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30/06/2009 - 09h57

Obra de Tatiana Salem Levy combina elementos autobiográficos e ficção; leia trecho

da Livraria da Folha

Com uma trama que combina elementos autobiográficos, romance e memorialismo, Tatiana Salem Levy venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante, em 2008. Em "A Chave de Casa" (Record, 2007), a jovem autora portuguesa radicada no Brasil reconstrói as origens de sua família sob o olhar da protagonista, filha de comunistas brasileiros e neta de judeus da Turquia. A obra também foi finalista do Prêmio Jabuti no mesmo ano.

Fotomontagem Folha Online
Escritora dissocia judaísmo, religião na busca pela chave de casa
Escritora dissocia judaísmo, religião na busca pela chave de casa

A história foi inspirada em uma lenda do país de origem da escritora sobre os judeus perseguidos pela inquisição que deixaram suas casas em Portugal levando suas chaves, na esperança de um dia retornar. Algum tempo depois, a autora descobriu que um tio-avô ainda guardava a chave de casa. Ele provou que havia sido expulso durante a inquisição e foi repatriado.

Doutora em letras pela Pontifícia Universidade Católico do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Tatiana nasceu em 1979, em Lisboa, Portugal, mas mudou-se no mesmo ano para o Brasil. Também é autora de "A Experiência do Fora: Blanchot, Foucault e Deleuze", e seus contos foram publicados nas coletâneas "Paralelos" (2004) e em "25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira" (2005). Em 2009, a escritora participa da Mesa 3 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) ao lado de Arnaldo Bloch, autor de "Os Irmãos Karamabloch", e Sérgio Rodrigues.

Leia abaixo trecho do livro "A Chave de Casa" que mistura romance, biografia e memória.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

*

(...)

"Para escrever esta história, tenho de sair de onde estou, fazer uma longa viagem por lugares que não conheço, terras onde nunca pisei. Uma viagem de volta, ainda que eu não tenha saído de lugar algum. Não sei se conseguirei realizá-la, se algum dia sairei do meu próprio quarto, mas a urgência existe. Meu corpo já não suporta tanto peso: tomei-me um casulo pétreo. Tenho o rosto abatido, olheiras muito mais velhas do que eu. Minhas bochechas pendem, ouvindo o chamado da terra. Meus dentes mal conseguem mastigar. Sinto um incômodo abissal, como se a gravidade agisse com mais intensidade sobre mim, puxando duas vezes meu corpo para baixo.

Não tenho a mais ínfima ideia do que me aguarda nesse caminho que escolhi. Da mesma forma, não sei se faço a coisa certa. Muito menos se existe alguma lógica, alguma explicação admissível para essa empreitada. Mas ando em busca de um sentido, de um nome, de um corpo. E por isso farei essa viagem de volta, para ver se não os esqueci perdidos por aí, em algum lugar ignoto.

Sem me levantar, pego a caixinha na mesa-de-cabeceira. Dentro dela, em meio a pó, bilhetes velhos, moedas e brincos, descansa a chave que ganhei do meu avô. Tome, ele disse, essa é a chave da casa onde morei na Turquia. Olhei-o com expressão de desentendimento. Agora, deitada na cama com a chave nas mãos, sozinha, continuo sem entender. E o que vou fazer com ela? Você é quem sabe, ele respondeu, como se não tivesse nada a ver com isso. As pessoas vão ficando velhas e, com medo da morte, passam aos outros aquilo que deveriam ter feito mas, por motivos diversos, não fizeram.

E agora cabe a mim inventar que destino dar a essa chave, se não quiser passá-la adiante.

(...)

Não faço outra coisa senão olhar, tocar, observar a chave. Conheço seus detalhes de cor, o tamanho preciso de suas curvas e de sua argola, seu peso, sua cor gasta. Uma chave desse tamanho não deve abrir porta alguma. A essa altura já deveriam por certo ter mudado, se não a porta, certamente a fechadura. Seria um disparate acreditar que tanto tempo depois a chave da casa permaneceria a mesma. Tenho certeza de que até meu avô é consciente disso, mas também imagino que deva ter uma curiosidade enorme de saber se ainda está lá o que deixou para trás. Que coisa estranha, que coisa esquisita deve ser: largar o país, a língua, abandonar a família em direção a algo completamente novo e, sobretudo, incerto.

Ele me contou que o navio onde viajou era descomunal, seu primeiro e único navio. A embarcação estava abarrotada de pessoas, todas com a mesma esperança que ele: conseguir uma vida melhor em país diferente. Dos irmãos, foi o primeiro a vir, apenas duas malas na mão e alguns contatos no Brasil. Não mais do que vinte anos quando deixou a Turquia. Tempos depois o irmão mais novo se juntaria a ele. A irmã gêmea faleceria de tuberculose. O irmão mais velho casaria e continuaria em Esmirna. A mãe, ele só reencontraria longos anos mais tarde, quando, viúva, decidiria se mudar para o Brasil.

Quantas vezes não ouvi essa mesma história? A dor de nunca mais ter visto o pai nem a irmã, de nunca mais ter pisado na terra que primeiro fora sua. A dor de só ter trazido a mãe a tempo de perdê-la. De ter visto tanta miséria no navio, tanta miséria na terra que deixara. Quantas vezes?

E agora o que ele quer? Que eu vá atrás da sua história, recuperar o seu passado? Por que essa chave, essa missão descabida?"

*

"A Chave de Casa"
Autor: Tatiana Salem Levy
Editora: Record
Páginas: 208
Quanto: R$ 32,00
Como comprar: pelo telefone 0800-140090 ou no site da Livraria da Folha

 
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