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10/11/2011 - 20h00

"A Rebelião dos Estudantes" reconstrói movimento estudantil de 1968

da Livraria da Folha

Escrito por Antonio de Pádua Gurgel, "A Rebelião dos Estudantes" relata e avalia os acontecimentos mais importantes do movimento estudantil em Brasília. O autor aborda os bastidores da criação da Unb (Universidade Nacional de Brasília) e as mudanças que ocorreram com o golpe militar de 1964. Leia um trecho.

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Divulgação
Autor registra os principais acontecimentos do movimento estudantil
Antonio de Pádua Gurgel relata a luta do movimento estudantil

Muito já se escreveu sobre o movimento de 1968, mas, mesmo assim, o livro "Brasília, 1968", de Antonio de Pádua Gurgel, tem sabor de novidade. É que, em geral, os textos sobre o assunto referem-se às manifestações e à organização dos estudantes no Rio e em São Paulo, ou ainda analisam o tema a partir de uma perspectiva nacional. Resultado: o Distrito Federal foi esquecido ou não teve o destaque que merecia por sua participação nos acontecimentos daquela época.

Qual a razão disso? Arrisco algumas hipóteses.

Primeira: em 1968, Brasília era uma cidade muito jovem - havia sido fundada oito anos antes, e ainda não formara sua própria identidade cultural. Tinha dificuldades para entender-se e, conseqüentemente, para explicar-se ao mundo. Segunda: mesmo amordaçada, a UnB tinha como referência um projeto de vanguarda. No quadro de arcaísmo das demais universidade públicas brasileiras, era um peixe fora d'água. Terceiro: talvez em nenhum lugar a repressão dentro das escolas tenha sido tão dura quanto no Distrito Federal. No Rio, em São Paulo ou no Nordeste, a tradição de autonomia universitária dificultou o estabelecimento de um clima de ordem unida no topo do mundo acadêmico. Havia mais espaço para manobrar. Na UnB, talvez por que a instituição ainda usava fraldas, talvez por que estava muito próxima do poder, ditadura militar e reitoria logo confundiram-se. Como nas ruas a polícia batia à vontade, não havia para onde correr.

Ou seja, a cidade era diferente, a universidade era diferente e as condições da luta eram diferentes em Brasília. Tanta especificidade talvez explique por que os textos sobre 68 não se detêm muito na informação e na análise sobre o movimento no Distrito Federal.

Pessoalmente, como vice-presidente da União Metropolitana dos Estudantes (UME) e como presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFRJ, entidades cariocas, tive freqüentes contatos com os dirigentes da FEUB (Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília) nos anos de 1967 e 1968, nos conselhos e congressos da UNE. Eram reuniões intermináveis, confusas e marcadas por duros enfrentamentos. Impressionava-me a radicalização do movimento em Brasília. A FEUB sempre estava na dianteira das alternativas mais duras, opondo-se às posições mais amplas - ou mais moderadas, depende do ponto de vista, da UME e da União Estadual dos Estudantes de São Paulo. Desconfiava das propostas intermediárias, rejeitava tudo que cheirasse a compromisso. O interessante é que essa radicalização não era fruto da ação de um pequeno grupo, distante das salas de aula e encastelado na entidade, como ocorria em alguns lugares. Ao contrário, na capital da República, era expressão da radicalização do próprio movimento. A base empurrava os líderes para posições extremas. Tanto que a principal força política na UnB, a Ação Popular - organização de origem católica em trânsito para o marxismo, que, na maioria dos estados, capitaneava a ala mais à esquerda do movimento, em Brasília era acusada de reformista e moderada pelo pessoal mais xiita, ligado à IV Internacional.

Repressão duríssima e radicalização espontânea - esses foram os dois traços marcantes do ME de Brasília nos idos de 68. E eles surgem em cada página deste livro, nos episódios relatados, nos fatos trazidos à tona, nos depoimentos colhidos. São estudantes entrando na borracha, policiais sendo presos e interrogados por adolescentes, deputados e senadores participando de assembléias universitárias, reuniões no palácio do Planalto convocadas às pressas para dar resposta a uma passeata iniciada dez minutos antes na W-3. Num momento, aparece Roman Blanco, misto de professor, picareta e policial, organizando a dedo-duragem e a repressão no campus. No outro, flagra-se a escalada da linha dura rumo ao controle total da UnB. Mais adiante, topa-se com os secundaristas do Colégio Agrícola, em Planaltina, ocupando a escola sob a liderança de um "Diretório Revolucionário Ernesto Guevara" - mais um pouco, teríamos uma Sierra Maestra a 25 quilômetros do Palácio do Planalto. A narrativa desses e de outros episódios dá colorido e força ao livro. Afinal, não se bota de pé um sistema de repressão digno desse nome sem a colaboração pressurosa dos carreiristas de plantão e dos oportunistas de ocasião. Tampouco se pode ir à luta contra a ditadura sem a participação incendiária de alguns delirantes recém saídos dos livros.

Algumas questões mais gerais são importantes para se entender o movimento estudantil brasileiro em 68. Sem querer me alongar no assunto, que já consumiu toneladas de papel e rios de tinta, acho que a explosão daquele ano foi fruto de quatro casamentos e de um divórcio.

O primeiro casamento deu-se entre os estudantes politizados, que resistiam à ditadura e lutavam pela sua derrubada, e a massa dos estudantes, que queria apenas receber uma boa formação acadêmica e profissional. Durante os anos imediatamente posteriores a 1964, esses dois segmentos haviam vivido em mundos diferentes. Os estudantes politizados faziam o capeta: participavam de assembléias, pichavam muros, distribuíam panfletos, denunciavam arbitrariedades, convocavam greves e manifestavam-se nas ruas. Eram vistos com simpatia pela maioria dos colegas, mas não deixavam de ser um corpo estranho nas faculdades.

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"A Rebelião dos Estudantes"
Autor: Antonio de Pádua Gurgel
Editora: Unb
Páginas: 456
Quanto: R$ 29,75 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

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