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07/11/2011 - 18h30

Jornalista alerta para o uso das palavras na cobertura econômica

da Livraria da Folha

Em "Especulação Financeira", o jornalista Gustavo Patu apresenta os efeitos do mercado, a atuação dos especuladores, a crítica internacional e os riscos das aplicações. No texto, também há espaço para o debate sobre a responsabilidade da imprensa ao escolher as palavras.

Reprodução
Jornalista explica a natureza e os efeitos da especulação
Jornalista explica os problemas, os riscos e os efeitos da especulação

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O livro faz parte da coleção "Folha Explica", série composta por mais de 80 volumes breves que abrangem de forma sintética diversas áreas do conhecimento. A finalidade é oferecer condições para que o leitor fique bem informado e possa refletir sobre questões atuais por um preço acessível.

Cada título resume o que de mais importante se sabe sobre o assunto. Darwin, Nietzsche, Freud, música popular, narcotráfico e violência urbana são exemplos da diversidade dos temas tratados.

A lista de autores que contribuíram para a série inclui nomes como Drauzio Varella, Marcelo Coelho, Alfredo Bosi, Fernando Gabeira, Moacyr Scliar, Marcelo Leite e Rubens Ricupero. Leia um trecho do exemplar.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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A ESCOLHA DAS PALAVRAS

Houve um ataque especulativo contra o Plano Real

A maior parte dos jornalistas e políticos brasileiros nunca tinha ouvido a expressão até março de 1995. No dia 12 daquele mês, o então presidente do Banco Central, Pérsio Arida, começava assim uma entrevista publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, a respeito do aparente caos recém-instalado na economia brasileira.

Não estava claro para ninguém o que se passava com a nova moeda do país, o real, que já havia reduzido a inflação a níveis quase civilizados e elegido um presidente que prometia estabilidade. Apenas uma semana antes, o Banco Central havia elevado o valor do dólar. Desde então, noticiava-se que investidores haviam iniciado um movimento maciço de compras da moeda norte-americana. Algo como US$ 4 bilhões deixariam o país até o final daquele mês. Insinuava-se que alguns bancos teriam obtido informações privilegiadas do governo para lucrar mais facilmente. Os juros haviam disparado, o que viria a provocar desemprego, inadimplência e quebra de bancos. Arida poderia ter explicado tudo de maneira mais simples, que todos entenderiam:

Os investidores acham que o Plano Real vai dar errado.

Com um artigo publicado em 1983, Arida foi um dos pioneiros no Brasil da discussão sobre a importância da retórica no estudo da economia, ciência cujas teorias não podem ser provadas nem refutadas pelos métodos científicos. A retórica, a arte de convencer platéias, existe porque existem formas mais e menos convenientes de dizer a mesma coisa. As duas frases citadas acima parecem muito diferentes, mas apenas dizem o mesmo a partir de duas leituras possíveis sobre a atividade conhecida como especulação financeira.

A escolhida: em todo o mundo, bancos, corretoras e fundos de investimento possuem em seus quadros especialistas --alguns deles com o prêmio Nobel em seus currículos-- em lucrar com a variação do preço de moedas, taxas de juro, empresas, imóveis, petróleo, até produtos agrícolas. Negociam diariamente bilhões de dólares, mas não estão interessados em fabricar produtos ou gerar empregos. Procuram unicamente chances de ganhar dinheiro no menor intervalo de tempo possível, e para isso possuem escritórios em locais tão diferentes como a Tunísia e a Tailândia. Quando encontram a oportunidade, sua ação é comparada à de piranhas que descobrem sangue num animal que atravessa o rio. Se acham que o dólar pode subir, investem o dinheiro que têm e o que não têm na compra da moeda, num "ataque" tão violento que o dólar acaba mesmo subindo.

O espaço para a atuação desses especuladores se multiplicou nas últimas décadas. A partir dos anos 70, os países deixaram que suas moedas variassem livremente, criando involuntariamente um enorme mercado para os que desejam apostar nas variações. A expansão da informática e a liberdade para a circulação internacional de capital permitem que, em minutos, uma mesma pessoa venda ações no Brasil e compre ouro nas Filipinas. Novas modalidades de aplicação criadas a cada dia permitem investir num negócio uma quantia várias vezes superior ao dinheiro que efetivamente se tem no bolso.

Uma proporção minúscula dos especuladores tem nome e sobrenome conhecido, mas há casos de vencedores e perdedores que ajudam a povoar o imaginário sobre o tema. De um lado, o húngaro radicado nos Estados Unidos George Soros se tornou o ícone do que se convencionou chamar de megaespeculador: ficou famoso por lucrar US$ 1 bilhão de uma só vez em 1992, quando apostou na desvalorização da libra, vencendo nada menos que o banco central da Inglaterra, que tentava manter o valor de sua moeda. De outro, Nick Leeson, um jovem de 28 anos, perdeu sozinho alguns bilhões no mercado de Cingapura, levou à falência em 1995 o tradicional banco inglês Barings e acabou preso.

Há outras formas de descrever os mesmos fatos.

Uma delas: a poupança é o primeiro passo para o desenvolvimento econômico e social. Poupar significa um sacrifício no presente, com objetivo de ganho maior no futuro. Pais deixam de gastar todo o dinheiro que têm agora para que seus filhos tenham vida melhor mais à frente. Trabalhadores guardam parte de seus salários ao longo da vida para ter maior conforto na velhice. Na sociedade, há pessoas que possuem dinheiro para economizar e pessoas que precisam de dinheiro para começar ou ampliar seus projetos. Bancos, corretoras e outras empresas do setor financeiro servem para fazer com que os dois lados se encontrem: recebem o dinheiro dos poupadores e o emprestam aos empreendedores; os lucros destes viram os rendimentos daqueles.

Entre os empreendedores em busca de recursos, estão empresários que vendem ações de suas companhias, agricultores que querem negociar sua safra e países que precisam financiar seu progresso ou controlar a inflação. Diante de alternativas tão diferentes, o sistema financeiro contrata especialistas para avaliar os riscos e as possibilidades de retorno de cada negócio. Boas oportunidades devem ser aproveitadas rapidamente, antes que todos os concorrentes as descubram. Transações de maior risco devem envolver uma parte menor do dinheiro disponível e ser abandonadas quando houver sinal de perigo, para minimizar as perdas dos poupadores e investidores.

Com o objetivo de tornar mais eficiente o encontro entre poupadores e empreendedores, o mundo facilitou o movimento de capital de país para país. Graças a isso, o Brasil pôde atrair algo como US$ 60 bilhões para suas reservas, o que permitiu tornar o dólar e os produtos importados mais baratos, pondo fim a uma inflação crônica que persistia havia décadas. México, Argentina e outros países latino-americanos fizeram o mesmo. Os países do Leste Asiático criaram empresas com tecnologia de ponta e reduziram enormemente seus índices de pobreza.

Para os muito interessados nos conceitos da nada exata ciência econômica, a escolha entre as duas visões é uma discussão sobre a racionalidade do mercado e/ou do sistema financeiro. Num sistema racional, investidores procuram o maior lucro possível e fogem da possibilidade de perder seu dinheiro. Individualmente, cada investidor ou especulador é movido apenas por ganância --ou medo. Já a ação conjunta deles resulta em benefícios para toda a sociedade, porque permite a seleção dos empreendimentos de maior retorno e o abandono de projetos inviáveis.

Do outro lado, está a descrição de um sistema financeiro mundial caótico, sem regras, sem controles, sem objetivos; um não-sistema, como se tornou comum classificá-lo. Um cassino trilionário em que os perdedores costumam ser países de Terceiro Mundo que falham na tentativa de seguir o pensamento da moda nos grandes bancos multinacionais. Não há muito de racional aqui: o México, por exemplo, foi motivo de otimismo e grande alvo de investimentos de todos os tipos durante anos, antes de ter sido repentinamente abandonado no final de dezembro de 1994. Países do Leste Asiático eram chamados de "tigres" até suas moedas desabarem em 1997.

Mas há também um debate político por trás da escolha entre as duas alternativas. Se o sistema é racional, investidores procuram países que oferecem possibilidade de lucro por praticarem políticas econômicas corretas e viáveis e os abandonam se e quando entendem que há um risco de colapso. O culpado por eventuais problemas é o país, mais precisamente o governo que o administra. Na outra versão para os fatos, são os especuladores que provocam o colapso econômico com seu vaivém irracional. O país e o governo apenas deram o azar de fazer parte do mundo.

Desde 1995, quando jornalistas, políticos e o público não-especializado do Brasil foram apresentados à discussão sobre a moderna especulação financeira, as duas leituras --e outras possíveis --têm se alternado nas reportagens, análises e discursos, dependendo das conveniências de momento, do humor e da ideologia de quem está falando. A entrada de dinheiro externo no país foi saudada como um sinal de otimismo de investidores confiantes no futuro, e, nos momentos de saída, os mesmos investidores foram chamados de especuladores; investigou-se a possibilidade de manobras espúrias por parte de bancos e seus especialistas, como espalhar boatos e obter informações privilegiadas para lucrar mais; observou-se, em momentos de crise, até organismos internacionais e países de Primeiro Mundo hesitarem nas suas convicções sobre o livre trânsito de capitais, para retomá-las quando voltava a prosperidade.

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"A Especulação Financeira"
Autor: Gustavo Patu
Editora: Publifolha
Páginas: 96
Quanto: R$ 15,12 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
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