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15/02/2016 - 10h39

'De Primatas a Astronautas' relata jornada do homem em busca do conhecimento

da Livraria da Folha

Há alguns milhões de anos, nossos ancestrais começaram a ficar de pé, liberando as mãos para criar ferramentas - e o cérebro para lidar com o mundo, sempre em constante mutação.

Em "De Primadas a Astronautas", o físico Leonard Mlodinow relata essa jornada de descobertas, iniciada por uma curiosidade insaciável que foi conduzindo, aos poucos, nossa espécie: desde suas origens na savana africana até os dias de hoje.

Mas como fomos capazes de fazer isso? Como saímos das cavernas para os automóveis, das árvores para os arranha-céus, de caminhar sobre dois pés para a exploração da Lua?

Divulgação
Autor relata jornada de descobertas, iniciada por uma curiosidade insaciável que conduziu nossa espécie
Autor relata jornada de descobertas, iniciada por uma curiosidade insaciável que conduziu nossa espécie

Com um linguagem simples e pontuada por bom-humor, o autor apresenta as condições culturais que influenciaram o pensamento científico através do tempo, além de citar grandes personalidades como Galileu Galilei, Isaac Newton, Albert Einstein e Lavoisier.

"À medida que nossa compreensão do mundo natural evoluiu, deixamos de pensar que as marés eram regidas por uma deusa para entendê-las como resultado da força gravitacional da Lua; paramos de ver as estrelas como deuses flutuantes no céu para identificá-las como fornalhas nucleares que enviam fótons em nossa direção [...] O fato de termos conseguido decodificar esses e outros fenômenos naturais não é apenas uma maravilha. É também uma história épica e emocionante", escreve o autor.

Leonard Mlodinow é doutor em física pela Universidade da Califórnia. Foi professor no Instituto de Tecnologia da Califórnia e pesquisador no Instituto Max Planck, em Munique, e também escreveu também para a televisão, colaborando em séries famosas como "MacGyver" e "Jornada nas Estrelas: A Nova Geração".

Ele assina os livros "Subliminar", "O Andar do Bêbado" e "A Janela de Euclides".

Abaixo, leia um trecho do livro.

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Nossa vontade de saber

Uma vez meu pai me falou sobre um esquelético companheiro, preso com ele no campo de concentração de Buchenwald, que tinha estudado matemática. Mesmo num campo de extermínio nazista é possível dizer algo sobre as pessoas a partir do que elas pensam quando ouvem o termo "pi". Para o "matemático", pi era a razão entre a circunferência de um círculo e seu diâmetro. Se eu tivesse perguntado a meu pai, que não havia passado do sétimo ano, ele teria dito que pi era a crosta externa de um círculo recheado de maçãs. Um dia, apesar do abismo entre eles, o matemático recluso propôs a meu pai um enigma. Meu pai pensou por alguns dias, mas não conseguiu decifrá-lo. Quando voltou a encontrar o preso, ele perguntou a solução. O homem não revelou, dizendo a meu pai que descobrisse por si mesmo. Algum tempo depois, meu pai voltou a falar sobre o assunto, mas o homem manteve o segredo como se fosse uma barra de ouro. Meu pai tentou reprimir a curiosidade, mas não conseguiu. Em meio ao mau cheiro e à mortandade a seu redor, ficou obcecado pela resposta. Finalmente, outro detento propôs um acordo: revelar a solução do quebra-cabeça se meu pai desse a ele o seu pedaço de pão. Não sei quanto meu pai pesava na época, mas quando as forças americanas o libertaram ele estava com 38,5 quilos. Ainda assim, sua necessidade de saber era tão forte que ele dividiu o pão em troca da resposta.

Eu estava na adolescência quando meu pai me contou esse episódio, que teve enorme impacto sobre mim. A família de meu pai estava morta, seus bens haviam sido confiscados e seu corpo estava faminto, murcho e espancado. Os nazistas o haviam despojado de tudo que fosse palpável, mas seu impulso para pensar, raciocinar e saber sobreviveu. Meu pai estava preso, mas sua mente estava livre e ele continuava a refletir. Percebi então que a busca de conhecimento é o mais humano de todos os nossos desejos, e que, por mais que nossas circunstâncias sejam diferentes, minha paixão para compreender o mundo é impulsionada pelo mesmo instinto que o de meu pai.

Quando comecei a estudar ciência na faculdade, e mesmo depois, meu pai me perguntava não tanto sobre a tecnicidade do que eu aprendia, mas sobre o significado subjacente - de onde vinham as teorias, por que eu achava tudo aquilo bonito, o que elas diziam sobre nós como seres humanos. Este livro, escrito décadas depois, é afinal minha tentativa de responder a essas perguntas.

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Alguns milhões de anos atrás, os seres humanos começaram a ficar de pé, alterando os músculos e o esqueleto para andar em postura ereta, o que liberou as mãos para sondar e manipular objetos à sua volta e ampliou a extensão de seu olhar para observar a distância. Contudo, quando erguemos nossa postura, também fizemos com que nossa mente se elevasse acima da de outros animais, permitindo-nos explorar o mundo não apenas com a visão, mas com o pensamento. Nós ficamos de pé, mas acima de tudo somos pensadores.

A nobreza da raça humana está no nosso impulso de saber, e nossa singularidade como espécie se reflete no sucesso que alcançamos, após milênios de esforço, em decifrar o quebra-cabeça que é a natureza. Um antepassado nosso que ganhasse um forno de micro-ondas para aquecer um naco de bisão talvez teorizasse que havia um exército de trabalhadores dentro do aparelho, deuses que construíam fogueiras em miniatura sob o alimento e depois desapareciam milagrosamente quando a porta se abria. Mas a verdade é igualmente miraculosa. Um punhado de leis abstratas, simples e invioláveis é responsável por tudo no nosso Universo, desde o funcionamento do micro-ondas até as maravilhas naturais do mundo ao nosso redor.

À medida que nossa compreensão do mundo natural evoluiu, deixamos de pensar que as marés eram regidas por uma deusa para entendê-las como resultado da força gravitacional da Lua; paramos de ver as estrelas como deuses flutuantes no céu para identificá-las como fornalhas nucleares que enviam fótons em nossa direção. Hoje entendemos o funcionamento interno do Sol, a 150 milhões de quilômetros de distância, e a estrutura de um átomo mais de 1 bilhão de vezes menor que nós. O fato de termos conseguido decodificar esses e outros fenômenos naturais não é apenas uma maravilha. É também uma história épica e emocionante.

Algum tempo atrás, passei um ano na equipe de roteiristas da série de TV Jornada nas estrelas: a nova geração. No primeiro encontro de criação, ao redor de uma mesa cheia de roteiristas e produtores da série, lancei a ideia para um episódio que me animou porque envolvia a verdade astrofísica do vento solar. Todos os olhos se concentraram em mim, o novato, o físico, enquanto eu detalhava minha ideia, todo animado, e mais a ciência por trás dela. Quando acabei - a exposição durou menos de um minuto -, olhei com grande orgulho e satisfação para meu chefe, um produtor ranzinza de meia-idade, ex-detetive da polícia de Nova York. Ele ficou me olhando por um tempo, com uma expressão enigmática, depois falou com muita convicção: "Cale a boca, seu intelectual de merda."

Quando superei meu constrangimento, percebi que o que ele me dizia de forma tão sucinta era que eu tinha sido contratado por minha habilidade para contar histórias, e não para ministrar um curso acadêmico sobre a física das estrelas. Essa era uma observação bem pertinente, que desde então passou a orientar minhas contribuições. (Outra sugestão memorável que ele me fez: se você sentir que está sendo fritado, diminua a temperatura da piscina.)

Nas mãos erradas, a ciência pode ser incrivelmente chata. Mas a história do que sabemos e de como o sabemos não é nada chata. É extremamente empolgante. É repleta de histórias e descobertas que não ficam nada a dever a um episódio de Jornada nas estrelas ou à primeira viagem à Lua, povoada por personagens apaixonados e peculiares como os que conhecemos na arte, na música e na literatura, por pesquisadores cuja curiosidade insaciável conduziu nossa espécie, desde suas origens na savana africana até a sociedade em que vivemos.

Como eles fizeram isso? Como deixamos de ser uma espécie que mal tinha aprendido a andar ereta e vivia de nozes, frutas e raízes colhidas com as mãos para uma espécie que pilota aviões, envia mensagens instantâneas pelo mundo e recria em enormes laboratórios as condições de nascimento do Universo? Essa é a história que eu quero contar, pois conhecê-la significa entender nossa herança como seres humanos.

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DE PRIMATAS A ASTRONAUTAS
AUTOR Leonard Mlodinow
TRADUTOR Claudio Carina
EDITORA Zahar
QUANTO R$ 35,90 (preço promocional *)
E-BOOK R$ 27,90 *

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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