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07/01/2011 - 18h06

Nenhuma sociedade nunca deixou de produzir arte; leia trecho de livro sobre obras-primas

da Livraria da Folha

Divulgação
Capa traz "O Filho do Homem", do surrealista belga René Magritte
Capa traz "O Filho do Homem", do surrealista belga René Magritte

Nenhuma sociedade jamais deixou de produzir arte, mas as formas de expressão criadas pelo homem variaram radicalmente, em épocas e lugares diversos, sob a influência de diferentes circunstâncias. Qual era o propósito original dessas obras e como podemos compreendê-las hoje? Por que algumas são tão importantes? Por que a arte prosperou em determinados períodos da história e não em outros?

Com 576 páginas ilustradas, "Tudo sobre Arte" responde a essas perguntas com uma abrangente visão histórica, inserindo a arte no contexto dos avanços sociais e culturais que ocorreram em todo o mundo. Organizado em ordem cronológica, o livro apresenta o desenvolvimento artístico de cada período e estilo e traz avaliações minuciosas que revelam como um artista influenciou outro e o que cada um pretendia alcançar com suas ideias e obras.

Obras-primas marcantes que definem as características de cada estilo são esmiuçadas: do uso da cor e de metáforas visuais às inovações técnicas, tudo é explicado em detalhes, o que facilita a interpretação de imagens reconhecidas no mundo inteiro. Maravilhe-se diante da complexa arte egípcia, entenda a importância das gravuras japonesas no século 19 e descubra por que o quadro "Les Demoiselles d'Avignon", de Pablo Picasso, foi considerado tão surpreendente na época em que foi pintado.

Desde as esculturas pré-históricas e as pinturas rupestres, a humanidade sentiu-se instigada a registrar seus impulsos criativos. Hoje, a ansiedade por desenhar, pintar, imprimir e esculpir é mais evidente do que nunca e continua a moldar quem nós somos e como vivemos. Se você ama arte e gostaria de compreender todos os seus aspectos, encontra nas páginas deste livro um tesouro de informação e beleza.

Reprodução
"Les Demoiselles d'Avignon", obra de Picasso inaugurou movimento cubista
"Les Demoiselles d'Avignon", obra que Picasso pintou em 1907, inaugurou movimento cubista

Leia trecho de "Tudo sobre Arte".

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Ao longo da história, nenhuma sociedade, por mais baixo que tenha sido seu nível de existência material, deixou de produzir arte. Representações e decorações, assim como a narração de histórias e a música, são tão naturais para o ser humano quanto a construção de ninhos é para os pássaros. Ainda assim, as formas de arte variaram radicalmente em épocas e lugares diversos, sob a influência de diferentes circunstâncias culturais e sociais.

Sempre se presume, corretamente ou não, que o propósito da arte em sociedades sem organização política a pintura rupestre, por exemplo tenha sido mágico. Imagina-se que ela expressasse crenças comuns e exercesse algum papel em rituais da comunidade. Com o surgimento de nações com uma hierarquia clara, nas civilizações da Mesopotâmia e do Egito, a arte assumiu uma posição a serviço dos ricos e poderosos, embelezando palácios e glorificando o prestígio e as conquistas dos governantes. Ela também serviu aos propósitos das religiões organizadas difíceis de se distinguirem do poder secular, como decoração em templos, retratando os deuses e recontando os mitos religiosos por meio de imagens. Essa arte é coletiva: a ideia de estilo individual e inovação não existe, ou certamente é invisível aos nossos olhos. Ainda assim ela é, em geral, feita com delicadeza e sutileza e até mesmo com um detalhismo perfeito, como se vê nas cenas de batalhas assírias ou nas representações egípcias de aves e animais.

Costuma-se dizer, talvez corretamente, que o individualismo moderno tem origem nos povos agrícolas e comerciais do Mediterrâneo gregos, fenícios, etruscos, romanos. Artistas como Praxíteles (em atividade em meados do século IV a.C.) foram celebrados por suas realizações. Prédios públicos, importantes para atividades civis ou religiosas, eram embelezados e os governantes e seus triunfos, celebrados, mas também surgiu uma classe mais ampla de consumidores de arte, exemplificados pelos prósperos cidadãos de Pompeia e Herculano. Vários gêneros pinturas de paisagens, retratos, naturezas-mortas, animais e temas mitológicos evoluíram para embelezar as residências e registrar a aparência desses patronos. Nossa noção da arte dessa época é distorcida pelos caprichos da sobrevivência afrescos e mosaicos foram conservados, mas não a maioria dos painéis de madeira.

A partir do século IV d.C., a arte bizantina evoluiu da arte romana, transformada pelo cristianismo. A arte esteve a serviço da Igreja ou da fé particular. Na forma de ícones, as imagens adquiriram um inerente valor espiritual, com o visível simbolizando o invisível. Mas os ícones foram combatidos com violência pelos iconoclastas, que acreditavam que o visível estava suplantando o invisível. O islamismo, que nasceu nesse mesmo mundo do Mediterrâneo oriental, tendeu para crenças iconoclastas semelhantes, mas juntamente com uma arte geométrica e caligráfica que também deu origem a uma tradição de um realismo estilizado refinado. Apesar de a arte islâmica ter se desenvolvido com base nos estilos bizantino e romano, ela recebeu também influências da arte sassânida da Pérsia pré-islâmica. O período sassânida testemunhou algumas das realizações mais importantes da civilização persa, e as formas e os temas dessa arte seguiram para o leste, infiltrando-se na Índia, no Turquistão e na China.

No século I a.C., a imagem do Buda foi esculpida pela primeira vez em pedra na cidade de Gandhara, no atual Paquistão, estabelecendo o modelo para a arte budista posterior. Enquanto o budismo se disseminava a partir do subcontinente indiano pela Ásia e pelo restante do mundo, ele exercia sua própria influência no fomento às artes da China, do Japão e da Coreia. À medida que a religião evoluía em cada país, ela incorporava novas formas, como estatuários e esculturas de monumentos. A arte primitiva japonesa estava ligada ao budismo, mas, a partir do século IX, enquanto o país se afastava da influência da China, as artes seculares ganharam importância e a pintura acabou se tornando a tradição artística predominante. Numa sociedade em que as pessoas escreviam com pincel, em vez de caneta, havia um entendimento intuitivo da estética da pintura.

A remota Europa ocidental passou por uma lenta e intermitente transformação entre os séculos XII e XIII, depois que o desenvolvimento do comércio e a criação de novos territórios agrícolas geraram excedentes, a princípio usados na construção de prédios religiosos, muitos deles delicadamente decorados com pinturas e esculturas. Houve uma notável evolução estilística em direção ao realismo tridimensional, mas ainda não havia muita diferença entre a obra de Giotto (c.1270-1337) ou Simone Martini (c.1285-1344) e a arte bizantina. Com o dinheiro da Igreja e do comércio, cidades como Florença, Bruges e Veneza se tornaram centros de uma produção artística na qual a exatidão na representação dos detalhes, possivelmente ligada ao avanço das ciências ópticas, era valorizada pelos patronos. A espiritualidade da arte religiosa foi, em parte, suplantada por temas da mitologia clássica e a celebração do luxo é vista na representação das roupas e dos móveis. As próprias pinturas, itens cada vez mais portáteis, feitas com tinta a óleo, eram objetos de luxo, ainda que menos valorizadas do que as tapeçarias.

A arte ocidental, durante o que mais tarde foi chamado de Renascimento, representou apenas uma das muitas direções que a pintura tomou ao redor do mundo nos séculos XV e XVI. A arte renascentista não pode se considerar superior ou mais sofisticada do que, digamos, as miniaturas persas ou as paisagens chinesas. Uma dinâmica cultura popular urbana no sul da China impulsionou o desenvolvimento das técnicas de impressão mecânica de imagens, o que também aconteceu no sul da Alemanha (e, posteriormente, aconteceria no "Mundo Flutuante" do Japão do período Edo). No entanto, existe uma notável diferença na tradição ocidental. Não apenas técnicas representativas inovadoras como a perspectiva linear foram exploradas pelos artistas como também os patronos passaram a ansiar por novas estratégias e estilos de representação. Ao mesmo tempo, começou a surgir uma espécie de teoria da originalidade contida pela persistência de uma condição semiartesanal e da produção em oficinas. Individualmente, alguns artistas alcançaram prestígio de estrelas e eram contratados por patronos que competiam para empregar os mais famosos.

A proliferação de estilos distintos no período do Renascimento e da Reforma refletia a diversidade da cultura e da sociedade europeias. O comércio de Veneza com o Oriente financiou obras incríveis por suas cores os materiais que produziam esses tons eram importados como nenhuma outra mercadoria. A teatralidade do barroco (como foi mais tarde chamado) expressava a Contrarreforma católica. A protestante Holanda precisava de uma arte diferente para decorar os lares dos burgueses ou para celebrar o decoro da vida civil cenas de interiores, paisagens e retratos que sugeriam uma vida íntima e um recato externo. Reis, príncipes e aristocratas ainda pagavam para que suas glórias fossem celebradas e sua riqueza, retratada. Ainda assim havia também sinais de que os artistas estavam descobrindo um significado mais pessoal na arte que produziam como se vê nas obras tardias de Rembrandt (1606-1669) ou no estilo extremo de Caravaggio (1571-1610).

Nos séculos XVIII e XIX, a Europa desenvolveu uma consciência de sua história artística, vista como uma sucessão de obras-primas que eram elogiadas como joias da cultura e exibidas em museus para a educação espiritual e moral do público. A adoração dos "grandes mestres" do passado levou os pintores contemporâneos a desejarem imitá-los. A era do mecenato e dos pintores da corte demorou a acabar Napoleão e seus artistas celebravam a glória imperial e Francisco de Goya (1746-1828) foi empregado da corte espanhola, mas cada vez mais se esperava que os artistas buscassem uma visão própria do mundo. Enquanto a sociedade europeia progredia em direção ao aumento da produção, da mecanização, do utilitarismo e do racionalismo, a arte do continente se desenvolvia em direção ao romantismo um movimento cultural complexo, mas com uma clara preferência pela natureza em vez da sociedade e das máquinas, a emoção em detrimento da razão, o artista inspirado contra o materialismo da sociedade burguesa.

Os artistas tendiam a se considerar necessários em oposição ao mundo moderno materialista. Alguns evitavam a abordagem de temas modernos, refugiando-se em temas medievais ou primitivos, ao passo que outros optavam por cenas da vida nas cidades como mote para observações irônicas. À medida que eles se tornavam financeiramente dependentes das obras que produziam para serem vendidas no mercado, marchands e críticos de arte se tornaram personagens fundamentais na identificação dos talentos e no contato entre artistas e especialistas. Isso deu início a um jogo estranho, no qual se esperava que o artista fosse um ser inspirado, dedicado à expressão de sua genialidade, mas que também tinha de produzir obras comercializáveis e que provavelmente seriam vendidas justo por conta do suposto desprezo do artista por esse comércio. Foi quando surgiu a ideia da vanguarda. Ela expressava uma dedicação ao radicalismo estético, mas isso também implicava a aceitação de um legado comum, no qual a nova arte, apresentada como radical e livre do gosto público estabelecido, em pouco tempo se transformou em arte aceita, cuja beleza foi universalmente reconhecida.

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A rapidez das transformações tecnológicas e sociais influenciou o artista de várias maneiras. As tintas fabricadas em larga escala possibilitaram o trabalho ao ar livre, não somente dentro dos estúdios. A primeira era de globalização com a ascensão do imperialismo e das comunicações internacionais trouxe as influências exóticas das gravuras japonesas e das máscaras africanas. Os próprios artistas viajavam. Eugène Fromentin (1820-1876) e William Holman Hunt (1827-1910), por exemplo, estavam entre os pintores orientalistas que realmente visitaram o norte da África e o Oriente Médio, e suas observações em primeira mão das paisagens e culturas foram registradas em detalhes autênticos em suas obras. Enquanto isso, Paul Gauguin (1848-1903) foi seduzido pelo exotismo das ilhas do Pacífico, onde ele produziu algumas de suas melhores telas. A invenção da fotografia gerou um debate a respeito do objetivo da arte representativa, mas ao mesmo tempo serviu como uma nova fonte para os pintores. Com seu Nu descendo a escadano 2 (1912), por exemplo, Marcel Duchamp reconheceu a influência da animação fotográfica. Avanços científicos no estudo da óptica geraram novos experimentos com as cores, como se vê nas técnicas adotadas por Claude Monet (1840-1926) e Georges Seurat (1859-1891).

No início do século XX, a arte ocidental entrou numa fase experimental que rompeu com as fronteiras da forma artística anteriormente conhecida. O cubismo e os primórdios do abstracionismo não eram representativos nem decorativos e forjavam novos modos de se ver o mundo. Transformações tecnológicas como o cinema, o carro, a luz elétrica e a aviação influenciaram a arte, às vezes declaradamente, como no caso do futurismo. Artistas de vanguarda formaram movimentos com manifestos que afirmavam seus planos de revolução artística. Essas revoluções precederam o cataclisma da Grande Guerra que fez ressurgir a patronagem estatal, na forma de certa "arte bélica". Depois da guerra, a sensação de crise cultural era generalizada, o que gerou resultados diversos. Alguns artistas buscaram uma nova objetividade ou um retorno ao classicismo, ao passo que outros se aprofundaram numa celebração subversiva de tudo o que é irracional e dos tabus. A incrível variedade de estilos individuais e movimentos concorrentes entrou em conflito com a ascensão das ditaduras europeias o comunismo soviético, o nazismo e o fascismo, que rejeitavam essa arte burguesa degenerada como um todo e defendiam a arte representativa que celebrava o Estado. O efeito improvável disso foi a transformação da arte modernista num símbolo adorado da democracia liberal capitalista, de modo que, depois da Segunda Guerra Mundial, a CIA surgiu como fonte de patronagem para artistas abstracionistas americanos, ao passo que a supremacia dos Estados Unidos no mundo econômico levava o país, com aparente inevitabilidade, a uma posição de destaque como centro de produção artística. Nova York, e não mais Paris, era a capital internacional da arte.

Depois de 1945, alguns artistas seguiram adotando o modelo heroico/romântico, expressando-se com grandes obras abstratas gestuais ou como seres torturados em obras representativas como as de Francis Bacon (1909-1992). O incômodo que alguns artistas sentiam em relação à sociedade mercantilista levou a rupturas ainda mais radicais com o passado. Artistas performáticos e, depois, conceituais desejaram criar obras que não fossem objetos. Andy Warhol (1928-1987) provocou outra revolução ao acabar com o "mito" do artista, criando imagens reproduzidas mecanicamente de produtos industrializados como se fossem obras de arte. A pop art rejeitava o "elitismo" da alta cultura. A avalanche de informações visuais na era da comunicação de massa provocou um ajuste no modo como as obras de arte eram vistas agora elas parecem ser apenas uma imagem entre tantas. Ironicamente, os preços das obras de arte resistiram ao ataque do anticomercialismo e atingiram níveis sem precedentes, até que acabassem por se transformar numa forma de sonegação de impostos e de investimento especulativo. Museus e galerias de arte, exibindo obras do passado e do presente, ganharam importância como lazer da burguesia e na indústria do turismo. Formas de arte radicais como as "instalações" se tornaram chamarizes de multidões e alguns artistas se adaptaram facilmente à cultura midiática das celebridades. Como bem disse John Ruskin, crítico de arte inglês do século XIX, embora as circunstâncias pareçam impróprias, "a sociedade continua produzindo a arte que merece".

 
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