Tinha a tendência de me apegar muito a detalhes de pouca importância, como pesquisar a vida inteira de um personagem histórico que só aparece em um momento, e hoje percebo que o meu trabalho é mais objetivo. Mas, de certa forma, o detalhismo foi bom, porque qualquer dúvida que o Felipe apresentava eu já tinha a resposta. Eu e o Felipe também aprendemos a ter uma relação diferente. Antes a gente se reunia em um barzinho perto de casa pra discutir e a relação ficou mais profissional.

Livraria da Folha - Por que essa mudança?

Menezes - A gente planejava fazer a HQ aos poucos, em cerca de três anos. Mas como vencemos o Programa de Incentivo à Cultura, PROAC, nós aceleramos o processo pra pouco menos de um ano.

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Livraria da Folha - Como foi a pesquisa histórica para criar "Jambocks!"?

Menezes - Eu fui para o Rio de Janeiro e conheci veteranos, fiquei uns dez dias por lá. Eles fazem uma reunião anual no dia 22 de abril para comemorar o Dia da Aviação de Caça e lá eu conversei com os três pilotos brasileiros da FEB ainda vivos. O encontro fica cheio de familiares, da nova geração de pilotos que vai prestar a sua homenagem e do pessoal de terra, os mecânicos que serviram na guerra. Há inclusive um grande respeito pelo pessoal de terra, pois assim que os aviões chegavam eles passavam a madrugada trabalhando para fazê-los funcionar e o esforço de guerra não poderia ter acontecido sem a atenção constante deles. Além dessas fontes diretas, também compramos uma série de obras de referência depois que vencemos o PROAC.

Livraria da Folha - A participação do Brasil Guerra é um tema pouco abordado nas salas de aula.

Menezes - Nós demos um workshop sobre a HQ para umas 30 pessoas, a menor com 17 anos, e a maioria nem sabia que o Brasil tinha participado do conflito. Você fala hoje em militares e, até mesmo pra mim, a primeira coisa que vinha à cabeça era ditadura. Mas o que eu aprendi com o contato com esses veteranos é que eles foram tão perseguidos quanto os civis e tem muito ressentimento de serem colocados no mesmo balaio de gato da ditadura e de ninguém querer esclarecer isso. Por mais piegas que possa parecer hoje, essas pessoas foram para a Europa lutar pela liberdade do mundo.

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Livraria da Folha - Porque você acha que essa parte da história é tão ignorada?

Menezes - Quando eles voltaram, o Vargas estava no poder há 15 anos e tinha medo dessa onda de liberdade que ganhou força com a vitória dos aliados. Eles desfilaram no dia que chegaram, mas depois todos foram proibidos de falar no assunto. Muitos ficaram sem carreira, foram perseguidos diretamente e a esmagadora maioria chegou em péssimas condições físicas ou psicológicas e sem nenhuma assistência, inclusive financeira. Existe uma grande incidência de suicídios e alcoolismo entre os veteranos da Força Expedicionária Brasileira, e da FAB também, mas na FAB numa proporção muito menor. Os veteranos se sentem completamente esquecidos depois de terem se sacrificado tanto. E o mais triste desse tema não ser mais abordado é que, como o mais jovem entre eles tem 88 anos, essa memória está morrendo junto deles.

Livraria da Folha - Esse primeiro volume trata da entrada do Brasil na guerra. E os demais?

Menezes - "Jambocks!" é dividido em quatro partes. Essa primeira é o prelúdio para a guerra, a segunda vai mostrar o treinamento da FAB, a terceira a campanha na Itália e na quarta e última a busca por desaparecidos e a volta ao Brasil.

Livraria da Folha - Quando os demais volumes serão lançados?

Menezes - Os outros três volumes serão lançados, mas quando isso acontecerá depende das vendas. O roteiro e as referências fotográficas para as duas próximas partes já estão prontas, mas o Felipe dedica o tempo dele baseado na recepção da obra.

Livraria da Folha - Boa parte do processo de criação da obra pôde ser acompanhada no blog (http://jambocks.blogspot.com/ ) desde o princípio. Por que esse tipo de divulgação?

Menezes - Grande parte veio de uma curiosidade pessoal minha de saber o processo de criação de uma obra e até mesmo de conhecer como funciona a edição de um livro. Quanto custa cada parte, quanto fica com o distribuidor, quanto com os autores, por quais processos passa a obra antes de ira pra gráfica e lá nós podemos dividir essas informações com os leitores.

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"Jambocks!"
Autores: Celso Menezes e Felipe Massafera
Editora: Zarabatana Books
Páginas: 48
Quanto: R$ 30,00
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

 
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