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22/11/2012 - 20h00

Livro conta a história de Reynaldo Gianecchini; leia trecho

da Livraria da Folha

Escrito pelo jornalista Guilherme Fiuza, "Giane: Vida, Arte e Luta" tem lançamento previsto para o dia 3 de dezembro. Além de pesquisa documental, a biografia é resultado de quase 50 horas de entrevistas com Gianecchini e com atores, diretores, familiares, amigos e médicos.

"Nessa maratona, vários dos meus entrevistados resistiram a horas seguidas de gravação", conta o autor. "E aí o recorde ficou com Gianecchini: eu nunca tinha visto, em 25 anos de carreira, alguém capaz de dar entrevista por sete horas sem parar".

Fiuza também assina "Meu Nome Não É Johnny" --livro que inspirou o filme homônimo --, "3.000 Dias no Bunker", "Amazônia 20º. Andar" e "Bussunda: A Vida do Casseta".

Abaixo, leia um trecho de "Giane".

*

Que não é o que não pode ser que não...

Divulgação
Biografia é resultado de quase 50 horas de entrevistas e pesquisa documental
Resultado de quase 50 horas de entrevistas e pesquisa documental

A movimentação no oitavo andar do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, indicava urgência. Um vaivém repentino de enfermeiras agitadas, transparecendo certo nervosismo, prenunciava o provável atendimento a algum paciente grave - que logo surgiu no corredor. Mas não estava de maca nem acompanhado por médicos.

O paciente que provocava o alvoroço entre as enfermeiras estava ótimo. Caminhava sozinho, cumprimentando a todos com um dos sorrisos mais famosos do Brasil.

Em passos firmes, corpo atlético precariamente coberto pela roupa hospitalar, o ator Reynaldo Gianecchini se deslocava em direção ao elevador com amplo apoio da equipe de enfermagem. Eram várias moças de branco para apontar-lhe o caminho, ampará-lo, perguntar-lhe se estava tudo bem mesmo, chamar o elevador, esperar o elevador. Seu destino era o segundo andar do hospital, onde ficava a sala dos aparelhos de ginástica.

Jamais se vira ali tanta mobilização da enfermaria com um paciente que estivesse indo malhar.

E as enfermeiras ficavam um pouco mais nervosas quando o ator, diante de tanta solicitude, olhava nos olhos de uma delas e soltava um "obrigado" com seu timbre grave de veludo. Definitivamente, elas não podiam deixá-lo sozinho.

Foi assim que a empresária de Gianecchini, Márcia Marbá, de passagem pelo hospital, deparou-se com o quadro peculiar: o ator fazendo esteira em trajes hospitalares, com uma bela enfermeira ao lado vigiando os movimentos da massa de 86kg compactados em 1,85m de altura, mal contida naquele tecido sumário. Márcia ainda pôde ouvir parte do que a enfermeira dizia ao paciente.

Era uma orientação sobre roupas adequadas para ginástica - o que, na literatura médica, queria dizer papo furado. Mas nem tudo ali era superficialidade: os olhares pareciam bem profundos.

No final do atendimento, a dedicada enfermeira levou de presente mais um sorriso fulminante do astro. Já sozinha com ele, Márcia não se fez de distraída:

- Pelo amor de Deus, Giane. Até aqui?! Isso é um hospital, cara...

O sorriso acendeu de novo, agora na versão não angelical:

- Isso é um hospital, mas eu não tô morto, né?

A roupa de ginástica ainda não tinha chegado, mas ele já tinha mandado buscar. A temporada no Sírio talvez lhe desse tempo para algumas sessões de malhação. Ou para muitas. Havia uma série de exames previstos, além dos vários que Gianecchini já fizera nas semanas anteriores, por causa de um quadro de saúde instável.

Todos os exames tinham tido resultado idêntico: um grande ponto de interrogação. Mas o último recomendara a internação - para investigação de uma hipótese mais grave.

Os dois primeiros exames da nova série, no entanto, também não chegariam a conclusão alguma. A essa altura, sentindo-se muito bem, o ator sentenciou à sua empresária:

- Tá vendo, Márcia? Os médicos não encontram nada. Estão procurando uma coisa que não existe.

A coisa que não existe tinha dado seu primeiro aviso mais de um mês antes. Na noite de 28 de maio de 2011, Reynaldo Gianecchini foi jantar com cinco fãs no hotel Hyatt, em São Paulo. Não era uma concessão à tietagem. Ele não teria saído de casa naquela noite se não fosse um compromisso profissional.

Os cinco acompanhantes tinham ganhado o jantar com Gianecchini num sorteio. A promoção fazia parte da campanha publicitária do papel higiênico Neve, estrelada pelo ator. No comercial de TV, uma mulher impressiona a amiga chamando seu mordomo para mostrar a maciez do produto de folha tripla. "Alfredo" chega com o papel higiênico numa bandeja e a patroa acaricia a "folha tripla" do empregado galã - paletó, camisa e pele.

- Que aveludado! - exulta a amiga, acariciando também.

Quando o olhar de estátua do mordomo Gianecchini dá uma escorregada em direção às moças derretidas, ele é friamente dispensado:

- Se anima não, Alfredo. A gente tá falando do Neve.

A piada com a beleza do ator transformou o comercial em sucesso instantâneo - num momento em que a vida real do "Alfredo" não estava nada engraçada.

Após um problema administrativo em seu escritório particular, o ator sofrera um forte baque financeiro. Uma varredura contábil indicara uma séria perda de patrimônio, e ele passara por uma fase de grande abatimento.

Foi nesse momento que Márcia Marbá o conheceu, procurada para assessorá-lo e, objetivamente, gerenciar a corrida atrás do prejuízo.

De saída, o caminho natural era intensificar o trabalho de Gianecchini com publicidade - terreno em geral fértil para ele. Não associaria sua imagem a qualquer produto, mas também não ficaria seletivo demais. Surgiu, então, dentre as propostas consideráveis pelo nível do cachê, a campanha de um shopping center no Piauí.

Márcia achava que uma personalidade nacional não deveria se desgastar no varejo das propagandas regionais, mas o anunciante pagava bem e o projeto era sério. O ator bateu o martelo:

- Tudo bem, vamos encarar. Qual é o nome do shopping?

- Pintos Shopping.

- Pintos?!

Era o nome familiar do empreendimento, que era bastante tradicional em Teresina e, por isso, passava longe das piadas e dos trocadilhos. Como o comercial iria ao ar apenas na TV local, não havia risco.

Só faltou alguém prestar a devida atenção ao slogan: "Pintos Shopping: tudo que você mais gosta, no lugar que você sempre quis." Ninguém precisaria fazer piada - ela já estava pronta.

E faltou lembrar de uma coisa chamada internet, onde tudo que é local pode ser nacional ou mundial em segundos. Especialmente se envolver o embaraço de celebridades. Naturalmente, logo o Brasil todo estava se divertindo com o galã que oferecia Pintos.

O convite para a propaganda do Neve veio em seguida. E aí a conversa era outra: campanha nacional, de primeira grandeza, criada sob medida para uma estrela da TV, ou melhor, para Reynaldo Gianecchini, com um cachê de gente grande, que não poderia chegar em melhor hora. Mas dessa vez o ator recuou. E foi o primeiro a fazer a piada, assim que Márcia veio com o convite:

- Muito bom. Depois do pinto, o papel higiênico. Assim eu vou longe...

A empresária já tinha pensado nisso. E decidiu fazer do limão uma limonada. Mostrou ao contratante os riscos de a imagem do ator ficar, por assim dizer, rondando o banheiro. Ou seja: o cachê era fantástico, mas precisava ser mais do que fantástico.

Após quase três meses de uma negociação que incluiu até corte de vaso sanitário do roteiro, em janeiro de 2011 Gianecchini virou um dos mordomos mais bem pagos da TV. Em maio, com os felizardos que compraram o papel higiênico e ganharam um jantar de gala, o ator esbanjou simpatia até na visita à cozinha do Hyatt.

Sentada numa mesa ao lado com o pessoal de marketing do anun ciante, Márcia Marbá demorou a perceber que os sorrisos de Gianecchini naquela noite eram quase heroicos.

Terminado o jantar, ficaram todos de pé para a foto prevista na promoção. Márcia se aproximou do ator e achou que ele estava tremendo. Foi cumprimentá-lo e constatou que, além de trêmulo, a camisa por debaixo do paletó estava grudada de suor - quando a temperatura em São Paulo era de 13 graus. Ele continuava sorrindo.

E ficou firme até a última conversa fiada antes do encerramento do evento.

Quando enfim se dirigiram à saída do hotel, a empresária tirou sua pashmina e o embrulhou nela até entrarem no carro. Só lá dentro, com as portas fechadas, ele se abriu:

- Não aguento mais dar um passo. Não sei o que me aconteceu, to muito mal.

Além da febre de 40 graus, tinham aparecido gânglios no pescoço.

Devia ser uma infecção na garganta. No dia seguinte, a empresária quis saber como estavam os gânglios. "Estão na virilha", informou ele.

O problema estava andando pelo seu corpo, e não cedia. Nem revelava sua causa.

Foi aconselhado a procurar um gastroenterologista, já que a virilha incomodava mais do que a garganta. Foi examinado pelo doutor Raul Cutait, que cravou o diagnóstico: hérnia inguinal. Era bom saber enfim o que tinha, mas não era muito bom saber a solução: não, não era possível tratar sem cirurgia.

Gianecchini estava a duas semanas de estrear a peça Cruel, com direção de Elias Andreato. Seu personagem era basicamente o oposto do homem que jantava com os fãs até depois de meia-noite, ardendo em febre, sem economizar simpatia (sincera). O vilão criado pelo autor sueco August Strindberg tinha no rancor a sua razão de viver. Destruía emocionalmente o marido de sua ex-mulher, jogando-o contra ela, numa sórdida manipulação psicológica.

O papel pesado exigia que o ator se transfigurasse, encontrando-se com seus piores instintos, fustigados pelo diretor:

- Giane, eu quero ver a sua violência!

O projeto de Cruel surgira a partir do sucesso de Passione, novela de Sílvio de Abreu que terminara em janeiro. Na TV Globo, a diretora Denise Saraceni também quisera ver a violência de Giane. Interpretando Fred, o primeiro vilão de sua carreira, ele formara com Mariana Ximenes um casal de vigaristas que ia para a cama depois de cada golpe, tamanha a excitação que a canalhice lhes proporcionava.

O mergulho do ator apolíneo de alma pura no território da maldade lhe trouxera certo transtorno pessoal. Se vira pela primeira vez irado no trânsito, xingando, querendo passar por cima dos imbecis em seu caminho - e tendo que contar até dez para lembrar que quem só via imbecis à sua volta era Fred, e não Giane. No estúdio da novela, o alvoroço do personagem também o levara a uma situação inédita.

Ao iniciar uma cena densa com Vera Holtz (sua mãe na história), em que a questionaria sobre o suicídio de seu pai - e precisando alcançar forte carga emocional -, ele parou de repente. Disse que não ia mais gravar.

No que a direção gritou "gravando", Gianecchini abandonou o texto do personagem e disparou:

- Não dá, não. Não vou fazer! Com essa bagunça no estúdio é impossível.

Em dez anos de TV Globo, ninguém nunca o vira assim, possesso. E ele continuou:

- Vocês pensam que é só chegar aqui e falar "chora", no meio dessa feira, e a gente entra e arrasa?! Não é assim, não. Quando puderem fazer silêncio e eu puder me concentrar, vocês me avisem.

Era Giane falando, mas parecia Fred. Não era uma explosão gratuita, de fato havia barulho e dispersão no set. Mas Gianecchini era o mister gentileza, jamais seria tão áspero com a equipe de gravação.

Ele estava diferente.

*

"Giane"
Autor: Guilherme Fiuza
Editora: GMT
Páginas: 304
Quanto: R$ 31,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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